Capítulo 1

PENSE MELHOR ANTES DE PENSAR #SweekStars2018Livro

Capítulo 1

O zunido tinha se suavizado. A tonteira também. Aquela velha sensação de “onde estou?” não! Mas tudo bem! Zuwi já tinha começado a se acostumar com ela. Era até divertida. Era como devia se sentir uma mosca que, sem querer, entra em um avião no verão do Brasil e, depois de horas de viagem, sai no frio da Europa. Muito doido afinal não saber exatamente para onde se está indo nem com o que precisamente se vai deparar. Independente disso, é divertido.

            Zuwi tinha esse espírito aventureiro-explorador-desbravador, gostava de desafios. Mas, como todo garoto, às vezes batia uma preguiça. Ainda mais que essas aventuras exigiam estudo. É, porque Virkadaz não é simples de ser desmitificada, exige dedicação, treino e muita leitura. Tem diversos segredinhos para que as coisas deem certo. Por isso, Llinky – seu enigmático instrutor nas artes de evolar, plixar, etc. – fazia-se muito exigente com seus alunos. Era exatamente por isso que Zuwi estava, nesse momento, nesse plix.

            Um parêntese aqui: como diria um certo livro, plix são “domínios dilatados da realidade apresentada”, ou seja, plix é uma das muitas camadas do nosso imenso universo composto por infinitos plix diferentes. Não esse universo que todos conhecem, mas o maior e mais complexo, que é chamado de Virkadaz. Esse lado misterioso do universo não é para qualquer um, não. Somente orbículas ou visionários podem partir da Index – onde todos vivem – para os demais plix. E isso se chama plixar e também evolar. Fim do parêntese.

            – Wow, muito alucinante! – enfim disse Zuwi, depois de chacoalhar a cabeça para colocar-se presente no novo plix. – Cadê a Anne? – afinal percebendo que estava sozinho.

            Sua companheira nessa tarefa, Anne, estava junto dele nas atividades do dia. Llinky tinha passado um difícil desafio que iria exigir muito dos dois, segundo contou em sua longa e morosa explicação. De cara, Zuwi não entendeu o tal desafio ao ver o plix. Pelo contrário, surpreendeu-se com a beleza, tranquilidade e… infinidade de maluquices do tal lugar.

            – Muito louco! – exclamou Zuwi, olhando e notando tudo ao seu redor.

            O que Zuwi via era algo surreal. E olha que tinha visitado muitos plix exóticos nesses últimos tempos. Mas esse era diferente! Tinha animais extraordinários, objetos surpreendentes, paisagens impensadas… só que, ao mesmo tempo, familiares.

            Isso porque havia florestas pelo caminho, contudo as árvores eram de gelatina e o solo de maria-mole! A aparência não era falsa para quem visse de longe, como que gelatina em forma de árvore. Tudo era incrivelmente misturado na composição para que continuasse natural e enganasse os olhos.

            Da mesma forma eram as lindas montanhas. Maravilhosamente formadas de pedras preciosas no lugar de rochas e que tinham grandes oceanos azul-turquesa e praias brancas no seu pico! Isso mesmo! Ao alcançar o cume, o céu realmente se unia ao oceano de forma surpreendente.

            – Oceanos no topo de montanha!? – exclamou ele animadamente, já se imaginando escalando.

            E os bichos então? Eram a soma de vários que os deixavam ainda mais belos.

            – Puxa! Queria que todo o pessoal visse esse pássaro! – soltou Zuwi, acompanhando algo suave no ar com asas de arara, cabeça de pica-pau-rei e cauda de pavão.

            Zuwi abandonou debaixo da sombra da linda macieira de bolos – obviamente de sabor maçã e em formato de maçã – as diversas admirações que, a todo instante, surgiam, para se concentrar em encontrar Anne e cumprir a missão dada por Llinky. Mesmo assim, não deixou de ficar loucamente faminto ao sentir o cheirinho apetitoso dos bolos, que não se atreveu a comer. Vai saber se realmente eram comestíveis?

            Percorreu com mais pressa a instável estradinha de maria-mole. E, incrivelmente, aos poucos, ela foi se transformando em uma esteira rolante ladeada por um gramado elástico, o que acelerou a chegada dele em uma vila visivelmente amistosa.

            – Que show esse lugar! – disse Zuwi enquanto a esteira diminuía o ritmo ao se aproximar da entrada do lugarejo.

