Parte 2

Dezesseis

Parte 2

Voltamos a subir a trilha, sinto as minhas pernas começarem a formigar. Thalita está andando a minha frente com Duke quando algum tempo depois ela afasta um arbusto e dou de cara com uma paisagem estupenda. O chão de pedra se estende a frente, o céu azul claro e com quase nenhuma nuvem, colinas e lagos se estendem a baixo, eu avanço um pouco mais e olho para trás esperando Thalita me acompanhar.

— Ah, pode ir — ela diz — é perigoso ir com o Duke aí, ele pode acabar caindo ou derrubando a gente.

Ela sorri, sem graça. Eu aceno e continuo avançando pela pedra até estar perto o suficiente da beirada para admirar a paisagem. Sinto o vento em meu rosto e me permito observar o verde da paisagem por alguns minutos. Depois volto para onde estávamos. Thalita está sentada na pedra com Duke deitado ao seu lado. Ele levanta assim que me vê voltando e Thalita segura à coleira com força para que nenhum acidente aconteça.

Faço um carinho em Duke antes de me sentar ao lado de Thalita.

— Linda, não é?

Eu sorrio com o canto dos lábios.

— Você ou a paisagem?

Thalita ri. Naquele silêncio da montanha reparo que o som da sua risada é uma das coisas mais bonitas que já ouvi.

— Eu e a paisagem. — ela responde me olhando com o canto dos olhos e passando a mão pelo cabelo.

— Concordo.

Viro o rosto e a fito, Thalita faz o mesmo, consigo sentir sua respiração, meu coração bate acelerado. Ela leva uma das mãos ao seu cabelo e o solta, ele cai pelos seus ombros e o cheiro do seu perfume me invade. Observo cada movimento dela, hipnotizada, sem conseguir me mover. Meus olhos descem para seus lábios. Thalita sorri e me diz:

— O que tá esperando para me beijar?

Ela mal termina a frase e eu avanço, nossos lábios se encontram, levo uma de minhas mãos até sua nuca e aproximo meu corpo do dela. Sinto a mão de Thalita em minha cintura e o gosto dela em minha boca. Ficamos longos minutos nos beijando e confesso que só paro porque fico sem ar.

Abro os olhos e a beijo rapidamente mais algumas vezes. Thalita sorri para mim, eu sorrio de volta e levanto o olhar. No momento seguinte meu sorriso se desfaz.

— Cadê o Duke? — digo me levantando.

Thalita olha para trás e em seguida para sua mão onde deveria estar a coleira.

— Ah, minha nossa senhora, eu soltei ele sem querer!

Caminho até a beirada da pedreira e Thalita me segue.

— Será que ele caiu?

Ela balança a cabeça e seus olhos se enchem de lágrimas.

— A gente teria ouvido alguma coisa, não? Ele nem latiu.

Eu assinto e a envolvo e meus braços.

— Tem razão, me desculpe...

Thalita encosta a cabeça em meu ombro e depois continuamos andando. Chegamos à beirada da pedra, me abaixo, respiro fundo e tomo coragem para olhar para o chão. Sinto tontura e volto rapidamente. De qualquer forma não há muito o que ver, estamos em um lugar muito alto.

Viro-me para Thalita, ela tem lágrimas escorrendo dos olhos e as limpa rapidamente.

— Talvez ele tenha ido atrás de algum pássaro pelas árvores.

Ela balança a cabeça.

— Pode ser.

Voltamos para a trilha, Thalita desesperadamente grita o nome de Duke para as árvores, não temos resposta. Seguimos atentas a qualquer barulho, mas só ouvimos o som das folhas com o vento e nossos passos contra as pedras. Voltamos um pedaço da trilha sem encontrar rastros dele em nenhum lugar.

Thalita vira-se e começa a caminhar de volta para onde viemos.

— Ele não veio por aqui. — ela diz

— Como sabe?

Ela me ignora e continua andando, sigo atrás dela. Estamos de volta ao mesmo ponto que dá abertura para a vista. Ela vira-se para o lado oposto e se abaixa perto da grama, junto-me a ela. Desço o olhar para a grama que se estende montanha abaixo, está amaçada como se tivesse acabado de ser pisada. Thalita levanta-se e sem pensar duas vezes começa a descer. Eu a sigo.

— Thalita, espera. — digo, mas ela mais uma vez não me responde.

