Parte 1

Dezesseis

Parte 1

Ergo os olhos do meu diário pela décima vez durante a viagem. Olho o céu azul e as árvores, nada de diferente de alguns minutos atrás. A minha frente meus pais conversam sobre a cirurgia de uma de minhas tias. Nada interessante. Volto a prestar atenção no que estou escrevendo, no dia anterior tive uma briga feia com eles, preciso colocar os sentimentos no papel.

Tirá-los de dentro de mim.

Termino mais um paragrafo quando reparo que não ouço mais as vozes de meus pais, ergo o olhar e vejo minha mãe levando a mão até o rádio para aumentar o volume. Não consigo acreditar no que ouço.

— Sério, mãe?

Ela se vira para mim e no ritmo da música começa a cantar:

— I'll say you what I want, what I really really want[1]...

Afundo-me no banco. Tudo menos Spice Girls, penso.

— Faz uma hora que a gente está viajando e é a segunda vez que você coloca essa música, eu não aguento mais. — desabafo colocando as mãos nos ouvidos.

Minha mãe continua cantando e mexendo os braços de acordo com a música.

— A música está tocando no rádio, Sofia Laura, não sou eu quem escolho.

Eu bufo.

— Não me chama de Sofia Laura! É Sofia e só.

Ela vira-se zangada.

— Vai começar de novo?

Franzo a sobrancelha, sei que não adianta discutir. Abro a minha mochila, pego meu discman, coloco o fone no ouvido e aumento no máximo, Legião Urbana começa a tocar, bem melhor.

Volto a escrever no meu diário e tento me acalmar. Ainda temos em torno de 50 minutos de viagem e me irritar não ajudará em nada. Ainda mais porque o episódio do carro é apenas uma amostra do que ainda está por vir quando encontrar toda a família de minha mãe reunida na casa da minha avó para a ceia de Natal.

Todo ano é a mesma coisa e eu simplesmente não aguento mais, já consigo prever os comentários e piadas da família. Preferia mil vezes ficar sozinha em meu quarto, no apartamento em São Paulo que é pequeno, a vista não é nada bonita, mas tenho o meu canto, meus livros, meus CDs e minha coleção de vinis. No meu canto fico segura de todos.

Principalmente das músicas das Spice Girls.

A viagem segue, eu termino minhas anotações no diário e o guardo na mochila, o álbum do Legião ainda terminou quando chegamos à casa de minha avó. Pego minha mochila e descemos do carro, Marisa, minha avó aparece para nos recepcionar. Com um sorriso no rosto ela me abraça e me dá um beijo.

— Como você está crescida, Sofia Laura! Praticamente uma mulher. — ela diz me examinando.

— É só Sofia, vó, sem o Laura. — digo pela milionésima vez.

— Não entendo porque você não gosta do seu nome, sua mãe escolheu com tanto cuidado. Foi em homenagem...

— A atriz Sophia Loren — eu a interrompo — é eu sei...

Reviro os olhos, não adianta discutir. Ela me dá um beijo na testa e sorrindo vira-se para cumprimentar minha mãe. Entro na casa e logo sou recepcionada por um de meus primos. São tantos que nem me digno a olhar e tentar descobrir qual deles.

— E aí, Laurinha, foi para a guerra e esqueceu de morrer?

Encolho os ombros e ergo um dos braços, ele desce o olhar para as minhas calças que são rasgadas nos joelhos. Reviro os olhos mais uma vez.

— Oi para você também.

Cumprimento todos na sala, primos, primas, tios e tias. Tantas pessoas que quase nunca vejo que às vezes me perco nos nomes. O videocassete roda a festa de aniversário de seis anos da minha prima Isabela. Estou indo para a cozinha quando ela me chama:

— Fica aí Laura, está quase na hora que você aparece dançando aquela música da Xuxa.

Ouço risadas e balanço a mão negativamente enquanto continuo andando. Spice Girls, Sophia Loren, Xuxa, isso só pode ser um pesadelo. Entro na cozinha e meu avô, Omar, está conversando com minha tia Michele, à mesa. Ele levanta para me cumprimentar.

