Prólogo

Eles

Prólogo

Consigo ouvi-los do outro lado das paredes, os pés arqueados arrastando sobre o assoalho. Eles estão próximos. Mais do que eu gostaria, mas não tenho alternativa senão esperar anoitecer para deixar a sala. Apesar do mofo e da falta de móveis, este foi o único lugar que encontrei para tentar passar para o papel o que vem acontecendo desde o último verão.

Temos energia elétrica, mas não posso me arriscar a produzir claridade aqui. Estou na total escuridão, tentando escrever com base somente no tato. Eles farejam a luz. A Clara me ensinou isto da pior maneira possível. Por isso coloquei as fitas nas frestas da porta.

Mas vou tentar me concentrar e transmitir o máximo de informação que puder. Se você estiver lendo este manuscrito pode ser que ainda haja alguma esperança.

Já se foram alguns meses, não sei ao certo quantos. A certeza que tenho é que tudo começou no verão de 1994, na minha cidade natal, Santa Clara da Paciência, de onde venho tentando escapar desde o dia do meu aniversário de 40 anos.

Meu nome é Adalberto Flores Masseiro e naquela época eu era apenas um comerciante feliz com meu trabalho, bem-sucedido, de poucos amigos e satisfeito com a vida. Hoje sou um maltrapilho, carregando em uma mochila tudo o que encontro no caminho e que pode vir a ser útil, vestindo calças surradas, uma camisa parcialmente rasgada e apenas um pé do último par de tênis em que consegui pôr as mãos.

Tenho um plano em mente que pode me custar tudo, mas antes quero deixar registrado como cheguei a esse ponto.

I - Espelhos