Ela se embrenha pelas árvores cada vez mais. Tento seguir no mesmo ritmo, mas não consigo, a montanha é muito inclinada e tenho medo de escorregar e cair, meus passos contra as folhas são cautelosos em contraste com os de Thalita que se distanciam cada vez mais de mim.

Sinto minha respiração ficando ofegante. Olho para trás e não consigo ver o lugar de onde viemos, apenas árvores, todas iguais. Olho para frente novamente e Thalita está cada vez mais distante. Desvio de uma árvore antes de pedir mais uma vez para ela me esperar, as palavras mal saem de minha boca quando piso em um punhado de folhas molhadas com musgo e escorrego. Tento apoiar a mão no chão, mas não adianta caio de bunda ouvindo o estalo de meu pulso que tentou parar a queda. Levo minha mão esquerda até o pulso, o giro para verificar se está tudo bem, sinto uma pequena dor. Espero que tenha sido só uma torção.

Apoio-me na árvore ao lado para me levantar e quando olho para frente não vejo Thalita em lugar algum.

— THALITA! — grito para as árvores e não tenho resposta.

Olho para os lados, não sei mais por onde viemos. Continuo descendo no mesmo caminho que estávamos, pois penso que ela não deve estar muito longe. As árvores passam a minha frente, as folhas, o barulho dos pássaros e nada de Thalita. Começo a suar frio, ouço um barulho ao lado e paro, fico alguns segundos esperando, mas não vejo nada.

Sento nas folhas cobertas por musgo, não sei o que fazer. Meus olhos se enchem de lágrimas, tento limpá-las com as mãos e percebo que estão cheias de terra. Desisto e as deixo escorrer. Chamo por Thalita mais uma vez e por Duke também. Não tenho resposta. Levanto-me e decido tentar voltar, viro e começo a subir a montanha, imagino que em algum ponto chegarei de volta a trilha.

Estou bem mais lenta. A cada quatro passos preciso parar para respirar. Não caminhei muito quando me deparo com uma enorme pedra. Não me lembro de tê-la visto quando subi.

Dou a volta na pedra para continuar subindo quando ouço o estalo de um galho se quebrando. Paro de andar, olho para os lados e não vejo nada. Penso em recomeçar a caminhar quando sinto uma mão em meu ombro. O susto é tão grande que grito e sinto todos os pelos do meu corpo de eriçarem.

Quando me viro encontro um homem.

Dou alguns passos para trás me afastando. Reparo que possui uma barba espessa, linhas de expressão pelo rosto e a barra de calça suja de terra. Ele ergue os braços e logo diz.

— Me desculpe, não quis te assustar.

Estou em choque e não consigo responder.   Olho para os lados e dou mais um passo para trás. Sinto meu coração pular tanto que parece que irá sair pela garganta, suor escorre pelo meu pescoço.

— Eu ouvi você gritando, está perdida?

Balanço a cabeça negativamente. Ele franze o cenho.

— Tem certeza? Você parece bem perdida para mim.

Balanço a cabeça mais uma vez, engulo seco para conseguir responder.

— Estou voltando para a trilha.

— Tem um caminho bem mais fácil para voltar para trilha do que por aí...

Dou mais alguns passos para trás.

— Eu estou bem, obrigada.

Ele passa a mão pela barba e eu passo os olhos pela jaqueta larga que usa, aposto que possui vários bolsos. Será que ele tem uma arma escondida? Arrisco que é um serial killer. Ou eu que estou ficando paranoica?

— Olha, tem um lago aqui em baixo — ele diz enquanto aponta — encontrando o lago é só caminhar para a direita que logo você encontra uma trilha que vai te levar lá pra cima, mais fácil do que continuar por aqui. Não tem como se perder.

Eu assinto, mas ainda não consigo me mover. O homem continua me olhando esperando por uma resposta.

— Bom, você que sabe — ele diz dando de ombros — só estou tentando ajudar.

Ele vira-se e começa a caminhar de volta. Eu olho para o lugar onde estava indo, as mesmas árvores por todo lugar. É loucura tentar voltar sozinha.

— Espera! — Eu o chamo — Você disse que é só descer por aqui? — pergunto apontando pela mesma direção que ele indicou há alguns segundos.

O homem vira-se novamente e assente.

— É, estava lá antes de subir aqui para te procurar... — ele abre um sorriso — dia de pesca.

Arqueio a sobrancelha.

