Capítulo 1

Copos Vazios

Capítulo 1

As cortinas estavam fechadas, apesar de o sol brilhar lá fora. 
Ela se deitou, entregue ao chão e ao cansaço, úmida de uma mistura composta de suor e lágrimas. 

A excitação não parece suficiente e a dor é a única que a consola ao decorrer desses dias tão iguais. Tão iguais e pesados, que se arrastam pelos corredores de sua vida. Outros tão diferentes e leves, que passam como num sopro qualquer. O piscar de seus olhos é trêmulo e ansioso, e aguarda sempre uma volta e uma partida. Mas o brilho perdura, mesmo que ofuscado. O brilho em um canto da alma, de quem anseia ser resgatado por si mesmo e depois, ser lançado ao vento para que enfim esteja liberto. As bitucas de cigarro sempre estão espalhadas pelo quarto, fazendo uma decoração própria ao lado dos embrulhos de camisinhas e garrafas vazias. As cheias ainda estão por cima dos móveis, na cômoda ao lado da cama, ou qualquer outro lugar alcançável, rápido e prático.

Ela sentou em seu carpete, nua, e abraçou gentilmente as pernas num ritual de consolo, tentando afastar o frio. Não conseguindo, pegou o primeiro casaco que viu pendurado em uma cadeira velha. 

Tudo está velho e desmoronando. Principalmente por dentro. Um respiro, e suas pernas vacilam. Ela fecha os olhos, tomando impulso para sair dali.

Já não pode mais consigo, não suporta ter de suportar sua presença.

Há um tempo decidira morar sozinha em um quartinho apertado que conseguia pagar. Já não tinha amigos e isso a fazia se sentir devastada. Ganhava pouco, chorava muito. Algumas pessoas com quem dormia vez ou outra deixavam um dinheiro por cima da mesa, e em alguns casos de embriaguez forte, esqueciam a carteira. Ela não devolvia. Se alguém ligava perguntando, dizia nada ter visto e que talvez estivesse perdida pelas ruas. Assim, conseguia vez ou outra um café da manhã melhor por algumas semanas e dinheiro suficiente para entrar em alguma festa atrás de qualquer coisa ou pessoa que a fizesse esquecer os problemas, nem que fosse por ao menos uma noite.

A noite havia acabado agora para ela, mas em meio ao desemprego, de dia também era hora de negociar com homens. 

Tirou o casaco, prendeu o cabelo e abriu o chuveiro. Entrou de uma vez. Fechou os olhos, imaginando que a água que caía uma hora acabaria levando embora seus problemas. Vestiu a camiseta de ontem, colocou novamente o casaco. Meteu o celular no bolso e colocou um jeans velho, porém, ajeitado. Calçou o par de allstar batido e básico. Saiu às pressas, como se na rua fosse encontrar os remédios certos para aplacar sua dor, amarrando bem ao alto da cabeça seu médio e desgrenhado cabelo castanho, que ficava dourado à luz do sol, não se sabe por que. Não deu bom dia para os vizinhos, e ninguém se importou. Desceu correndo as escadas, e ao chegar à porta, uma jorrada de vento bateu contra seu rosto, fazendo com que soltasse um suspiro.

O tempo em sua cidadezinha mudava de uma maneira drástica. "Ao menos ele muda", ela pensava. Seguia caminhando rápido, sem olhar para os lados e muito menos para os semáforos. Algumas vezes escutava buzinados, outras, assovios. Já estava no bairro vizinho e nostálgico, quando um rapaz alto e loiro passou meio desconcentrado e vasculhando algo em sua bolsa e bateu de frente com ela. Ele a reconheceu:

— Kimberly, é você porra!
— Luke! — ela sorriu e deu-lhe um abraço, enquanto falava baixo, contra o peito do rapaz —Fazia meses que eu não te via. 
— Você saiu de casa e não avisou ninguém. Eu senti sua falta e um dia bati lá. Sua mãe disse que você tinha ido embora.
— Perdão, você era a única coisa boa a respeito daquele lugar. Mas eu não aguentava mais. Eu não aguento mais.

Luke afagou carinhosamente o rosto da garota, e após um momento notou que ela estava bem mais magra do que sempre fora. Decidiu levá-la para um café, ou bar.

                                                                ***

Na noite anterior estava quente. Aquele quente abafado que deixa atordoado quem se concentra em sentir. Ele tomava uma cerveja, sentado na varanda. Acendeu um cigarro que quase não levou aos lábios por estar perdido em suas divagações. Queria sair. Queria fugir. Queria beber até se esquecer quem fora e quem agora era, mas não podia. Sua vida de vagabundagem chegara ao fim e ele se preparava psicologicamente para voltar a trabalhar no dia seguinte. Em meio a isso, algo não lhe saía da cabeça:
"Onde ela está?" 
Ele sussurrava ao vento, mas o vento não lhe sussurrava a resposta. A rua estava deserta, apesar de não ser tarde.

