I.

Flores secas

I.

O cheiro dela desapareceu completamente.

Meu nariz está apontado para aquele túnel, o mesmo em que a encontrei anos atrás.

– O que está procurando, Momo? – minha mãe questiona. Ela está alguns passos à minha frente.

– Nada. – vou em sua direção.

– Eu conheço bem minha cria, pequeno. – ela funga, deixando escapar o odor característico de seu hálito. – Ainda sente falta dela?

– Não.

– Ela salvou sua vida, Momo. É natural que se sinta grato.

– Eu não... – suspiro. Eu estava, sim, com saudades da Líly.

Mamãe lambe o topo da minha cabeça, algo que tenho odiado cada vez mais. Sou quase um dragão adulto, aquilo era constrangedor.

– Não faça isso, mãe. – reclamo.

– Dê tempo ao tempo. – ela diz sabiamente. Séculos de vida serviam para alguma coisa, afinal. – Não demore a voltar. – caminha lentamente para longe.

Rastejo até o local escuro onde encontrei a princesa. Por um tempo, eu ainda consegui sentir seu cheiro de flores secas, no entanto, nos últimos meses, ele se perdeu.

Queria que você voltasse, Líly.

Será que você mudou?

Eu mudei. Sou adulto agora.

Respiro profundamente. Meu olfato tenta me enganar, rememorando fielmente seu perfume.

Meu pequeno desejo.

Se eu pedisse, você voltaria, Líly?

– Momo?

Aquela voz, uma sutil mudança... Viro, emocionado, e encontro minha princesa humana, minha princesa Líly.

Nunca a vi sorrir daquela maneira: um sorriso grande, tranquilo e apenas meu. Ela corre até mim, envolve meu pescoço em um abraço.

– Senti sua falta. – diz.

Meu doce desejo se realizou.