Cabelos de fogo

Cabelos de fogo

Cabelos de fogo

CABELOS DE FOGO

 

     Há uma boneca de pano. Parecida com a Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo. Cabelo vermelho feito fogo, feito de lã, e um vestidinho de xita. Daquelas bonecas que não se fazem mais, uma anti-Barbie da simplicidade e de outra época. A boneca que minha irmã não largava, nem para dormir. Seu nome é Teca.

     Tem uns vinte e dois anos aqui em casa. Encardida em seu corpo de pano, resistiu ao tempo como eterna menina ruiva, diferente do que aconteceu com a minha irmã, hoje uma balzaquiana cidadã do mundo. Tão cidadã do mundo que há anos não a vejo. Nem eu nem qualquer outro membro da família.

     Tenho várias fotos dela, de quando ainda morava aqui, nesta cidadezinha pequena e quase fora do mapa, no interior de um estado que já é do interior também. Por dentro do que vai dentro de um país. Um esconderijo que ousam chamar de cidade. Minha irmã era uma das meninas mais bonitas do bairro, quiçá da cidade inteira. Pele branca, algumas sardas no rosto e cabelos vermelhos como os da boneca que ela tanto amava.

     Teca foi comprada por minha mãe numa barraca de festa junina, a data mais importante da cidade para crianças como nós. Eu que a escolhi. Minha irmã estava doente, com catapora e uma febre que não a tirava da cama por nada. Minha mãe veio comigo à festa junina, a contragosto, bem rapidamente, porque não parava de falar da filha convalescente em casa. Meu pai ficou com a filha e insistiu que minha mãe e eu viéssemos à festa um pouquinho.

     Foi só o suficiente para eu ver a boneca, apontar para a minha mãe e dizer que eu queria que ela comprasse para a minha irmã. Era um presente que eu queria dar a ela, uma consolação por não ter podido vir à festa. Minha mãe achou ‘bonitinho’ o meu desejo, assim, com essas palavras, e a comprou sem reclamar. Assim que cheguei em casa, fui direto ter com a minha irmã e dei a boneca a ela, que a batizou de Teca imediatamente. No dia seguinte a febre tinha sumido e a catapora começou a se tornar umas feridinhas secando, nada diferente do que quase todas as demais crianças da cidade enfrentavam um dia, inclusive eu, um ano depois.

     Eu sou apenas um ano mais novo que a minha irmã e desde pequeno era encantado por ela, a ponto de morrer de ciúmes quando algum garoto se aproximava dela na nossa adolescência. Ela era a minha princesa, e eu assumi esse papel de guarda real desde que o nosso pai morreu. Afinal, eu era desde os dez anos de idade o homem da casa. E ela, a princesa. Sempre foi. Até o dia em que ela decidiu viajar pela primeira vez.

     Aos 18 anos recém completados, minha irmã já era uma das mulheres mais requisitadas para fotos de publicidade da única agência de modelos próxima, na cidade vizinha, duas vezes maior que a nossa. Um dia um outdoor enorme foi colocado no centro da nossa pequena cidade, para anunciar uma nova loja de móveis. A publicidade não era nada erótica, pois do contrário, minha mãe e eu não deixaríamos, ou assim gostávamos de pensar. Minha irmã estava de calça jeans, blusinha azul acetinada e lábios vermelhos, com um batom que parecia caro pela foto, mas que não passava de um típico item de revista, daqueles vendidos de porta em porta pelas amigas da minha mãe. Mas tudo em minha irmã ficava lindo e adquiria um ar de sofisticação.

     A beleza dela era meio renascentista. Diziam que ela poderia ser atriz da Globo, que poderia fazer o papel, fácil, de irmã da Marina Rui Barbosa, na época ainda uma menina que despontava em seus primeiros papéis ainda adolescente. Minha irmã seria uma versão mais velha da Marina, mais mulher. E eu, ciumento, mas todo bobo com a possibilidade de sucesso da minha ainda princesa, acreditava que a sorte dela viria e um dia eu a veria nas telas de TV, quem sabe tão requisitada quanto à própria Marina Rui Barbosa é hoje. Sonho de um irmão que era seu fã número um.  