— No Natal?

Ele dá de ombros.

— E tem coisa melhor do que comer peixe fresco? Ainda mais em dia de Natal!

Sorrio. Ele recomeça a andar e o sigo. Não conversamos durante o caminho e mantenho uma distancia segura entre nós. Pouco tempo depois já consigo ver o lago de qual ele falava. Respiro aliviada por saber que não estava mentindo e aperto o passo.

Estamos quase chegando quando ouço um latido. Arregalo os olhos e paro de andar, vejo uma mancha marrom correndo a beira do lago.

— Duke! — exclamo sorrindo.

Aperto ainda mais o passo, tentando me equilibrar para não escorregar por entre as folhas. Chego ao lago e encontro Duke correndo atrás de um pássaro.

 — Duke! — o chamo novamente, ele vira-se e corre até mim.

Ajoelho-me e abro os braços o esperando, Duke pula e me derruba na terra. Não me importo. O abraço enquanto ele lambe meu rosto. Estou tão feliz em vê-lo novamente que está me esqueço do homem que me indicou o caminho.

— Ah, então ele é seu — ouço sua voz atrás de mim — imaginei que um cachorro bonito desses não poderia ser de rua.

Com algum esforço tiro Duke de cima de mim e me levanto.

— Na verdade ele não é meu, é de uma amiga, estávamos à procura dele quando nos separamos. — respondo enquanto tento tirar a terra do meu cabelo e da minha mochila, mas parece inútil.

O homem passa a mão pela barba novamente.

— Bom, eu não vi mais ninguém por aqui.

Eu assinto. Duke chega mais perto, faço carinho em sua cabeça, pego sua coleira e levanto-me.

— Certo, se você a ver diga que vou estar esperando lá em cima de onde tem a vista para as colinas.

Ele balança a cabeça.

— Pode deixar que digo, sim.

Eu sorrio, ele sorri de volta, começo a caminhar, ele se dirige para um toco de madeira cravado na terra, e senta-se. A sua frente está a vara de pescar com a linha e o anzol dentro da água. Ele abre a jaqueta e tira de lá um maço de cigarros.

— Tchau — eu digo em seguida — e obrigada.

Ele vira-se e acena.

— Vá pela sombra, e feliz Natal!

Aceno de volta.

— Feliz Natal!

Continuo andando na beira do rio. Duke por várias vezes se distrai com os barulhos à volta e tenho que chamar a sua atenção para o caminho. Alguns passos depois encontro a trilha e decido jogar uma água no rosto antes de começar a subir, sei o que me espera e que a caminhada será longa.

Ajoelho-me na margem do lago e recebo com alívio a água gelada. Não sei se deveria, mas bebo alguns goles também. Levanto o rosto e vejo de outro ângulo o homem sentado junto de sua vara de pesca. Recordo-me que não perguntei o seu nome.

Levanto-me, tento tirar um pouco da terra no joelho e sigo. Duke não parece nenhum pouco cansado, andando a minha frente balança o rabo de um lado para outro. Entramos na trilha e começamos a caminhada devagar. A cada dois ou três passos eu tenho que parar para descansar e recuperar o fôlego. Logo estou morrendo de sede novamente. Duke pacientemente me espera a cada parada, senta-se ao meu lado e aguarda por um carinho até recomeçarmos a andar.

Não faço a mínima de ideia de quanto tempo ficamos na trilha até chegarmos novamente ao ponto da montanha em que eu e Thalita nos beijamos. Meu estômago ronca de fome e tenho certeza de que já passou do horário do almoço. Sento em um tronco próximo a trilha com Duke ao me lado. Seguro sua coleira com tanta força que sinto minhas unhas contra a palma da mão.

Respiro fundo algumas vezes e sinto pequenos mosquitos voando a minha volta. Balanço a cabeça para tentar afastá-los, mas não adianta, logo voltam. A qualquer barulho que ouço olho ao redor para ver se encontro Thalita.

Os minutos passam e minha fome aumenta, chego até a pensar que não seria ao todo ruim se eu tivesse ficado em casa de ajudado a preparar a ceia. Balanço a cabeça. Que ideia maluca! Minha dignidade tem que valer mais do que um prato de comida.

