Quando Amanhã Chegar

Quando Amanhã Chegar

Quando Amanhã Chegar

Não é preciso ser nenhum Sherlock Holmes para sacar: Mila está se controlando para não dar um berro.   Ela sempre fica com essa expressão quando Mateus passa pelo corredor e tudo que eu consigo fazer é dar um aceno tímido, acompanhado de um sorriso mais tímido ainda.

― Não dá para acreditar em você, Nicole! ― Ela diz, colocando uma mão na cintura. ― Quando é que você vai tomar coragem para falar com ele?

Ela não entende. Como pode entender, se namora há séculos ? Ninguém lembra das dificuldades de flertar depois de anos em um namoro estável. Ela provavelmente também não lembra como é difícil conseguir ficar perto de um crush e resistir a vontade de vomitar.

― Hoje não ― eu choramingo. ― Talvez amanhã, tá?

O rosto dela se contorce tanto que eu fico grata quando Carlos se aproxima, sorridente.

― Olá ― ele diz, beijando a bochecha dela.

Sua expressão suaviza só um pouquinho.

― Segura isso ― ela estica o fichário na direção dele, sem desviar os olhos de mim.

Ele pega o material, sem entender. Dou um passo para trás, só por precaução. Eu adoro minha amiga, mas também tenho plena consciência que não é de hoje que essa história da minha paixão platônica não declarada por Mateus vem a tirando do sério.

― Eu te amo e quero seu bem ― ela sorri. Péssimo sinal. ― Mas se você ― suas mãos agarram meus ombros ― não falar ― ela começa a sacudi-los ― com ele ― eu tento me soltar. ― de uma vez...

Finalmente me esquivo de suas mãozinhas. Carlos está rindo da situação e algumas pessoas no corredor olham com curiosidade. Inclusive Paula , uma menina que vive dando em cima de Mateus e que eu não suporto .

Shh, cala a boca! ― Eu vocifero.

― Ninguém ouviu ― ela revira os olhos. ― Mas bem que poderia ter ouvido e contado porque, assim, ao menos ele ficaria sabendo.

― Quando eu quiser eu vou falar com ele, tá bem? ― minto, pegando minha mochila.

― Eu sei ― ela sacode a cabeça. ― Vai falar amanhã.

― Exatamente ― eu assinto, sem ter tanta certeza. ― Ou depois de amanhã...

― Nicole... ― ela ameaça.

Eu entendo como a deixa perfeita para sair correndo, acenando quando já estou bem longe. Carlos ri e estica o braço para passar por cima da namorada de novo. Eles são um casal perfeito. Eu queria ser parte de um casal perfeito também. Com Mateus, de preferência. Mas eu precisava ultrapassar algumas etapas antes disso. A primeira delas era conseguir trocar mais de três palavras com ele sem parecer uma completa tapada. Até agora, era uma missão impossível.

Amanhã. Quem sabe amanhã?

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Existir no mesmo planeta que Mateus muitas vezes era desconcertante. Uma ocasião que sempre fazia com que eu quisesse pegar o primeiro foguete para fora da Terra era qualquer aula de educação física. Eu nunca tinha condições de me concentrar no exercício quando ele também estava no mesmo ambiente.

Corro em volta da quadra com dificuldade. Depois do que parecem 72 voltas, eu paro um pouco e me apoio no gol, exausta. Alguém se aproxima correndo e eu chego para trás, crente que estou atrapalhando a circulação do resto dos alunos com mais preparação física que eu.

Só que a pessoa que chega correndo para bem na minha frente. E quando eu finalmente resolvo levantar a cabeça para ver quem é, levo um susto.

― Oi, Nicole ― ele fala, como se nós conversássemos todos os dias.

Mateus.

Falando comigo .

― O-oi ― eu consigo responder.

― Sabe, eu vi um filme esse final de semana e... ― Ele diz rapidamente, se apoiando na barra do gol. ― E lembrei de você.

― É? ― Pergunto, com surpresa.

Como? Por quê? Lembrou de mim? Nós mal nos falávamos! Acenos nos corredores e diálogos curtos entre uma aula e outra dificilmente contavam como fatores para uma grande amizade. A culpa era minha, na verdade. Eu nunca era capaz de perdurar os assuntos, tamanho o pânico de estar tão perto dele.

― É, é que é um filme sobre músicos ― ele responde, piscando lentamente. ― Você é música, não é?

― Não sei se dá para dizer que eu sou música , mas eu toco guitarra ― eu respondo, sem sentir muito bem minhas pernas. Fico em dúvida se a culpa é da corrida ou de Mateus.