     Mas os convites para a TV nunca surgiram. Após algumas campanhas muito tímidas, que pagavam super mal, para outras lojas e serviços das cidades vizinhas, todas quase tão pequenas quanto a nossa, ela decidiu ir para a cidade grande. Fez uma viagem, sozinha, até a capital, ficou cinco dias lá, e minha mãe e eu quase morremos de saudade e de preocupação. Quando voltou, disse que precisava tirar imediatamente o passaporte, porque iria ser contratada para fazer alguns desfiles e fotos em Portugal. Minha mãe e eu não sabíamos o que pensar ou dizer. Minha irmã, além de já ser maior de idade, a essa altura tinha uma personalidade forte e não aceitava muitas críticas, muito menos censuras. Quando ela decidia algo, simplesmente fazia. E assim o foi.

     Voltou à capital para tirar o passaporte e, menos de dois meses depois, se despedia de nós, na rodoviária da nossa cidade. De lá, iria direto até o aeroporto da capital e embarcaria para Lisboa. Já tinha a passagem comprada, nós nem sabíamos com que dinheiro. Eu desconfiava que não era com os cachês dos trabalhos, porque eu sabia que era pouco e que ela gastava quase tudo com roupas. Além de linda, ela era vaidosa. Não! É vaidosa! Preciso aprender a usar o presente no lugar do pretérito, mas a cada dia que passa, a tarefa se torna mais difícil e até artificial.

     Na despedida, ela, que me chamava desde pequena de Toquinho, me abraçou forte, chorou até mais do que quando abraçou a nossa mãe, e me disse que eu devia continuar sendo o homem da casa e cuidar da nossa “velha”, haja o que houvesse. Eu não entendi muito bem essa última parte do que ela dissera, mas estava tão emocionado com a despedida que na hora nem percebi qualquer significado mais profundo.

     Assim que cheguei em casa, entrei no quarto da minha irmã, e lá estava Teca, a boneca de pano e cabelo cor de fogo, como uma versão infantil e lúdica da minha irmãzinha, que agora era um mulherão, como os meninos falavam dela desde a adolescência. Peguei a boneca, levei-a comigo para o meu quarto e a coloquei numa estante pequena para livros, que ficava acima da minha cama. Desde então, Teca nunca mais saiu de lá.

     Três meses depois, minha irmã saía de Lisboa em direção a Istambul. Trocou Portugal pela Turquia, segundo ela por conta de uma oferta irrecusável de trabalho. Despediu-se de nós numa teleconferência pela internet cerca de quatro horas antes do embarque, no apartamento que supostamente dividia com mais duas outras modelos, uma outra brasileira e uma italiana, segundo ela, e depois disso nunca mais a vimos. Ela havia completado dezenove anos uma semana antes da viagem.

     É esta a imagem que tenho da minha irmã até hoje. Não consigo imaginar como ela está agora, com trinta. Imagino que ainda esteja linda. Prefiro imaginar que ainda esteja linda, porque isso significa que ela está viva, em algum lugar. Espero que bem. Espero que feliz. Que o sumiço dela seja apenas uma característica de sua personalidade, egoísta o suficiente para abandonar mãe e irmão, e tudo o mais que deixou por aqui. Eu ficaria chateado, muito chateado. Mas é uma sensação muito mais suportável que esta que carrego comigo, desde então. Estou, ainda hoje, aterrorizado.

     Já se passaram onze anos e não tenho notícia alguma de minha irmã. Nem um telefonema, carta, email, mensagem por SMS, nada. Ela sumiu do mapa. Já fizemos de tudo para encontrá-la. Acionamos a polícia brasileira, que acionou as polícias portuguesa e turca, e até agora nada. Meus vizinhos e familiares, além de colegas de infância e adolescência meus e da minha irmã, já insinuaram bastante coisa. Claro que eu também penso nisso. Duas expressões não me saem da cabeça e me aterrorizam todos os dias, desde o sumiço dela: prostituição de luxo e tráfico internacional de mulheres.