Duke encosta sua cabeça em meu colo, sua respiração fica pesada e logo adormece. Fico por um tempo fazendo carinho em sua cabeça e sinto meus olhos se fechando. Balanço a cabeça e tento me manter a acordada. Ouço o zumbido dos mosquitos em minha orelha, o vento movimentando as folhas nas árvores. Olho para os lados mais uma vez a procura de Thalita, não vejo nada de diferente.

Encosto minha cabeça na árvore ao lado, meus olhos estão pesados, a paisagem se torna um borrão verde e escurece.


***


Acordo com Duke latindo. Levanto assustada e me certifico que sua coleira ainda está em minhas mãos. As árvores possuem um tom alaranjado e percebo que o sol está se pondo. Duke continua latindo em direção a trilha que subimos a pouco. Avanço um pouco mais e tento entender o que chamou a atenção dele.

 — Thalita? — pergunto para as árvores, mas mais uma vez não tenho resposta.

Puxo a coleira de Duke.

— Vem Duke, melhor a gente voltar.

Assim que termino a frase ouço o som de passos contra as folhas. A luz por entre as árvores está cada vez mais fraca e aperto os olhos para conseguir enxergar melhor. Vejo um vulto se aproximando, mas pelo tamanho sei que não é Thalita.

— Não achou sua amiga ainda? — ouço a voz familiar.

Baixo o olhar.

— Não, ainda não.

O homem se aproxima um pouco mais e consigo distinguir as formas, sua jaqueta, a vara de pesca nas costas, um balde com peixes dentro.

— Ela conhece bem essa montanha?

Encolho os ombros.

— Acredito que sim...

Ele me fita, passa a mão pela barba.

— Pode ser que ela já tenha descido, então.

Olho para os lados. Será que Thalita desistiu de procurar por Duke e desceu a montanha? Achou que ele teria voltado, talvez? E não se importou em voltar para me procurar... Sinto um aperto no peito. Não gosto de pensar nessa hipótese.

— Está escurecendo, de qualquer forma, é melhor voltarmos. — o homem continua.

Concordo. Parece ser a única opção.

— Mas e se ela não tiver voltado? — pergunto.

O homem dá de ombros enquanto continua subindo a trilha passando por mim e por Duke.

— Você poderia procurar na casa dela e se ela não estiver por lá, chamar o corpo de bombeiros.

Sinto um arrepio percorrendo o corpo. Não sei onde Thalita mora e nem tenho ideia de por onde começar a procurar. Poderia nunca mais vê-la.

— Você vem? — o homem pergunta me esperando.

Balanço a cabeça fugindo de meus devaneios e faço que sim. Ele começa a descer a trilha e eu o sigo. Não conversamos muito durante o caminho. O sol continua a se pôr e o caminho fica cada vez mais escuro. Ouço o som de meus passos contra as folhas e as pequenas pedras, lembro-me de Thalita em cada curva que faço.

Espero que ela não esteja perdida.

Passamos pela nascente onde bebemos água e continuamos a descer, em um momento há uma bifurcação no caminho e respiro aliviada por ter um guia. Apesar de estarmos na descida perco o fôlego algumas vezes, talvez pela fome.

Quando chegamos ao pé da montanha, no mesmo local onde Seu João havia nos deixado. O homem segue para uma caminhonete estacionada próxima, joga seus utensílios de pesca na caçamba, assim como os peixes.

— Quer uma carona? — ele pergunta.

Ouço meu estômago roncar de fome mais uma vez. Não sei se aguentaria mais uma caminhada. Faço que sim.

— Obrigada. — digo enquanto me dirijo ao lado do passageiro e abro a porta.

Duke entra em minha frente na caminhonete levantando terra por todos os lados.

— Desculpe por isso. — digo logo em seguida enquanto entro.

O homem ri enquanto passa a mão pela cabeça de Duke.

— Não se preocupe, pior do que está não tem como esse carro ficar.

Fecho a porta e tento trazer Duke para perto de mim para que ele não atrapalhe a direção. Reparo nos papéis e garrafas de plástico vazias jogadas pelo chão do carro. O parabrisa coberto de poeira e terra com a marca do limpador. Realmente, não acho que Duke poderia deixar a situação do veículo pior.

Abro o vidro o sinto o vento em meu rosto, logo em seguida Duke sobe em meu colo o coloca a cabeça para fora. Eu sorrio enquanto o abraço. Penso em Thalita e sinto meus olhos se enchendo de lágrimas, espero que ela esteja bem, que já tenha descido a montanha.