― Eu também ― ele sorri. ― Toco violão!

Eu contenho o ímpeto de dizer “eu sei” e dou um sorriso. Ele não precisa saber que eu já tinha assistido todos os vídeos dele no Youtube . Não falamos nada por alguns segundos e eu tenho que fazer um grande esforço para me lembrar qual tinha sido a origem daquela conversa.

Ah sim, o filme.

― Qual? ― Pergunto.

― Qual o quê? ― Ele responde, tão perdido quanto eu.

― Qual filme! ― Eu rio, me dando conta que o nervosismo de conversar com ele ia passando aos poucos.

― Ah! ― Ele ri. ― Johnny e June.

Johnny e June? Era um filme sobre a história do Johnny Cash e June Carter que me fazia chorar toda vez que eu assistia. Os dois eram cantores e se conheceram por causa disso, mas demoraram anos para ficarem juntos porque tinham seus próprios problemas, famílias construídas e muito medo do que poderia acontecer. Quando finalmente venceram a incerteza, viveram juntos por 35 anos. O filme tocava qualquer um, mas especialmente aqueles que tinham um coração que batia em ritmo musical.

  ― Eu adoro esse filme ― minha surpresa me permite dizer.

― Você já viu? ― Ele sacode a cabeça. ― Claro que já. Você é música, afinal.

Música eu não sei, mas... ― eu dou de ombros, arriscando um sorriso.

Nosso professor vem apitando na nossa direção, gesticulando para que nós voltemos a correr.

― Sempre bom conversar com você, Nicole ― Mateus sorri, antes de sair correndo.

Mila está passando por mim no momento em que eu volto a correr, sorrindo marotamente. Ela gesticula com a cabeça na direção de Mateus.

― Vou ter relatório depois, né? ― Pergunta.

― Não! ― Eu retruco, dando língua.

― Parece que o amanhã está chegando, hein! ― ela disse, antes de acelerar e me deixar para trás.

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Meu colégio realizaria uma feira de profissões temática. O tema era “o que você será quando o amanhã chegar?”. Parece filosófico, mas não é. É só uma justificativa para que todos os alunos do último ano assistam as palestras do dia vestidos como os profissionais que desejam exercer no futuro.

Mila já estava com o terninho de advogada separado há dias, mas eu não fazia ideia do que vestir. Eu gostava de muita coisa, mas, ao mesmo tempo, não era completamente apaixonada por nada. Exceto pela minha guitarra, mas não era uma opção ir vestida de música, né?

― Por que não? ― Mila reclama, quando eu exteriorizo essa posição. ― Posso passar agora na coordenação e garantir que vamos ter um músico dando palestras.

― Mila, não precisa ― como a boa advogada que viria a ser, minha amiga sempre queria defender minhas causas.

― Passarei lá ― ela responde. ― Espero que você venha a cara da June.

Eu faço uma careta. Por algum lapso cerebral eu tinha feito o relatório da minha conversa com Mateus no dia anterior e ela não parava de me zoar!

― Mas é sério ― ela gesticula na minha direção. ― Você precisa vir de música! Pode até trazer o case da sua guitarra! Quem sabe não vai ser o dia que você vai tomar coragem de falar que é afim do Mateus? Ele também é músico... ― ela aperta meus ombros, sem parar de rir da minha cara. ― Esse amanhã vai ter que chegar um dia.

Pela minha falta de coragem, seria num dia bem distante .

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Eu entro na escola no dia da feira com um vestido preto, coturno e carregando meu case . Caminho pelos corredores, no meio de vários médicos, professores, advogados, psicólogos e todo resto de profissões comuns e esperadas pela sociedade. Mila até foi capaz de conseguir a palestra de um músico para a semana da profissão, mas, pelo jeito, eu seria a única interessada em assisti-la. Foi uma péssima ideia me vestir de música – algo que não dava para chamar nem de comum, nem de esperado pela sociedade.

― Nicole! ― A ouço chamar.

Ela está impecavelmente vestida em um terno e saltos altos, e corre na minha direção, com os olhos esbugalhados e a as mãos esticadas. O que só podia significar uma coisa: fofoca. E, pelo jeito, uma boa .

― Adivinha quem também está de músico? ― Ela diz.

Eu me encosto na parede, para não perder o chão. Ai, meu Deus do céu, se Mateus também tiver vindo de músico, nós passaríamos a palestra inteira juntos!

― Só pode ser o destino! ― Mila diz, jogando os braços para cima. ― Você precisa contar para ele hoje!

Hoje?