— Sofia Laura, como você está bonita! - ele me dá um beijo na testa e continua — E o namorado, não veio hoje?

— O senhor sabe que eu não tenho namorado, vô.

Ele sorri.

— Sempre é bom perguntar.

Sorrio de volta.

— E mesmo se tivesse, seria namorada.

Vejo o sorriso no rosto do meu avô se desfazer, suas sobrancelhas se encurvam e os olhos se apertam.

 — É brincadeira, vô, calma! — trato de consertar — Só uma brincadeira, viu?

Ele ri.

— Claro que é uma brincadeira, nunca iria levar a sério um absurdo desses.

Sorrio sem-graça e ouço a voz de minha tia atrás de mim.

— Quer matar seu avô do coração, menina?

Eu me viro e a abraço.

— Pois é, nunca mais faço isso.

Ela me abraça de volta e em seguida coloca uma de suas mãos nos meus cabelos.

— Por que você divide tanto esse cabelo ao meio? Passou o pente tantas vezes que ficou até oleoso!    

Respiro fundo.

— Gosto do meu cabelo assim.

Ela desfaz o abraço e me segurando pelos ombros diz:

— Ah, mas assim você não valoriza os seus cachos...

Eu assinto e com um sorriso plastificado no rosto me afasto devagar até o banheiro. Fecho a porta e suspiro. Jogo uma água no rosto e olho meu reflexo no espelho.

— Calma, Sofia, você só precisa aguentar isso até amanhã à noite. Só até amanhã.

Falar sozinha não ajuda em nada também. Abro a porta e estou saindo do banheiro quando trombo em alguém, levanto o olhar para pedir desculpas e, em vez disso, exclamo:

— Rafa!

— Sofia! — ele diz de volta enquanto me abraça. — Como você está maravilhosa. —diz quando nos afastamos — Adorei sua blusa.

— Obrigada. — respondo sorrindo.

— Xadrez combina com você. — ele completa enquanto me puxa pela mão — agora vem que eu estou assistindo A Caverna do Dragão e só parei porque ouvi sua voz.

Eu rio.

— Adoro esse desenho.

— Não é? É terceira vez que assisto, espero dessa vez conseguir entender alguma coisa.

Dou um sorriso e logo entramos no quarto da minha avó. A televisão está ligada e sentamos na cama para assistir. Tiro meu tênis e deixo a mochila ao lado da cama.

— Quer um guarda-chuvinha? — Rafael me diz algum tempo depois me passando uma caixa com chocolates em formato de guarda-chuva.

Eu a pego, está cheia com a embalagem dos chocolates vazias e cabos dos guarda-chuvinhas, mas ainda restam alguns inteiros.

— Não acredito que você comeu os meus guarda-chuvinhas!

Ele ri.

— Seus? Não me lembro de ter visto seu nome na caixa.

Franzo o cenho.

— Você sabe que a vó sempre compra esse doce quando venho pra cá.

Rafael ergue a sobrancelha.

— Não sei por que você faz tanta questão, esse chocolate é horrível.

Assinto.

— Tão horrível que você quase acabou com a caixa.

Ele me empurra e eu caio de lado na cama espalhando chocolate por todo lado.

— Para de ser mimada e come logo esse chocolate, Sofia!

Eu sorrio enquanto desembrulho o primeiro deles com todo o cuidado do mundo para não quebrar a ponta. A primeira mordida tem gosto de infância.

— Queria passar o resto do dia aqui nesse quarto — desabafo enquanto desembrulho mais um chocolate— inclusive a ceia e o almoço de Natal, não tô a fim de socializar.

Rafael ri.

— Também, né? Quem é que quer socializar com essa família?

Caio na risada. Rafael continua:

— Não sei como você aguenta eles te chamando de Laura o tempo todo...

— Sofia Laura... — digo com uma careta.

Rafael ri.

— Nossa, isso é péssimo!

— A gente podia dar uma volta, né?

— Volta aonde?