— Primeira vez que você sobe? — ele me pergunta depois de um tempo.

Faço que sim.

— É bem bonito lá em cima, não é?

Assinto.

— Muito bonito.

Ele continua prestando atenção no caminho, as curvas fechadas pela estrada de terra. Afago o pelo de Duke.

— Onde você quer que eu te deixe?

— Na Praça Alento.

Ele assente e não muito tempo depois saímos da estrada de terra. Continuamos por um tempo até entrarmos na rua da praça, ele estaciona.

— Muito obrigada. — digo — não sei como teria conseguido sair daquela montanha sem sua ajuda.

Ele sorri.

— Não se preocupe com isso — ele diz enquanto passa a mão pela barba — boa sorte em encontrar sua amiga.

Sorrio abrindo a porta do carro. Duke é o primeiro a sair, seguro sua coleira para ele não ir longe. Desço do carro, fecho a porta e aceno enquanto o vejo dar partida e sair.

Caminho junto com Duke para a praça. Percebo que ele está agitado e puxando a coleira para andarmos mais rápido. Eu o olho e não consigo entender de onde consegue tirar tanta energia.

— Calma, Duke. — digo o puxando de volta.

Mas não adianta. Duke começa a latir e quanto levanto o olhar vejo Thalita em pé ao lado da fonte. Eu congelo, acabo soltando a coleira de Duke sem querer e ele corre até sua dona. Thalita abaixa para abraça-lo enquanto ele pula e a lambe sem parar. Ainda não consigo me mover.

Vejo Thalita se levantando e andando em minha direção, seu cabelo balançando conforme o andar, a luz alaranjada do sol a suas costas. Em minha cabeça as perguntas rodam: Onde você estava? Como chegou aqui? Porque não me esperou? Como pôde me deixar sozinha na montanha? Não consigo dizer nenhuma delas. As palavras faltam.

Thalita para em minha frente, vejo seus olhos brilhando em lágrimas. Não dizemos nenhuma palavra. Ficamos um tempo nos olhando, seus olhos negros nos meus. Ela dá mais um passo a frente, eu levo uma mão ao seu cabelo, Thalita encosta sua cabeça em minha mão. Vejo uma lágrima escorrer, me aproximo e nos abraçamos. Sinto o cheiro de sua pele, do seu cabelo. Desfazemos o abraço e nos beijamos.

Gosto do seu gosto.

Sinto meus pelos arrepiarem e uma sensação muito boa me invadindo. As perguntas não me importam mais, não quero saber. O beijo termina, continuamos próximas, o braço de Thalita ao redor de minha cintura. Ela sorri.

— O que acha de passarmos nossa ceia aqui?

Eu franzo o cenho.

— Aqui na praça?

Ela assente.

— É, eu você e o Duke. — ela sorri e continua — é sempre muito bonito ver os fogos de artificio daqui.

— Não sei... Eu tô morrendo de fome.

Thalita sorri.

— Posso conseguir algo para gente comer. — ela vira-se a aponta da uma casa do outro lado da rua. — eu moro naquela casa e minha mãe não vai se importar se pegarmos algumas coisas.

Eu assinto.

— Tá, tudo bem.

Thalita sorri e vira-se para a casa dela, caminhando alegremente e segurando a coleira de Duke.

Eu me dirijo para a fonte. Sento na beira dela, coloco a mochila no chão ao meu lado, a abro e tiro o que sobrou do meu diário, pego uma caneta e começo a escrever na folha amaçada. Não faz muito tempo que estou ali quando ouço meu nome. Levanto o olhar e o rosto que encontro não está nenhum pouco feliz me ver.

— Mãe? — digo com a voz trêmula.

Ela tem as mãos na cintura e o rosto franzido em raiva.

— Eu e seu pai estamos te procurando há horas, garota, onde você estava?

Eu abro a boca e não consigo responder. Ela continua falando.

— Vamos, levanta daí agora e vamos embora.

Balanço a cabeça.

— Não posso ir.

Minha mãe levanta um dos braços.

— Não pode ir por quê?

As palavras me faltam, não consigo explicar a ela o porquê. Não consigo contar sobre Thalita.

— Eu tô cansada da sua rebeldia, Sofia Laura — ela continua — a família toda reunida, suas primas ajudando na ceia e você sumida, me fazendo passar vergonha!

Sorrio com desdém.

— Então, sou uma vergonha para você?

Ela aponta o dedo para o meu rosto.