Quer dizer, eu nem sabia se ia conseguir sobreviver ao dia...

― Não sei não... ― os cenários péssimos que minha cabeça montava quando eu me imaginava assumindo me deixavam apavorada. ― Acho melhor aman...

Eu não consigo terminar a frase. Paula aparece na nossa frente, com um sorriso tão falso quanto a cor dos seus cabelos. Para meu total desespero, ela carrega um violão pendurado nas costas.

Droga.

Por mais que eu estivesse nervosa com a perspectiva de passar a palestra inteira sozinha com Mateus, era muito pior ter que passá-la com Mateus e Paula.

― Não sabia que você era música! ― Ela diz. ― Quer dizer, supondo que este é um case de algum instrumento. Flauta, talvez?

― Guitarra ― eu respondo.

― Ah, tá ― ela diz, mas não parece realmente interessada. Está olhando em volta, procurando por algo.

Eu vejo seu rosto se iluminar quando encontra. Não algo , mas alguém. Mateus passa pelos corredores, cumprimentando nossos colegas e ajustando o violão que também carrega. Ele está usando uma camisa de manga curta com um colete por cima, calças jeans e tênis.

― Nicole! ― Mila não contém um de seus berros.

Eu pisco e, no segundo seguinte, Paula já está em volta de Mateus, sorrindo e jogando os cabelos. Ele sorri e parece interessado na conversa, mas levanta a cabeça e me vê. Eu levanto a mão e tento acenar. Ele acena de volta, alargando um pouco o sorriso.

― Assume esse crush! ― Mila silaba.

O sinal toca, indicando que precisamos ir. Mila me dá um abraço e corre na direção da sua palestra. Eu sigo as placas que indicam o caminho da minha, sem acreditar no meu azar. Sento, depois de cumprimentar o nosso palestrante. Paula e Mateus chegam logo depois.

Eu tento abstrair e focar. É difícil porque, sempre que tem a oportunidade, Paula dá um jeito de flertar com Mateus. Na minha cara e na cara do palestrante, que fica olhando para mim com uma expressão de confusão. Mateus, pelo jeito, é o único que não entende as intenções dela.

É mais difícil ainda me concentrar porque eu passo muito tempo mandando mensagens para Mila, pedindo socorro. Ela, é claro, não está me respondendo.

Depois de uma hora e meia de palestra, eu já perdi as esperanças. As esperanças de Mila responder, de ter uma carreira na música e de Mateus finalmente me notar. Estou sentada lá, inerte, observando Paula segurar os bíceps dele e perguntar se ele é forte assim só porque toca muito violão ou se também malha.

Meu celular treme no meu colo antes que eu vomite.

Mila: Miga, você tem que assumir esse crush . Chega de fugir.

Protelou tanto que o amanhã chegou, Nicole. É agora. Vai!

Como? Que história é essa de amanhã chegar? Eu hein! Eu não deveria ser capaz de poder escolher o momento de assumir meu crush? Imagina, como é que eu ia falar para Mateus uma coisa dessas? Dava um embrulho no estomago só de pensar. Esse amanhã já podia virar ontem: eu não queria mais saber dele!

A palestra termina. Mateus levanta e anda até o palestrante, agradecendo pelo tempo disponibilizado e pelas dicas. Pergunta se ele tem alguma dica específica para quem quiser mesmo ser músico.

― Treinar é a dica mais importante ― responde. ― Por que vocês não aproveitam os próximos minutos para tocarem juntos?

Mateus olha para trás. Para mim. Continuo sentada na cadeira, incapaz de me movimentar depois das mensagens de Mila.

― O que você acha, Nicole? ― Ele pergunta.

― Eu acho uma péssima ideia ― é Paula que responde. ― Não me sinto confortável para tocar em público.

― Então como você quer ser música? ― O palestrante pergunta.

― Mas eu não quero! ― Paula responde, jogando o cabelo. ― Eu quero ser modelo!

Nós três ficamos em silêncio, chocados com a revelação.

― Ah... quer dizer... ― Ela percebe a falha. ― Eu adoraria ser música também e...

― Você pelo menos sabe tocar violão, Paula? ― Mateus pergunta, suspeitando.

― Claro que sei, eu... Só prefiro não tocar ― Paula responde, na defensiva. ― Preciso ir ― diz, rapidamente. ― Tenho um... Er, um compromisso.

Ela corre da sala e eu escondo meu rosto nas mãos para os rapazes não vejam que eu estou rindo.

― E você, Nicole, quer tocar? ― Mateus pergunta, girando na minha direção.

