Odisseia Brasileira

Odisseia Brasileira

Odisseia Brasileira

Levanta ainda escuro

Com as notas contadas

A cabeça no futuro

E as contas atrasadas

 

Ganha seu salário de fome

Como tantos de mesmo nome

Brasileiro, baixa classe média

Sobrevive entre o riso e a tragédia

 

Vive de cansaço

Com o coração apertado

E o mundo reduzido

A metro quadrado

 

Cada dia é uma peleja

Uma jornada por migalhas

Enquanto, do bolo, nem a cereja

Outros se fartam em muralhas

 

Pelas ruas lotadas

A morte escondida

Aguarda a derrocada

Do homem sem saída

 

No desespero da crise econômica

Tornou-se engrenagem

De uma fábrica astronômica

Onde se camufla na soldagem

 

Na produção em massa

Seus anseios são processados

Para se tornarem fumaça

E dejetos plastificados

 

No celular parcelado, um alento

Detritos virtuais como alimento

Ofuscando a carteira vazia

E, das dívidas, a azia

 

Na volta, a revolta comprimida

Do empregado robotizado

Que, no trânsito da avenida,

Agradece pelo dia finalizado

 

Amanhã o ciclo se repete

A odisseia recomeça

Pelas terras do confete

Onde a mudança não interessa.