     Hoje eu sofro sozinho. Nossa mãe morreu há dois anos, vítima de um câncer agressivo nos pulmões. Ela nunca havia posto um cigarro na boca em toda a vida. Dizem que a tristeza pelo sumiço da filha fez ela perder o ar aos poucos. Os pulmões eram o sopro de vida que ela deixou esvair. O povo é poético até na tragédia. Eu finjo que não acredito, que foi apenas uma fatalidade, mas lá no fundo eu vejo que minha mãe encontrou uma maneira sutil de desistir. Em seu leito de morte, ela me abraçou e me falou, meio delirando, que lamentava não saber falar turco, mas que daria um jeito. Acho que ela se foi imaginando que iria ao encontro da filha, para resgatá-la. O que me conforta é saber que ela se foi sorrindo, porque a possibilidade que a mente dela, cansada e nos últimos momentos, criou, a fez feliz pela primeira vez em nove anos, desde o desaparecimento da minha irmã.

     Estou noivo. Vou casar daqui a quatro meses. Amo a minha noiva e sei que serei muito feliz com ela. Já combinamos, com anuência imediata dela, que se tivermos uma filha, ela terá o nome de minha irmã: Alma. Não sei se há chance de Alma nascer com os cabelos cor de fogo da tia que está distante, mas a genética se encarrega dessa loteria.

...

     A minha Alma ganhou o mundo, e o mundo a perdeu. E talvez muito da culpa seja nossa, minha e da minha mãe, que não tivemos pulso firme para exigir dela mais explicações ou até mesmo para impedi-la de sumir de nossos olhos daquela forma, tão rapidamente. E a culpa me corrói.

     Sinto que eu não fui capaz de cumprir a promessa que fiz ao nosso pai, durante o seu velório. Não fui o homem da casa. Deixei a pessoa que eu mais amo, junto de minha mãe, sair de casa daquela forma para talvez nunca mais voltar, e talvez nunca mais saibamos o que aconteceu com ela. Fui um fracassado como irmão e como homem da casa. Espero poder me redimir com a minha nova família.

     Enquanto escrevo esse desabafo, olho para Teca, a boneca de cabelos de fogo, a figura mais próxima que tenho hoje da minha irmã. Há onze anos eu só durmo abraçado a ela, com exceção das vezes em que minha noiva dorme comigo. Nunca contei esse segredo a ela, tenho vergonha. Quando acordo e lembro que a minha vida precisa seguir, coloco-a de volta ao seu lugar de sempre, acima da minha cama, e o dia transcorre, como sempre sem nenhuma novidade do paradeiro da minha irmã.

     Hoje, no entanto, eu percebi algo que nunca tinha visto antes, e por isso decidi escrever: logo abaixo dos olhos de plástico de Teca, vi duas manchas em sentido vertical, de algo curtido pelo tempo, mas continuamente renovado, e senti com o toque das mãos que a extensão dessas duas linhas abaixo dos olhos da boneca estavam úmidas.

     Em algum lugar deste mundo perverso, habitado por tanta gente má, que utiliza outros seres humanos como mercadoria e não têm um pingo de remorso com isso, a minha irmã chora. Prefiro acreditar que sim. Não chorar pode significar outros destinos, e um deles eu não consigo, ainda, admitir.

     Espero um dia poder devolver Teca para a dona. Quem sabe uma Alma não decida dar a boneca para a outra, como presente de uma tia para a sobrinha com os mesmos cabelos?

     Torço para que um dia nenhuma das três ‘cabelos cor de fogo’, a que se foi, a que ficou e a que virá, chore de tristeza sem ser vista, sem ser consolada, sem saber que é muito amada. Enquanto isso, sigo minha vida, às vezes dormindo abraçado à Teca, outras vezes à minha noiva. E sonhando quase todas as noites que abraço finalmente, mais uma vez, a minha irmã, a Alma que eu perdi há onze anos numa viagem a Istambul.