Paro de rir na hora, com o coração totalmente fora de cadência.

― O som não vai ser muito bom ― eu respondo, tentando dar uma desculpa. ― Guitarra soa melhor quando conectada ao amplificador.

― É verdade, mas para uma prática rápida não tem problema ― o palestrante comenta. ― Divirtam-se.

Mateus começa a andar e para na minha frente, o que parece ser a deixa para que eu levante e o siga. Nós passamos pela porta e caminhamos pelo corredor, a caminho do pátio. Conversamos sobre algumas coisas que ouvimos na palestra até chegar lá, mas eu mal consigo olhar para ele. Na minha cabeça continua a história do amanhã que Mila falou.

Sentamos em um banco e preparamos nossos instrumentos quase em silêncio, fazendo comentários sobre uma ou outra coisa em particular. O silêncio não é constrangedor, mas a troca de olhares que rola entre nós me deixa com as bochechas vermelhas. O lugar está vazio, então fico um pouco mais confortável. Confortável ao lado dele? Achei que isso nunca seria possível.

Começamos a tocar uma música que nós dois sabíamos – do repertório do filme que ele indicou. Foco em fazer o meu melhor com a minha guitarra e não é tão difícil quanto imaginava. Ouço o dedilhar de Mateus ao fundo e seu cantarolar e estou tão presa no momento que desejo que a música nunca mais acabe. Mas ela acaba, é claro. Confirmando que eu não tenho mesmo a menor gerência sobre nada. E que o amanhã sempre chega, não importa o quanto eu tente fugir dele.

Mateus me olha, sorrindo. Eu sorrio de volta, porque é tudo que eu consigo fazer. Ele é tão lindo, toca tão bem e tenho certeza que se eu não tivesse tanto pânico de ficar ao seu lado, seriamos muito amigos.

― Você toca muito bem ― ele diz.

― Você também ― digo, apesar de já saber.

Nós rimos, virando nossos rostos para o outro lado. Ele está me encarando quando eu tomo coragem para olhar na direção dele pelo rabo de olho. Não consigo evitar um sorriso. Sinto minhas bochechas queimarem, meu coração saltitar no peito e percebo que, talvez, esse seja o momento.

― Eu queria saber se...

― Eu estava pensando se você...

Falamos ao mesmo tempo, nos interrompendo. Paramos de falar, dando uma nossa risada. Dessa vez, não viramos os rostos. Eu abaixo os olhos, um pouco envergonhada. Apavorada também.

― Você primeiro ― ele diz.

― Não, você primeiro! ― Eu imploro.

O desespero de saber o que ele queria dizer era maior do que a minha urgência em falar. Para meu alívio, ele assente.

― Eu estava pensando se você não gostaria de... ― ele diz fracamente, inclinando um pouquinho a cabeça. ― De sair comigo um dia desses

Meu queixo despenca.

O quê? Mateus estava me chamando para sair ? Eu tento falar, mas não consigo. Preciso respirar fundo e superar o pane geral que meu sistema interno deu. Como assim? Quem queria berrar agora era eu!

― Era isso que eu ia te perguntar! ― Consigo formular.

― Então, sim? ― Ele pergunta, abrindo um dos seus lindos sorrisos.

― Sim ― eu respondo, mas na verdade quero dizer com certeza.

Um novo silêncio se instaura, mas não é desconfortável. Eu estou tão feliz! Ele dedilha o violão e eu fico olhando, pensando como eu tenho sorte. Estou gostando mais desse amanhã do que eu pensei que gostaria. Mas eu queria tanto, tanto...

― Mateus ― eu chamo, ainda que meio sem coragem.

― Já mudou de ideia? ― Ele ri.

― Não ― eu rio. ― Na verdade, eu estava pensando se...

Ele também se desloca no banco, chegando mais perto. Eu pisco os olhos, nervosa. Como falar o que eu queria?

― Eu também estava pensando ― ele diz. ― Mas agora você primeiro.

Eu respiro fundo, sem saída. Estava com medo, mas queria dizer mesmo assim. Se o amanhã tinha chegado, eu precisava aproveitá-lo.

― Eu só queria saber se... ― Eu começo, esticando a minha mão para tocar seu colete. ― Se eu podia, sabe... ― é muito difícil, mas eu falo, mordendo meu lábio de tanto nervoso. ― Te beijar.

Mateus sorri. Tanto que eu sei que toda dificuldade valeu a pena.

― Era exatamente isso que eu estava pensando ― diz

― Então, sim? ― Eu pergunto, brincando.

Ele não responde.

Está ocupado demais me beijando.