A Moça da Fotografia

A MOÇA DA FOTOGRAFIA

A Moça da Fotografia

Nem se lembra quando ganhou a primeira câmera. Mas foi em um aniversário, com certeza. Sabe disso porque comemora o aniversário a poucos dias do Natal, e de presente de Natal pediu a revelação das fotos e alguns rolos de filme. Ganhou três, de uma vez. Duraram até quase o Ano Novo. Eternizava assim alguns instantes únicos e voláteis, preciosidades cotidianas nunca dantes captadas. Contava, sempre, com uma pitada de sorte para que a luz tivesse sido adequada para sensibilizar o filme, o enquadramento tivesse ficado perfeito, ninguém tivesse piscado na hora agá e as suas mãos não tivessem tremido...

Sua ansiedade somente se esvaecia após a abertura de uns envelopes amarelos com quadrículas e números, com tiras de negativos de bordas perfuradas e papéis retangulares à prova d’água, os quais conquistavam o direito (ou não) de povoar a parede norte do seu quarto como pequenos troféus.

Eleito por unanimidade o fotógrafo oficial da família, aprendeu a duras penas a não decepar cabeças nem pernas, a não fotografar contra a luz, a prender a respiração e até a prever o próximo instante, fazendo por merecer o custeio do material e do processamento.

Tornou-se adulto e quase ganhou dinheiro com isso. Fotografava bebês, aniversários, casamentos, formaturas e eventos sob encomenda. Só não achava justo cobrar para fazer algo de que gostava. Trabalhava em uma fábrica para se sustentar, e fotografar era somente por prazer.

Não almejava ter a melhor das câmeras. Só queria se sentir no controle, ajustar a abertura, o foco e a velocidade. Escolhia bem a marca e a sensibilidade do filme, cuidava da iluminação, da distância focal e do enquadramento.

Sabia até como carregar o filme de modo a conseguir tirar uma ou duas fotos a mais por rolo, e as reservava para momentos especiais. E era assim que conseguia as melhores fotos. Um sorriso descuidado, uma criança sem a mãe por perto, um abraço sincero, algum beijo furtado... Era seu toque pessoal e profissional. Garantia de cliente satisfeito e indicação para os amigos. Naquela festa de criança, depois de tirar todas as poses padrões que a mãe pediu, decretou que seu trabalho estava encerrado, pediu um pedaço de bolo e assim vestiu seu manto de invisibilidade. Como fotógrafo, apesar de ser visto e até procurado por todos, conseguia passar praticamente incógnito. Ao longo dos anos, percebeu que as pessoas olhavam somente para a câmera, não para quem a operava. E, por conta disso, também olhava para elas sem as ver. Eram apenas fragmentos de um mosaico vivo que precisava ter um instante registrado para a posteridade. E foi nessa festa sem crianças sujas de bolo nem beijinhos furtivos de priminhas que viu minguar suas chances de fazer bom uso das poses extras. Foi quando sua retina se sensibilizou com a imagem daquela moça bonita.

