TU

Tu

TU

Tem um amor aqui

É teu.

 

Desde que decidimos olhar a vida nos olhos

É teu o olhar que me acompanha

Na fumaça perdida da noite.

 

Gosto da tua cara limpa

Do teu pescoço e

da meia dúzia de fios de cabelo teimosos

No alto da tua cabeça.

 

Me reconheço.

Me conheço novamente no que te estranho

Silencio diante do teu olhar que me desafia

Recebo-te, dou-te colo, paragem.

Calada, aceito o convite pra vislumbrar o que em ti

É ainda mistério.

 

Eu que sempre fui tudo ou nada

Aceito contigo a dança

Improviso.

 

Não sei dançar e, por isso, me

Angustia a perda do compasso

Do tempo. Do que podemos ser

Poderíamos? Poderemos?

 

 

 

As palavras não servem de muito.

Tenho que confiar.

Na tua dança,

Nossa.

 

No que antecipo

No que tento,

No que mostro.

Onde arrisco

 

Somos sentido.

 

E apoiada no batente da tua porta segurando minha xícara

me vejo agradecida

Pelo teu sorriso

que me leva de volta ao caminho dessa linguagem

Que conheço.

Sei ouvir.

Os sons. Os tons.

 

Tom, tom, semitom.

Os acidentes moram fora das escalas

Mas o que seria da melodia sem eles?

Só eles dão conta das curvas, do fluido.

Como nossos exatos desencontros.

 

Sustenido,

A mão na minha sobre a mesa

Bemol,

As mãos que se procuram no gesto.

Intervalo,

O olhar que escapole

e flagra as mãos na mesma posição

Segurando a mesa no mesmo lado e uma defronte a outra

No limite que impede o toque.

 

Acordes maiores,

O teu abraço rápido

Apertado no fim.

Minha vontade de parar

Ali e te dizer tudo.

Dizer, ter, ser.

De uma vez.

 

Mas você sabe.

E também sabe que não sabemos dizer

Ou não basta.

 

Ré menor,

Os disfarces dos nossos medos

A evitação do voo. Ou preparação?

Uma oitava nunca é igual a outra, meu bem.

 

Tem um amor aqui

É teu.