Capítulo 1: “À vista do velho amigo”

Maculado

Capítulo 1: “À vista do velho amigo”

O barulho da grama seca de outono se arrastando no solo me esfregava os ouvidos, enquanto o vento levava adiante o sol ao descanso. Ao galopar entre os músculos rígidos do cavalo abaixo de mim, guio-nos para casa. Abro a porta coberto de cansaço e de uma manta de couro que me protegia no campo.

Já era hora, disse uma mulher de meia estatura, vestes simples e molhadas de respingos da pia. Minha mãe, estou aqui. Sua atuação beira à mesa, me fez lembrar os cuidados que ela tinha com a casa em nossa infância.

O inverno já se recolhia por de trás do íngreme telhado. Morávamos há quilômetros da vila mais próxima, onde fazíamos compras no mercado, estudávamos e trabalhávamos – pelo menos o meu pai. Nessa época, eu tinha de cinco a seis anos e bastava-me a alfabetização. Papai já servia ao fórum como juiz e era de costume cuidar de inúmeros julgamentos envolvendo bruxaria e feitiçaria. Muitas das mulheres que se consideravam curandeiras a serviço do povo eram queimadas, salvo as que não eram decapitadas pelo Carrasco. Essas senhoras utilizavam-se da mata vizinha à nossa casa para buscar ervas, pedras e cultivarem suas plantações. Lembro-me de cada final de tarde ouvindo os passos leves e os panos pesados sobre a terra e o gelo. Vivíamos bem.

Heitor e eu, duas crianças, dividíamos o mesmo quarto ao fundo da casa, éramos próximos, brincávamos muito e quando ainda nos restava o bom humor trocávamos grandes fábulas de cavalaria aos pés da cama. Pela manhã todos os meninos da vila estudavam em salas opostas as meninas. Gastava três horas por dia aquecendo aqueles frios bancos de madeira.

Após o almoço Heitor e eu ajudávamos nossa mãe com a horta e os animais, quando não soltávamos algumas ovelhas pasto acima conseguíamos cultivar boas verduras. Todos os dias Greice arrumava, cozinhava, lavava e ainda preparava a horta. Quando tínhamos alimento para colher, pegávamos o necessário e o restante era vendido a uma mulher de lenço e nariz grande, que revendia estes em sua banca na feira da cidade. O bailar desses dias, porém, não duraram muito. Ao menos, não para mim.

Não suje o chão com a sua imundice, Emanuel! Vá se lavar! Estou a aprontar o jantar. Disse minha mãe com a voz firme. Encosto minhas roupas no aparador e deixo a água respingar em meu corpo nu. As gotas, que ganham força e espessura, cobrem-me as cicatrizes do peito e rasgam no meio a terra seca em minhas pernas. Com a vista mais embaçada que o normal, enxugo-me no pano de algodão e visto as sandálias.

Quer nos contar como foi o seu dia na armada, Heitor? Perguntou minha mãe servindo à mesa batata cozida, carne de porco, cebola assada, e salada. Nesta manhã ouvi o Capitão falar aos senhores da terceira frente sobre um novo confronto que teremos, parece uma nova tentativa de expansão à terras vizinhas. Parece-me ser algo grande. Responde Heitor. Corto a batata, abro a cebola. Não sei ao certo mãe, mas parece que partiremos logo, levaremos as tropas d’oeste e nos alojaremos lá. Continuou. Porém, Heitor, acalme-se, como você mesmo disse, ouviu falarem isso, espere eles comunicarem você.

A carne de porco saliva-me a boca, enquanto mexia as folhas em meu prato. Sua mãe tem razão filho, sabe como corre os boatos. Replicou o meu pai, homem que chegara a pouco carregado em um tílburi.

Retirado, em repouso na cama após uma vasta conversa sobre as atividades de Heitor, ouço a chuva que a longe se aproxima. O vento corta a janela em agudos assobios. Acordo poucos minutos depois com o barulho da tempestade de encontro com as árvores. Com um susto lembro que deixei o cavalo amarrado lá fora.

Aos tropés corro até a porta de casa, cambaleando nas escadas. Ouço o rebuliço do Marujo enquanto tateava as chaves. A chuva batia de frente à casa, as altas árvores se inclinavam ao chão. Ei! Amigo!!! Calma aí, já vamos lá! Disse em alto som.

A grama cobre as pernas e a lama ouriça os pés, inteiramente molhados enfrentamos a tempestade e chegamos ao estábulo. Fito Marujo nos olhos, a criatura está triste, cansada e gelada. Desculpe grandão! Não fiz por mal. Deixa-me falando sozinho e leva suas patas ao monte de feno.   

Retiro sua cela e acomodo-o no canto. Ainda sob tempestade achei melhor continuar a dormir ali mesmo, em meio às armas e ao cheiro forte de animal. Junto alguns estrados de madeira, cubro com a palha seca do feno e repouso esperando a noite terminar.

Sobre a corda bamba há uns dois metros do chão, vejo um senhor que me cumprimenta com um largo sorriso no rosto, eu o correspondo por educação. Não sei quem é. Mas certamente trabalha com meu pai. No grande centro da vila é onde partilhamos tudo: comida, cultura, música, sexo, trabalho, e conversas a fora.

Caminho ainda de manhã entre as pessoas até alcançar a feira, à esquerda encontro uma confortável barraca, colorida de panos remendados, e hasteada com paus de bambu, uma mulher por detrás me diz, Querido?! O que vai querer? Tinha pernas curtas e grossas, mal a via escondida entre os mamões, era arqueada pelas costas curvadas. Preciso de dez ovos, por favor. Agora não precisa mais, tome! São cinco cruzados.

