Capítulo Único

clavicórdio.

Capítulo Único

Não achei que esse dia chegaria, era tudo o que ele conseguia pensar; as palavras repetindo na cabeça como um velho toca fita.
O vapor subia da xícara, os lábios ressecados se contorcendo naquele assopro fraco. Ele quase podia sentir a poeira acumulada nas rugas ao redor dos olhos sem brilho. Aqueles olhos eram apenas uma confirmação de um diagnóstico bastante evidente: estava morto. Morto respirando, bebendo, saindo, comendo e vivendo. Morto vivendo.
Seu interior já fora há tanto esquecido que ele mal se lembrava que possuia algum; aquela caixa de ossos que guardava o coração era só isso, uma caixa. No começo doía, é verdade, os cacos sendo jogados de um lado para o outro. Mas tanto foi o balanço que se acostumou, e mal percebia o então coração espedaçado.
Até que um dia, o viu. Na realidade, sempre o via, mas não de verdade.
Naquele dia voltando pra casa, sem querer, viu o por-do-sol.
Aquilo lhe lembrou tudo. Tocava seu peito com dedos delgados como um artista num clavicórdio; a caixa toráxica ecoava os sons de um coração há muito partido, e que enfim tinha sido achado.
Mesmo em casa, a luz dourada do sol ainda lhe iluminava a memória. Não achei que esse dia chegaria, era tudo o que ele pensava. Deixou a xícara de lado e tocou o próprio peito com os dedos. Estava lá. Seus olhos se iluminaram de dentro pra fora.
Se deitou em sua cama e como um recém nascido, chorou. Nasceu.