Manhã do novo ano

Âncora

Manhã do novo ano

É o primeiro dia do ano. Acordei e continuei deitada na cama, com uma âncora no meu peito. Pego a âncora, jogo no chão, levanto da cama. Percebo que ela continua atada aos meus pés. Continuo meu dia, sorrio como se nada estivesse acontecendo. Nem todo mundo entende as âncoras. Só quem tem uma âncora própria sabe como é arrastar esse peso todos os dias, de cima para baixo, o tempo todo. Tem dias em que ela parece mais leve, mais fácil de carregar. Em outros, é como se houvessem trezentas âncoras. Tem dias que eu carrego apenas a minha, enquanto em outros, carrego também as âncoras alheias. Essas são mais fáceis de largar por aí. Minha âncora nem sempre tem a mesma cara, nem sempre tem o mesmo peso, mas está sempre comigo e só eu posso lidar com ela. Só eu posso diminuir seu peso, deixar ela de lado, cortar suas amarras de mim. Mas nem sempre existe a força necessária para tal feito. O dia termina. Fiz tudo que deveria fazer. Carreguei minha âncora. Sozinha. Deitei, coloquei ela de lado. Amanhã é outro dia. Uma nova tentativa será feita em direção à soltura das amarras. Dormi.

Meu único desejo pro novo ano é largar essa âncora.