O lugar é um mar de gente. Comerciantes. Feirantes. Malabaristas. Violinistas. Ciganas. Baianas. Curandeiras. Bordadeiras. Raparigas. Brigas. Soldados. Palhaços. Padres. Madres. Ricos. Esmoleiros.

Retornando para casa, atravesso a rua movimentada por cavalos, quando ouço distante, Manu!!! Emanuel!, alguém chamar em alto tom. Viro-me e não consigo encontrar o locutor. Aqui cara! Manu?! Diz a voz se aproximando. Moises! Quanto tempo amigo! Respondo com um abraço fraterno. Desculpa Manu, esqueci da sua vista, deveria ter me aproximado antes de gritar. Não por isso Íses, sua altura também não ajuda muito! Como um encontro de velhos amigos, dispensamos boas risadas.

Há quanto tempo Íses, estou contente em revê-lo! Sim. Faz um bocado, não?! Ah, antes de continua a nostalgia, desculpe a grosseria, esqueci de apresentar a você Marrie. Marrie este é um grande amigo de infância, amigo de longa data, está é Marrie. Íses carregava ao lado uma linda mulher. Batom vermelho escuro. Bijuterias. Vestido preto. Botas de couro. Julguei ser uma prostituta. Acredito não ter julgado errado.

Prazer... Manu. Cumprimentou-me ela com um sotaque arrastado, não reconheci este. Prazer Marrie. E antes que eu pudesse tomar fôlego para continuar a frase Íses me interrompeu dizendo, É realmente temos muito assunto para botar em dia, Marrie! Por que não me espera a diante? Dê-nos um momento. Com isso Marrie largou os cabelos cacheados dele e distanciou. Uma moça agradável.

Marrie é uma boa moça, conheci esta manhã! Imagino que seja.Respondi.Então rapaz, o que tem feito por aí? Moises, continuo minha capacitação, estou a me formar amigo! Parabéns, isso é ótimo! Sorria para mim apertando-me o ombro enquanto caminhamos. Está mais forte desde que nos vimos pela última vez.Você conhece o treinamento... é extremamente pesado, e cumpro a mesma rotina a semana toda, quero encerrar o módulo o quanto antes. Nossa! Você já está no Cavaleiro? Sim, iniciei este módulo há poucos meses, tive uma alta nota no módulo Arqueiro, espero que seja melhor ainda, assim conseguirei atuar na terceira frente. Cara! Isso é muito bom, estou orgulhoso. Obrigado.

Mas e você? O que tem feito? Poderia se alistar na capacitação o quanto antes! Manu, não me leve a mal, mas digamos que eu não me identifico muito bem as armadas, não, desculpe. E continuou, Você sabe que eu tenho um tio que trabalha com armamentos há anos, muitos anos inclusive, e ele não está muito bem de saúde atualmente. Venho conversando com ele já alguns meses e quero dar continuidade aos seus negócios, estou investindo na fabricação de armamentos, meu caro. Espadas, escudos, ferraduras para cavalos, sabe como essas coisas dão dinheiro em terras como a nossa?! Reflito com um olhar baixo, Posso imaginar.

Sorrio para meu velho amigo, não sei até que ponto ele está tomando suas escolhas por gosto ou dinheiro, mas alegro-me por ele, essa é sua vida e sua empolgação contagia-me, Isso é ótimo! Principalmente se já tem alguém que iniciou esse ramo na família, vá em frente! É... aí que está o problema, Manu, família. Principalmente meu pai, ele quer, e quer muito, que eu servia as armadas assim como ele serviu um dia, e sabe-se lá Deus o que meu pai pode fazer quando souber dessa minha escolha.

Íses, não creio que ele irá se decepcionar, afinal você fabricará escudos e tenho certeza que belíssimas espadas, não venderá flores. Sabe como é difícil achar boas ferragens. Ele acena a cabeça como se compreendesse cada palavra que eu dizia. Nossa saudosa conversa me deslocou à juventude. Íses e eu nos conhecemos na escola desta vila, tinha alguns sete anos, crescemos juntos, e fomos grandes amigos até nossos quinze anos, após isso ele se mudara para um vilarejo distante, e eu, no ano seguinte me alistei na capacitação. Conhecendo-o desde que me entendo como homem, foram longos anos de brincadeiras, namoradas frustradas e namoradas bem sucedidas! A divisão da escola por sexo nunca dificultou as coisas, para isso tínhamos as pedras atrás da fonte. Para tudo dávamos um jeito, éramos, ou somos, como irmãos, conheço sua família e ele a minha. Bons amigos assim valem por uma vida toda.

Você está de mudança ou somente veio visitar seus familiares? Pergunto. Manu, estou me mudando para cá, novamente, como falei, tenho que acertar as coisas da loja, vou morar na casa das ferragens até encontrar um lugar que eu consiga comprar, isso, bem, se for necessário, vou me adaptando até lá... Que bom, amigo! Estava cheio de alegria em tê-lo por perto novamente. Então nos veremos em breve, ainda moro na mesma casa. Claro! Ah, avise-me quando for a sua capacitação, não quero perder o evento do ano! Está certo! Avise-me quando seu pai souber dos seus trâmites. Com certeza. Rimos juntos, partilhando o último momento que nos unia.

Rever Íses trouxe muita afetuosidade em minha alma, sentimento este que estava inerte durante algum tempo, contudo, ao mesmo tempo, retomar uma pessoa tão trivial em minha vida, despertava-me para os meus fantasmas do passado. O calor dava então lugar ao mal presságio que estaria por vir?

Capítulo 2: "Desgosto"