Sorriso gostoso, maçãs do rosto salientes, pintinha no nariz. Mãos finas, pernas lindas, vestido preto, combinação perfeita e perigosa. Certamente havia mais algumas polegadas de negativo não exposto ainda, e dessa vez o favorecido seria ele mesmo. Utilizou o zoom para enquadrar apenas o rosto, e adivinhou que ela iria colocar o dedo de leve nos lábios em exatos quatro décimos de segundo. Inspirou e pressionou o disparador suavemente, para a câmera não tremer. Tempo exato, foto perfeita. Avançou o filme, com a intenção de tirar uma foto de corpo inteiro, mas a película o traiu. Ficou a milímetros de conseguir a segunda pose extra. Apalpou os bolsos, mesmo sabendo que não havia trazido nenhum rolo extra. O pedido era para trinta e seis fotos e só. Nisso, três crianças atraídas pelo brilho do flash se materializaram à sua frente. Queriam uma foto juntas, todas descalças, suadas e descabeladas. Teria sido até mesmo uma boa foto, mas ele rebobinou o filme, tirou o rolo da câmera e o guardou. Fez isso para mostrar às crianças o imenso buraco negro que é o interior da câmera, prova irrefutável de que toda a esperança delas havia se desfeito. Como boas crianças, queriam ver a câmera com os dedos, e ele achou por bem explicar que aquilo não era um brinquedo, e usou todo aquele papo de adulto para dissuadi-las de seu intento original. Crianças despachadas, buscou a moça com a vista, mas não a viu mais. Amaldiçoou cada criança individualmente e em grupo em seu coração, depois se arrependeu e as perdoou incondicionalmente. Afinal, se ele estava ali era por elas. Começaram a recolher as cadeiras e as crianças, e ele achou por bem se recolher também. Parecia que, se voltasse logo para casa, iria revelar o filme mais rapidamente, e ele mal podia esperar por isso.

Entregou todas as fotos, já montadas em um álbum, em apenas dois dias. Ou melhor, quase todas. Guardou aquela última e ficava olhando-a ao voltar do trabalho, antes de dormir, ou a qualquer momento, em edição extraordinária.

Imaginava qual seria o nome dela, onde moraria, por onde andaria. Estava ficando louco por ela, e nem ao menos sabia se esta o havia notado. Afinal, ele era tão invisível quanto uma garçonete, uma faxineira ou um pipoqueiro.

Buscou, entre os negativos, fotos em que ela poderia estar. Nenhuma! Como isso seria possível? Nem na hora de cortar o bolo! Ele se ocupara tanto com as poses, a iluminação e o enquadramento, que nem reparou nas pessoas. Apenas naquela foto singela era possível comprovar a presença da sua musa na festa.

Mas, com que cara iria perguntar a alguém? Como iria explicar que tirara uma foto extra, não entregue no álbum, e apenas do rosto de uma pessoa que nem aparecia junto aos outros convidados?

Sinuca de bico... Em poucos dias o desespero sobrepujou a timidez e a até a vergonha. Arriscou uma desculpa esfarrapada, dizendo que o laboratório fotográfico havia perdido aquela pose, e ele descobriu apenas quando conferiu os negativos para arquivar. Assim, fizeram duas cópias, para compensar. Adicionaria uma ao álbum e entregaria a outra à própria moça. Só precisava saber onde ela morava...

Mas, para surpresa geral, a dona da festa não reconheceu a distinta convidada. Até aventou a possibilidade de aquela foto pertencer a alguma outra festa, já que todas as trinta e seis fotos contratadas estavam ali e ela sabia contar. Como apenas o rosto estava enquadrado, sem outras pessoas ou referências, era difícil afirmar se de fato a foto pertencia mesmo àquele evento. Recebeu outro agradecimento pelo belo álbum e um saquinho surpresa dos muitos que sobraram da festa, mas aquela foto adicional foi sumariamente dispensada.

E agora? Um beco sem saída! Os dias se passaram e suas esperanças minguaram. Já não sabia se rezava ou se xingava. Só queria saber por que Deus permitia tais desencontros na sua vida. Por que ele não se desvencilhou das crianças e falou com ela naquela noite? Teria sido indelicado ou anti-profissional? E agora, o que fazer?

Três eventos fotográficos mais tarde, sentado a um canto e ainda segurando um prosaico pratinho vazio, o olhar baixo mirando lugar nenhum, um par de pernas lindas se revelou à sua frente, brotando de um vestidinho preto. Um sorriso gostoso fez as maçãs do rosto ficarem ainda mais salientes e sequestrou seu olhar até uma inconfundível pintinha no nariz, enquanto uma mão fina envolveu um dos copos azuis borbulhantes da bandeja e uma voz de anjo perguntou se acaso ele aceitaria um refrigerante.