— Sei lá, por aí...

— E perder a preparação da ceia?

Claro, a preparação da ceia. O evento em que todas as minhas primas se reúnem para exibir suas habilidades culinárias enquanto eu mal sei cortar uma cebola. Eu rio, Rafael continua sério.

— Tá brincando?

Rafael se ajeita na cama e com ar imponente diz:

— De forma alguma, não te falei que eu tô fazendo aquele curso de culinária? Tô só esperando esse povo parar de fofocar, pra eu mostrar o que é um cozinheiro de verdade!

Rio novamente.

— Tá rindo do que? Finalmente chegou a minha hora de brilhar nessa família.

— Cara, você é tão leonino que não sei lidar.

— E isso é bom?

— É ótimo, dependendo do ponto de vista.

— Ihh...

— Fiz seu mapa astral esse dias...

— Jura? E aí?

— Sol em leão com ascendente em peixes.

Rafael continua me olhando, sem nada dizer então eu continuo:

— Whitney Houston também é leão com ascendente em peixes.   

— Nossa, então isso é maravilhoso!

Eu rio, sento na cama e coloco meu tênis.

— Aonde você vai? — ele pergunta. — vai começar outro episódio daqui a pouco!

Dou de ombros.

— Vou dar uma volta, sabe como é, sou aquariana.

Rafael encolhe os ombros.

— Saber disso eu não sei não, mas sei que se você continuar falando essas coisas pela casa vai acabar sendo acusada de bruxaria.

Eu rio.

— Então, é melhor eu ir antes que acabe em uma fogueira. — digo enquanto levanto e pego a minha mochila.

Despeço-me de Rafael e lhe mando um beijo que ele me devolve. Saio do quarto e passo pela cozinha, meus pais estão sentados à mesa junto com meus avôs e minha tia Michele.

— Aonde você vai? — ouço minha mãe perguntar.

— Dar uma volta. — respondo sem parar de andar.

— Mas você acabou de chegar! — minha avó protesta.

— Eu já volto. — aumento o tom de voz quando deixo a cozinha e entro na sala.

— Volte mesmo porque daqui a pouco vamos preparar a ceia! — ouço minha tia Michele, mas não me viro para responder. 

Saio da casa e respiro fundo, sinto que tirei um peso momentâneo das minhas costas. Começo a subir a rua, a inclinação é tão grande que em menos de cinco minutos estou cansada e preciso parar para respirar. Minhas pernas paulistanas não estão acostumadas com esses morros. Termino de subir a rua e para a minha sorte o que vem depois é somente descida. Sei que ao final daquela rua tem uma praça e penso que seria uma boa ideia ir até lá para ouvir uma música e escrever em meu diário.

Chego alguns minutos depois, ao centro há uma fonte, redonda com esculturas de conchas ao redor. No meio dela um ornamento se destaca, a água escorre por entre os pratos detalhados até chegar a superfície inferior da fonte. Os bancos da praça estão todos ocupados, então, decido me sentar junto a fonte. Coloco minha mochila no chão, tiro o discman junto com o CD do Legião Urbana e o meu diário. A perto o play e olho ao redor observando as pessoas. Há uma movimentação grande na praça, para aquela manhã de quinta-feira. Viro o rosto e observo um grupo de garotos com suas bicicletas, apesar de não ter nenhum carro descendo a rua da praça, eles pacientemente esperam o sinal abrir, acho curioso.

Abro o diário e começo a escrever sobre a manhã de hoje, o encontro com a minha família e como estou detestando tudo aquilo. Espero um dia abrir esse diário e rir de tudo isso. Ter superado.

Poder ser Sofia, sem Laura.

Termino mais uma linha, quando uma bolinha cai na fonte, espirrando água em mim. Levanto o olhar, furiosa, procurando o dono da bolinha e dou de cara com um pastor-alemão correndo em minha direção. Arregalo os olhos, a língua do cachorro está para fora da boca, enquanto a baba escorre. Puxo meu discman para perto e olho para os lados tentando uma rota de fuga.