— Não distorça as minhas palavras.

Meus olhos se enchem de lágrimas, sinto meu sangue ferver.

— Eu não vou.

Minha mãe arregala os olhos, me pega meu braço e me levanta da fonte.

— Não vou aceitar essa afronta. Você vai sim, porque eu estou mandando!

As lágrimas começam a escorrer, eu olho para o lado e vejo Thalita no portão de sua casa, uma trouxa com comida em seus braços. Desvio o olhar e abaixo a cabeça. Não quero que ela presencie essa cena e principalmente, não quero que minha mãe a conheça.

Minha mãe me puxa, pego minha mochila e eu a deixo me levar de volta para a casa de minha avó. Sigo o caminho todo com a sensação de que estou indo para o meu funeral. Sei o que irá acontecer quando chegar, todos os olhares em mim, os risos, os comentários, as perguntas de onde estava.

A diferente da família. Aquela que não se encaixa. Sou eu.

O sermão de minha mãe continua. Ouço a dizer que estou de castigo e não poderei ensaiar com a banda na próxima semana. Dou de ombros, não me importo. Só quero estar com Thalita.

Olho para trás e vejo a praça com a fonte se distanciando de nós. Se Thalita estava nos observando, não consigo ver. Pouco tempo depois chegamos a casa de minha avó. Assim que entro encontro minha prima Isabela que com uma falsa preocupação pergunta onde eu estava. Penso em ignorá-la e seguir para o quarto, mas encontro o olhar de minha mãe sobre mim e mudo de ideia.

— Eu subi a montanha. Perdi a noção da hora.

Isabela coloca uma de suas mãos sobre a boca e com um tom exagerado diz:

— Mas Laura, você foi sozinha? Não teve medo de se perder?

Respiro fundo. Olho ao redor e percebo todos os olhares sobre mim, os sorrisos a distancia, os cochichos.

— É, eu me perdi — digo e rapidamente completo — se me der licença, preciso ir ao banheiro.

Isabela se afasta, seus olhos me mirando de cima a baixo. Passo pela cozinha e vou direito para o corredor, encontro Rafael no meio do caminho.

— Sofia! — ele exclama de olhos arregalados — Tava todo mundo atrás de você, onde se meteu?

Eu levanto uma mão com um sinal para ele se afastar.

— Agora não, Rafa.

Ele entende e se afasta, vejo que quer me dizer muito mais, mas somente assente enquanto eu continuo andando para o banheiro. Fecho a porta e abro o chuveiro, tiro a roupa suja de terra, entro na água quente e a deixo levar embora minha raiva. Termino o banho, visto uma roupa limpa e vou para a cozinha.

Os primeiros rostos que vejo são dos meus pais, visivelmente zangados comigo, sinto uma mão em meu ombro, viro-me e encontro minha avó, ela me abraça e me dá um beijo na testa.

— Subiu a montanha sem passar protetor, não é? — ela sorri enquanto passa seus dedos em minhas bochechas.

Encolho os ombros e sorrio de volta.

— É.

Imagino que minhas bochechas devam estar vermelhas.

— Está com fome?

— Morrendo.

Minha avó sorri mais uma vez, vai até a mesa começa a fazer um prato de comida para mim. Vejo uma das minhas primas me olhando de canto de olho enquanto conversa com outra, ela nem ajudou na ceia, leio em seus lábios antes de virar o rosto e me sentar a mesa. Minha avó coloca o prato em minha frente antes de dizer:

— Bom apetite.

Eu a olho e sorrio.

— Obrigada.

Começo a comer, não muito tempo depois todos estão reunidos na cozinha. É tradição em minha família esperar a meia-noite para comer a ceia, o que significa que eu sou a única que estou comendo. Ouço-os conversando, copos tilintando, me sinto sozinha até Rafael sentar-se ao meu lado.

— E aí, tá melhor? — ele pergunta.

Eu assinto.

— Preciso voltar para a praça. — digo logo em seguida.

— Mas por quê? Não gostou do pernil?

Eu franzo o cenho. Mas o que o pernil tem a ver com isso? Olho para ele e depois para o pernil. Arregalo os olhos.

— Foi você quem fez?

Orgulhoso, ele assente.

— Está maravilhoso! — digo em seguida.

— Obrigado.

Eu sorrio e volto no assunto.

— Mas então, você precisa me ajudar a sair daqui.

