Os Sonhos de Jaqueline

Os Sonhos de Jaqueline

Os Sonhos de Jaqueline

Meu pai está morto. A culpa é minha; contei o acontecido. Se eu tivesse ficado calada ainda estaríamos em Granjeiro. O pai ainda estaria vivo!

 

***

 

“Corre Júlia. Encontro Josué rindo; indo e vindo no balanço. Corre... corre Josué. Brincar, felizes, brincar. Subíamos no pé da cajarana, da pitomba. Brincar, brincar, felizes;  no quintal. Corre... corre...”

 

— Jaque, Jaque acorda! Eu fiz xixi na cama.

 

Meu sonho é interrompido. São seis horas e dois minutos.

 

— De novo Josué! Vá se banhar enquanto eu limpo tudo. Depois acorda a Júlia. Vou passar o café.

 

— Acabou! O café e o leite.

 

— Tá, então vocês merendam no colégio.

 

Falta tudo, café, farinha, arroz. Falta carne, feijão. Falta tudo! A mãe que não volta pra casa. Doze dias sem aparecer.

 

— Vai Júlia. Levanta! Vai escovar os dentes. Penteia os cabelos. Se arruma pra não se atrasar!

 

— A mãe deu notícia?... Jaque?

 

— Não! Não se preocupa Júlia... Ela volta!

 

— Tomara que ela volte amanhã que é meu aniversário!

 

— É, tomara!

 

Tem sido assim, depois que mudamos da pequena Granjeiro para o bairro de Pirambu, em Fortaleza. Com a morte do pai, a mãe se esqueceu da gente. Endoidou. Passa dias perdida nas ruas.

 

Tudo que posso fazer é esperar. Tomar conta da casa, dos meus irmãos. Mas sem dinheiro para por comida na mesa só resta uma escolha. E eu, não gosto desta escolha.

 



***



“Da à mão Júlia; pega na mão dela Josué. Corre... corre... corre... no três pulamos no açude. Um... dois... três... A água nos abraça com todo carinho. A alegria escorre por nossos cabelos. Felizes; brincar, brincar.  Felizes, crianças, crianças, felizes.”

 

— Jaque acorda. Desculpa! Eu fiz xixi na cama.

 

Meu sonho é paralisado. São cinco horas e cinquenta e sete minutos.

 

— Josué, quando você vai parar com isso? Vá logo se banhar!

 

— Tá. Desculpa! É pra acordar a Júlia?

 

— Não. Hoje é aniversário dela, vocês não vão pro colégio. Vamos fazer uma festinha. Com bolo e tudo mais!

 

— Como você conseguiu o bolo?

 

— Vou fazer! Trabalhei ontem na venda do Seu Ocimar. Ganhei um dinheiro, comprei comida. Se quiser tem biscoito.

 

Não gosto de mentiras, mas aprendi que em alguns momentos a mentira é necessária.

 

Eu não trabalhei na venda do Seu Ocimar ontem. Eu vendi meu corpo para aquele velho sujo, nojento, sem vergonha. Em troca ganhei uma cesta básica, que mau da pra passar o mês.

 

Essa não foi a primeira vez. Por força da situação, do desespero, para acabar com a fome, já havia deixado aquele velho imundo me usar antes.

 

Sinto nojo de mim! Tenho vergonha de olhar no espelho. De ver o que fiz! Mas se não fosse assim estaríamos mortos de fome. Não tenho forças para fugir, não vejo saídas. Não sei para onde ir e o que fazer.

 

A mãe não está aqui. Seria bom se ela estivesse. Seria bom se o pai estivesse. Ela, eu sei que volta. Um dia ela volta. Ele, não! Por enquanto somos apenas nós três embaixo desse teto; eu, Júlia e Josué.

 

Tenho medo da cidade grande. Tudo era melhor no interior. Se eu não tivesse contado nada para o pai ainda viveríamos lá.

 

Só que eu contei. O acontecido foi durante a ausência deles. Júlia precisou fazer tratamento em Fortaleza. Josué foi junto para conhecer a capital. Eu fiquei em Granjeiro.

 

Até que, aquele quem eu pensava amar, e também dizia que me amava, virou um monstro, um demônio, um cão sarnento. Não gosto nem de lembrar o que ele fez comigo. E depois de tudo, disse que não era pra falar nada pra ninguém, ou mataria meus irmãos. Pra terminar falou que a culpa era minha, de estar ficando “gostosinha” para ele. O diabo que fez isso foi meu avô Eliezer.

 

Tive medo, mas achei que contar a verdade fosse o certo. Quando eles retornaram contei tudo. Agora me arrependo.

 

Uma tragédia só não aconteceu porque a mãe conseguiu tirar a peixeira da mão do pai. Só não evitou a surra que ele deu no velho.

 

Depois disso, mudamos para o bairro na capital. Numa casa pequena. Numa rua apertada, cheia de gente. Muito diferente do interior do Ceará.

 

Um mês depois, o pai foi morto em um assalto. Mesmo sem reagir e entregar tudo, os bandidos deram três tiros. Três tiros que acabaram com nossa família. Júlia parou de falar por sete meses. Só voltou a falar para perguntar da mãe quando ela sumiu pela primeira vez. A mãe enlouqueceu. Caiu nas drogas. Josué começou a fazer xixi na cama. E eu, além da culpa, comecei a ter sonhos.

 

— Parabéns Júlia! Apaga a velinha!

 

— Parabéns Júlia! Corta o bolo logo. O primeiro pedaço é meu!

 

— Faz um pedido antes de cortar!

 

— Quero que a mãe volte pra casa amanhã!

 

***

 

“Sua benção meu pai. Sua benção minha mãe. Vocês voltaram! Júlia, Josué, corre... vem ver que chegou! Corre... corre... vem logo. A mãe e o pai estão no quintal. Corre... Josué. Corre... Júlia.”

 

— Acorda Jaque! Acorda. Rapído!

 

Meu sonho tem fim. São oito horas e quarenta e cinco minutos.

 

 — Josué, você fez xixi na cama de novo?

 

— Não! A polícia tá aí na porta!

 

— É notícia da mãe! Acorda a Júlia!

 

Por um instante pensei que os policiais tivessem encontrado minha mãe. Não foi isso que aconteceu.

 

— Jaqueline, meu nome é Ivone. Sou do conselho tutelar. Recebemos uma denúncia dizendo que vocês foram abandonados pela sua mãe. É verdade?

 

— Não! Não é verdade!

 

— Onde sua mãe está agora?

 

— Eu... eu não sei!

 

— O conselho constatou que a denúncia procede. Sua mãe cometeu crime de abandono de incapaz!  Vocês serão levados para uma casa de acolhimento. Posteriormente serão entregues para o tutor legal. No caso o único parente que vocês têm é seu avô Eliezer. Ele será designado para ficar com você e seus irmãos.

 

Naquela hora uma passagem abriu-se à minha frente. Enxerguei a única saída possível. Era a parte ruim dos nos meus sonhos.

 

— Dá a mão Júlia. Pega na mão dela Josué. Corre... corre... corre...