Quebrando o silêncio, um carro apareceu com os faróis apontados para seu rosto cansado e triste. Ele colocou a mão com o cigarro entre os dedos na frente dos olhos. O carro estacionou na frente de casa e um casal de meia idade desceu, dizendo um olá cheio de energia, uma energia não direcionada a ele. A mulher estava cheia de sacolas de roupas infantis nas mãos e o homem também, tagarelando sem parar sobre a chegada do bebê.

O cigarro queimava solitário. A cerveja havia se esgotado. Ele continuava ali, com suas emoções contidas. Outro barulho rompeu o silêncio da noite, esse era familiar. A maciez aguda com que vinha pelas ruas, o skate de seu velho amigo. Com um breve sorriso de canto, observou ele chegando e sentando sobre o shape.

— Tem uma festa no bairro vizinho, na casa do Feijão. Bora? 
— Nunca fui muito com a cara dele.
— E o que tem a ver a cara dele? O que importa é que tá cheio de mulher e bebida.
— Não posso beber.
— E o que essa latinha de cerveja faz aí?
— Cerveja não faz mal.
— Para de ser cuzão. Faz tempo que você não sai de casa. 
— Arrumei um trampo. Começo amanhã, meio dia.
— E só me fala agora! — ele diz entre risos — Sinto que esse amor entre nós está abalado!
— Não ando com muita vontade de fazer coisas ou falar sobre coisas.
— Você precisa de uma mulher, escute o que eu digo.
— Eu sei.
— Eu vou nessa, cara. Se mudar de ideia, sabe onde eu vou estar.

E sumiu, descendo de skate.

"Estou como querem as fadas, como querem as tardes, como queres, meu bem. Eu sou um garoto levado, tão bem-comportado que só diz amém. Tô deitado em tua cama e virei minhas costas pro que eu disse ser meu. Andei rezando profundo, esqueci por segundos meu papel de ateu."

Luke acordou de um pulo sinistro numa mistura de empolgação e susto como todos os dias, graças à música-despertador. Foi a maneira que ele encontrou para arrumar alguma coisa que o fizesse seguir em frente. Qualquer coisa.

Sentado em seu carpete revirando algumas revistas, estava Dino, com um olhar vago, entediado e cansado de quem espera alguma coisa há muito tempo.

— Pelebrói logo cedo. Por isso você acorda terrível, cara. 
— Tá fazendo o que aqui essas horas? Sai fora que eu quero sair da cama. 
— Saia.
— Eu durmo pelado, cara.
— Não me importo. Para com isso, a gente se conhece há anos.
— Vai se foder.

Ele levantou, derrotado e tropeçando nos montes de revistas que estavam espalhados pelo chão. Pegou no armário a primeira roupa que viu e partiu em direção ao banheiro, rapidamente e nu.

Estava a maior parte do tempo em casa, antes de arrumar um emprego. Não gostava de ficar sozinho e acabou fazendo amizade com a vizinha da quadra de trás um dia, na pista de skate. Ela estava sentada em um canto chorando e ele chegava com uma garrafa de choconhaque embaixo do braço. Sentiu que aquela era apenas mais uma alma abandonada na terra e que talvez álcool dissolvesse seus problemas. A partir desse dia ela não teve mais a necessidade de ir até a pista, pois ele não saía da sua casa, com exceção dos dias em que Dino ia visitá-lo. A garota se foi, agora era ele e Dino. Ele não morava tão perto assim, mas estava sempre na casa do amigo, ao menos três vezes na semana. Sempre de skate. Sempre atrás de alguma garota.

Após tomar banho e se vestir, Luke chamou o amigo para beber alguma coisa antes de ir trabalhar. Ele recusou, dizendo que estava ali por razões distintas à presença dele.

— Você está na minha casa por razões distintas à minha presença? Que porra é essa?
— Vou trazer uma mina aqui. Preciso do seu quarto, qual é. 
— Falou então. Qual mina?
— Uma de ontem, que encontrei na festa do Feijão. 
— Pode crer.
— E seus pais?
— Meus pais só chegam de noite, você sabe. E também ninguém tá nem aí. Mas aí, a menina vem até aqui sozinha?
— Não, daqui a pouco vou encontrar ela ali na praça.
— Tranca a porta, tem uns caras rondando minha casa — disse já saindo, pegando a mochila que estava por cima do sofá. —  Ah, tem cerveja na geladeira! — gritou ele, porta a fora.

Saiu apressado, morrendo de fome e ansioso. Era seu primeiro dia no emprego e precisava de alguns papeis que ele não tinha certeza se estavam com ele, então começou a procurar em sua mochila. 

Capítulo 2