Não vai dar tempo!

Olho para frente novamente o rabo dele balança enquanto ele toma impulso para pular e tento me levantar para sair da frente, mas é tarde demais. O peso do seu corpo se encontra com o meu e caímos os dois na água da fonte.

Levanto a cabeça, assustada, acho que acabei gritando quando caí e engoli um pouco de água. O cachorro ao meu lado tem a bolinha entre os dentes e pula da fonte espirrando ainda mais. Irritada passo a mão em meu cabelo, colocando-o para trás e sinto meu fone de ouvido pendurado em meu pescoço.

Ah, meu Deus, meu discman!

Tiro meu discman da água e coloco na beirada da fonte, aperto o play repetidas vezes, mas nada de funcionar.

— Nossa, me desculpa... — ouço a voz de uma garota.

Ergo o olhar, uma garota de cabelos castanhos e ondulados está parada em minha frente, mal olho para ela, ao seu lado o pastor alemão abana o rabo e segura sua bolinha alegremente.

— Desculpa? Cara, seu cachorro quebrou meu discman!

— Eu realmente sinto muito, não imaginei que a bolinha fosse parar aqui...

Eu viro o rosto, não me importo com as desculpas, lembro que meu diário também caiu na água, o retiro com as páginas ensopadas e com todas minhas anotações borradas. Consigo ver o ano de 1996 na capa borrando e ficando disforme.

Deixo o diário na beirada da fonte ao lado do discman e finalmente saio da água. A garota me oferece a mão para me ajudar, eu ignoro. Meus olhos estão cheios de lágrimas, espero que pelo menos meu CD do Legião esteja inteiro.

Sento na beira da fonte com meus tênis ensopados, a calça jeans pesando e minha blusa xadrez manchando de vermelho a blusa branca que está por baixo.

Ergo o olhar e todas as pessoas da praça estão me olhando. O grupo de garotos de bicicleta apontam para mim e riem. Esse dia não pode ficar pior. Olho para o lado e vejo que a garota ainda está por ali. Ela abre a boca para dizer algo e eu viro o rosto, não quero ouvir, ela desiste.

Fecho os olhos tentando evitar que as lágrimas em meus olhos caiam. Sinto um focinho gelado em uma de minhas mãos. Abro os olhos e encontro o cachorro olhando para mim, a bolinha na boca e o rabo balançando.

Viro o rosto. Ele passa o focinho em minha mão mais uma vez. Tiro a mão de perto dele e coloco em meu colo. O cachorro larga a bolinha no chão e começa a latir.

— Vem, Duke — ouço a garota o chamando — ela não quer brincar com você.

Duke não obedece, coloca suas patas dianteiras em minha perna e quase me derruba na fonte novamente. Eu me seguro, Duke passa a lamber meu rosto e eu desato a rir.

— Para, Duke! — eu digo enquanto o afasto do meu colo.

Ele desce e pega a bolinha novamente, eu sorrio, a pego de sua boca e jogo longe. Duke alegremente corre para buscá-la.

A garota de cabelos ondulados senta ao meu lado.

— Desculpe, mesmo, pelo seu diário e o discman.

Eu assinto.

— Tudo bem, a minha tia Michele sempre me dá um diário novo de Natal.

Viro-me para ela, que está sorrindo, reparo que ela tem um sorriso bonito e suas bochechas formam covinhas com o movimento. Sorrio de volta.

— Thalita — ela me diz enquanto estende a mão.

— Sofia — respondo de volta enquanto a aperto.

Duke volta com a bolinha e entrega para Thalita que a joga mais uma vez.

— Você não é daqui. — Ela diz, reparo que não foi uma pergunta.

Assinto.

— Como sabe?

Ela encolhe os ombros.

— Cidade pequena, se fosse daqui com certeza te conheceria... Pelo menos de vista.

Eu aceno.

— Além disso, tem o seu sotaque paulistano.

— Eu não tenho sotaque.