            Zuwi imediatamente notou que a alegria envolvia todos do povoado. Os moradores trabalhavam sorridentes, cumprimentando-se euforicamente. E logo a cabeça de Zuwi já começava a ficar contagiada por essa atmosfera de bom humor, sem, é claro, interromper a tormenta de deslumbramento que guiava seus movimentos. Até se sentou em um banco de praça para deliciosamente curtir a sensação. Sentiu a brisa nos seus cabelos loiro-escuros e se surpreendeu ao perceber que estava tocando justamente a música que ele pensava ser a melhor para a situação. Então, identificou que o som saía exatamente do banco em que estava sentado! E, mais que isso: sempre que suas emoções mudavam, o assento emitia sons que combinavam com seus pensamentos!

            – É um teclado-caixa-de-som-banco-de-praça! – exclamou Zuwi para si.

            – Ei, você! – chamou alguém do outro lado da ruela.

            Sem se desprender da surpresa do banco que lia pensamentos, Zuwi virou o rosto na direção da voz. Era um garoto, um pouco mais velho do que ele, mais robusto e com um largo sorriso pendurado entre as grandes orelhas, que parou o que estava fazendo e veio ao encontro de Zuwi.

            – Oi, amigo! Você chegou agora, não foi? – disparou, continuando a aproximação. – Bem que eu vi a sua cara! Fique tranquilo, logo vai entender como tudo funciona. Eu sou Cao!

            – Zuwi – respondeu no automático, ainda estupefato com tantas coisas admiráveis acontecendo ao mesmo tempo.

            – Venha! – convidou Cao animadamente. – Vou te apresentar a todos!

            Cao foi andando para iniciar a visita. Contudo Zuwi ainda permaneceu parado, admirado e um tanto confuso.

            – O que foi? Vamos lá?! – questionou Cao, exibindo grande disposição.

            – É que… tenho uma… missão por aqui. Na real… preciso encontrar uma… pessoa primeiro – disparou Zuwi entrecortando a fala com monossílabos soltos e sem sentido.

            – Ok. Então está legal! Mas você fala sempre assim? – brincou Cao para tentar deixar o novo amigo mais no clima do vilarejo.

            Zuwi respirou fundo para fazer com que o oxigênio melhorasse a desenvoltura. Tentou tirar a possível cara de bobo que usava desde que chegou ao plix. Levantou-se com um ritmo menos letárgico e finalmente seguiu Cao.

            – Cara, que tal você me dar uma mão? Me ajuda a encontrar uma amiga que veio comigo? – convidou Zuwi, sabendo que, com tanta disposição, com certeza ouviria um sim.

            – Claro, então fala aí!

            Dito e feito! Cao tirou da bolsa, que carregava atravessada no ombro, um guarda-chuva. Acomodou-o no chão da praça e aguardou olhando para ele.

            Não demorou muito, do objeto começaram a brotar pernas de madeira a partir do cabo. Elas cresceram e se ramificaram para formar o assento e o encosto de uma cadeira. Em um susto, o guarda-chuva, que agora estava acima da cabeça dos meninos, se abriu. Então, de repente, lá estava uma cadeira com sua própria sombra.

            – Uau! Como você fez isso? Pode começar a contar! – disse Zuwi com muita empolgação.

            – O quê? A cadeira-guarda-chuva? Não tem segredo, não! É só…

            – Cao! Cao! Cao! O que está fazendo aqui? – gritou um senhor não muito contente como os demais vistos até o momento. – Ainda não é sua hora de almoço! Você não pode largar as fronteiras dessa maneira, moleque!

            – Opa, opa… Respira, controle-se, vovô! Sabe o que pode acontecer se ficar nervoso desse jeito! – falou calmamente Cao. – Pode deixar que estou a caminho, só vim pegar alguns brums-objetos para deixar a minha bolsa sempre preparada. – Deu uns tapinhas na bagagem que tinha a tiracolo. – É que encontrei um visitante aqui: Zuwi.

            O velho mediu Zuwi fechando um olho bem apertado e arregalando o outro. A cara permanecia amarrada e o silêncio atou o desconforto da situação.

            – Desculpe-me, senhor. Fui eu que… – disse Zuwi antes de ser interrompido pelo giro emburrado do idoso, que o deixou falando para o ar.

            – Não liga, não! Ele já viveu muito tempo do outro lado. Foi resgatado pelo meu pai. E, se não tomar cuidado, infelizmente logo virão buscar ele novamente! – contou Cao nitidamente lamentando a atitude do parente.

            – Outro lado? Que outro lado? – perguntou Zuwi interessado na novidade.

            – Venha que eu te mostro – convidou Cao, apontando uma viela estreita da qual não se via o final. – Aproveito para voltar para o meu posto.

 

 

Capítulo 2