— Sofia, seus pais estão bravíssimos com você, se sair agora será pior.

Eu suspiro.

— Tem uma pessoa me esperando. — sussurro para ele.

Rafael sorri.

— Sabia que tinha uma garota nessa história!

— Shh... — faço e olho para os lados para ter certeza de que ninguém ouviu.

Rafael coloca a mão na boca e sussurra:

— Desculpa.

— Vai me ajudar ou não?

— Vou. — ele disse e vejo sua testa franzindo enquanto ele pensa em uma solução — Tudo em nome do amor! — completa.

Eu sorrio e espero ansiosa enquanto como mais um pedaço de pernil. Rafael estala os dedos.

— Já sei! Eu vou chamar a atenção de todo mundo e vou recitar um poema.

Eu rio.

— Um o quê?

— Um poema. — ele repete como se fosse óbvio.

— Que poema? Desde quando você recita alguma coisa? — pergunto segurando a risada.

Ele me pede silêncio. Coloca uma mão ao peito enquanto diz:

— Não duvide dos meus talentos.

Continuo rindo e assinto. Coloco na boca o último garfo com comida e depois digo:

— Tá bom. Você vai recitar um poema e aí?

— E aí, que quando todo mundo estiver prestando atenção em mim, você sai.

Balanço a cabeça. Peço a Rafael um momento para digerir a informação, levanto da mesa, levo o prato até a pia, lavo e volto.

— Isso não vai dar certo. — digo enquanto sento ao seu lado novamente.

Rafael me olha de canto de olho.

— Como não?

— Uma hora vão sentir minha falta.

Rafael revira os olhos e sorri.

— Mas é claro, né? Você quer ficar a noite toda fora também? Assim não vai rolar!

Baixo o olhar. Ele continua.

— Presta atenção, é melhor isso do que nada.

Assinto.

— Fechado?

— Fechado.

Rafael estufa o peito, passa a mão no cabelo o jogando para trás e levanta batendo palmas.

— Gente, gente, poderiam vir todos a cozinha, por favor?

Os murmúrios aos poucos vão cessando, vejo algumas pessoas vindo da sala até a cozinha, caminho lentamente entre elas tentando chegar despercebida até a porta da sala.

— Muito obrigada, pela atenção de todos aqui. Eu tenho algo para compartilhar com vocês, uma coisa que vim preparando durante todo o ano e que significa muito para mim, então, por favor, cheguem mais perto...

Rafael continua falando e percebo que se ele realmente irá recitar um poema irá demorar muito para começar. Consigo chegar a porta da sala com a certeza de que não fui vista por ninguém.

Saio de casa subo a rua o mais rápido que consigo e desço correndo até a praça. Chego a casa de Thalita e toco a campainha. O primeiro a me recepcionar é Duke, ele pula com as patas no portão e faço carinho em sua cabeça. Thalita vem logo depois. Sorrindo ela caminha até o portão e o abre.

— Achei que não ia voltar. — ela diz.

— Parece que o destino tá tentando separar a gente — comento.

 Thalita sorri e joga os cabelos para trás.

— Não acredito em destino.

Sorrio de volta, sinto uma vontade enorme de beijá-la, mas não sei se devo fazer isso em frente a sua casa. Acho melhor não.

Ela tira suas mãos das costas e só então percebo que estava escondendo algo.

— Feliz Natal. — ela diz me entregando uma caixa.

Eu seguro a caixa, estou sem graça por que não a trouxe presente algum.

— Não precisava.

— Abre logo — ela insiste.

Eu abro e vejo um discman dentro. Sorrio.

— Não posso aceitar.

— Claro que pode! Era meu e eu quase não uso, pode ficar.

— Eu realmente...

Thalita coloca um de seus dedos em minha boca me pedindo para ficar em silêncio. Eu sorrio, pego sua mão e a beijo.

— Obrigada.

— Eu que agradeço por ter voltado.

Thalita se aproxima e me envolve em seu abraço. Sinto o cheiro inebriante do seu perfume.

— Preciso voltar — digo em seu ouvido.

Ela assente.

— Te vejo amanhã? — pergunta desfazendo o abraço.

Sorrio.

— Com certeza.

Eu me afasto, querendo ficar. Thalita me manda um beijo enquanto fecha o portão e eu volto para a casa da minha avó pensando que as próximas celebrações de Natal não seriam tão ruins assim.