Ela ri, jogando os cabelos para trás. São tão escuros que brilham com o sol. Esqueço que estamos conversando, ela diz algo e demoro alguns segundos para voltar a mim.

— O quê? — eu pergunto.

Ela balança a cabeça.

— Deixa pra lá. — responde com um aceno, Duke volta e senta aos seus pés, ela faz um carinho em sua cabeça. — já estive em São Paulo algumas vezes, não gostei. — termina franzindo o cenho.

— Por quê?

Thalita sorri, pega a bolinha e joga para Duke mais uma vez. Vejo uma cicatriz em seu braço.

— Eu já te derrubei em uma fonte não sei se é seguro falar mal da sua cidade.

— Desde quando sagitarianos se importam em falar a verdade?

Thalita se inclina para trás e arregala os olhos.

— Como você sabe?

Eu sorrio e desvio o olhar.

— Foi um chute na verdade, mas estudo astrologia de vez em quando...

— Bom, pode continuar, porque tá dando certo!

Eu rio.

— Mas então, sobre São Paulo... — instigo.

— Ah, é... É tudo muito cinza lá, muitos carros, muito barulho... — Thalita levanta a cabeça e olha em volta — agora olha isso aqui, essa tranquilidade e no final de cada rua tem a paisagem de uma montanha! É lindo demais...

Eu rio, Thalita ainda tem seus olhos perdidos pelas montanhas.

— Já subiu? — ela me pergunta.

Eu franzo o cenho.

— Na montanha?

Thalita ergue as sobrancelhas e as mãos como se a pergunta fosse óbvia.

— Claro, uai!

Seguro o sorriso. O sotaque mineiro a deixa ainda mais charmosa.

— Não, nunca subi. — revelo.

Só de subir a rua até a praça eu já fico cansada, imagine uma montanha.

— Então, vem. Depois de te molhar toda o mínimo que posso fazer para recompensar é te levar lá em cima.

Ela levanta da fonte sem esperar minha resposta e chama por Duke. Eu continuo estática sem conseguir me mover. Desde quando isso é uma recompensa? No mínimo é uma sessão tortura!

— Vem! — Thalita se vira e diz.

Perco-me alguns segundos enquanto a olho, o sorriso com suas covinhas, o jeito que o sol ilumina o seu cabelo que cai até a cintura, as pernas que estão acostumadas a subir aquelas montanhas. Não consigo dizer não.

Pego meu discman e o diário, coloco na mochila e vou até ela. Duke pula a nossa volta enquanto caminhamos. Olho a montanha do final da rua e começo a suar frio, só de imaginar a caminhada até o topo eu já fico cansada. O lado bom é que com certeza vou perder a preparação da ceia.

— O que tava ouvindo? — Thalita me pergunta depois de um tempo.

Eu me viro antes de responder, nossos olhares se encontram, seus olhos negros são levemente puxados. Devo ter demorado mais do que o necessário sustentando o nosso olhar, ela encurva uma sobrancelha e eu respondo:

— Dezesseis.

— Legião Urbana?

Faço que sim. Ela sorri.

— Odeio essa banda.

Sorrio de volta, balanço a cabeça e não respondo. Estou com medo de perguntar sua banda favorita e receber um Spice Girls como resposta. Prefiro não saber. Continuamos andando, o sol quente seca a minha roupa e começo a ficar com calor. Amarro meu cabelo em um coque, quando olho para Thalita ela está rindo.

— O que foi?

— Isso tá horrível.

Franzo o cenho. Ela é sincera até demais. Thalita continua com um sorriso no rosto quando vai para atrás de mim, desmancha o meu coque e começa a trançar o meu cabelo.

— Bem melhor. — ela diz quando termina.

Passo a mão em meu cabelo para verificar o resultado, realmente, ela tem razão.

— Obrigada.

Ela assente, satisfeita. Eu respiro fundo e tomo coragem para perguntar algo que está me incomodando desde o começo da caminhada.

— Você não acha que essa montanha tá um pouco longe, não?

Thalita concorda. Respiro aliviada. Será que ela também concordaria em voltar?

— Então, não acha melhor a gente...

— Pegar uma carona? — ela me interrompe. — Tava pensando nisso agora.

O quê? Arregalo os olhos. Isso não estava em meus planos.

— Bom, eu não ia dizer isso, não parece uma ideia muito... — paro por um momento tentando encontrar as palavras — segura, sabe?

Thalita sorri.

— Prefere ir andando?

— Não!

Ela levanta um dos braços e continua me olhando, esperando por uma solução.

— Sei lá — eu digo — não é legal ficar pegando carona com estranhos, vai que o cara é um serial killer.

Thalita ri.

— Você é tão engraçada.

— Tô falando sério!

Thalita dá de ombros e ignorando meu protesto ergue o polegar para um carro que passa pela rua. O carro é pequeno, estilo “bolinha” e para um pouco mais a frente. Balanço a cabeça negativamente enquanto Thalita aperta o passo para conversar com o motorista. Ela é louca, só pode!

Olho para trás pensando que poderia arrumar uma desculpa e ir embora. Ouço o latido de Duke e volto minha atenção para a frente. Encontro Thalita sorrindo e me chamando com uma das mãos. Mais uma vez me convenço a segui-la, não é muito difícil com aquele sorriso.

Ela abre a porta do carro e puxa o banco, eu e Duke sentamos no banco de trás enquanto Thalita senta-se ao lado do motorista. Duke inquieto coloca a cabeça por cima do banco de Thalita e fica com o focinho para fora da janela.

— Obrigada pela carona, Seu João. — ela diz.

Respiro aliviada no banco de trás, aparentemente os dois se conhecem e isso minimiza as chances de ele ser um serial killer.

— Não precisa agradecer — responde o motorista — é uma longa caminhada até a trilha.

Reparo em Seu João, um senhor com alguns cabelos brancos e um bigode acinzentado. Pendurado no retrovisor do carro está um terço católico. Ergo um pouco o olhar e encontro o dele me fitando pelo espelho.

— Quem é a moça?

— Uma amiga — Thalita responde.

— Sou Sofia.

Ele balança a cabeça.

— Veio passar o Natal com a família? — pergunta.

Faço que sim.

Thalita o cutuca com o cotovelo e diz:

— Paulistana.

Ele assente.

— Desconfiei.

Não entendo o comentário. Se há algo mim que denuncia minha origem, não faço a mínima ideia do que seja. Continuamos no caminho, Seu João e Thalita conversam um pouco e logo descubro que ele é dono da padaria que fica próxima da casa dela. Chegamos em uma estrada de terra e o carro começa a subir.

— Vou deixá-las um pouco mais à frente. — ele diz.

Nós assentimos. Duke fica inquieto durante todo o caminho, late, tenta passar para o banco da frente, sobe em cima do meu colo, e bate seu rabo em meu rosto diversas vezes.

Em um ponto Seu João para o carro, descemos e agradecemos pela carona. Ele acena enquanto manobra o carro para voltar. Duke parece bastante contente em estar com as patas na terra e corre de um lado para o outro. Thalita o chama para perto e coloca uma coleira em seu pescoço, a trilha é larga, porém com a sua animação ele poderia acabar caindo em algum barranco.

Começamos a subir a trilha. Thalita anda ao meu lado e tento me esforçar para não olhá-la o tempo todo.

 — Sobe sempre a montanha?

Ela encolhe os ombros.

— Sempre que quero ficar sozinha.

Sorrio.

— Por esse motivo subiria todos os dias.

Viro o rosto e a fito. Thalita tem o olhar perdido por entre as árvores ao lado direito. Reparo que ao fundo há um lago.

— Eu tenho um irmão mais novo — ela continua — quando não estou na escola ou com os meus amigos, estamos juntos. Ele é sempre uma boa companhia então não sinto muita vontade de ficar sozinha.

Eu assinto sem tirar os olhos dela, Thalita devolve o olhar e me dá um sorriso singelo enquanto joga os cabelos para trás. Reparo que o ato é uma mania.

— Entendo. — respondo - Tenho um primo com o qual me sinto assim. Uma pena que não moramos perto para passarmos mais tempo juntos.

— Ele está aqui para passar o Natal, também?

Faço que sim.

— Devia passar mais tempo com ele, então. — Ela diz seguido de uma piscada.

Sorrio e balanço a cabeça.

— Estou em melhor companhia agora.

Thalita não me responde. Continua olhando para frente, mas vejo as covinhas em suas bochechas se formarem enquanto sorri. Ela troca a coleira de Duke de mão e passa a segurá-la com a direita, ficando mais próxima a mim. Nossos braços se encostam por um momento e sinto um enorme desejo em segurar em sua mão. Controlo-me porque não sei qual seria sua reação. Prefiro não estragar o momento.

— Onde conseguiu a cicatriz? — pergunto passando a mão pelo seu braço.

— De uma árvore — ela responde sorridente — um galho quebrou enquanto eu subia e cai. — ela passa a mão pela cicatriz e nossos dedos se encontram.

— Faz tempo? — pergunto enquanto a fito.

Ela assente e sustenta meu olhar. Sinto meu coração pulsando mais rápido. Os lábios de Thalita se apertam e nossa atenção é desviada por Duke que começa a latir para as árvores. Thalita vira a cabeça e acompanha o olhar do cachorro, pássaros voam da árvore ao lado e eu suspiro.

Continuamos andando, o calor aumenta, eu tiro minha blusa xadrez e a amarro na cintura. A calça jeans começa a me incomodar com a caminhada, mas não há muito o que fazer. Thalita também sente o calor e amarra os cabelos em um rabo.

— A gente devia ter trazido água. — comento.

— Tem uma nascente ali na frente.

— E não vai fazer mal beber água de lá?

Ela franze o cenho.

— Claro que não! — Thalita sorri — você é tão desconfiada...

Baixo o olhar e presto atenção nas pequenas pedras que piso conforme caminho. Chegamos à nascente logo em seguida. Duke é o primeiro a matar a sede, eu e Thalita bebemos da água um pouco depois. Está gelada e aproveito para jogar um pouco no rosto. O calor está me matando.

— A gente podia parar um pouco. — digo sentando em uma pedra ao lado da nascente.

Thalita ri.

— Já tá cansada?

Eu assinto.

— Não estou acostumada com essas subidas.

— Isso daqui não é nada. — confessa Thalita sentando em uma pedra a minha frente, Duke deita aos seus pés. — já peguei trilhas piores.

Reviro os olhos e sorrio.

— Convencida.

Thalita encolhe os ombros.

— O que você faz lá em São Paulo, além de estudar essas coisas de signos.

Eu rio.

— Astrologia.

Ela assente e faz um sinal com a mão para que eu continue.

— Vou à escola, ouço música, toco bateria...

Thalita inclina o corpo para frente.

— Bateria? Sério?

Assinto.

— Tenho uma banda, chamamos FDR.

Ela franze o cenho.

— FDR?

— É, Filhos da Revolução.

— Ah...

Um silêncio se instala, ouço o barulho do farfalhar das folhas com o vento, a água escorrendo da nascente, pássaros cantando ao longe, até Thalita dizer:

— Legal!

Eu sorrio.

— Você não sabe mentir.

Ela comprime os lábios, olha para os lados.

— Tá, eu sei que o nome não é lá aquelas coisas, mas é provisório. — digo antes que ela responda.

Thalita assente.

— E há quanto tempo vocês têm a banda?

Abaixo o olhar e chuto uma pedra que está próxima ao meu tênis, ela cai na água.

— Três anos.

— Três anos e vocês ainda estão com o nome provisório?

Encolho os ombros. Thalita ri.

— Esse não é o nome provisório... — ela diz.

Eu sorrio e balanço a cabeça.

— Não, não é...         

Ela sorri de volta levanta da pedra e puxa a coleira de Duke para ele levantar também.

— Acho melhor a gente continuar andando.

Eu assinto.

— Bem melhor.

Parte 2