Perspectiva.

Perspectiva.

Perspectiva.

  Vejo beleza em tudo. No cheiro de peixe, mijo e cerveja choca. Lixo pelas ruas e na boca das pessoas, no conversê do dia a dia, na fala miúda, na troça, nas bobagens. No pato que era pra ser branco, mas já está preto. Este que vai do profano ao sagrado, no querido e bem vindo mês de Outubro.

   Na malandragem do vendedor de joias pra cima do turista, vermelho e suado... embasbacado com tanta vida e tanto colorido. Na vista grossa do "polícia", encantado com alvas pernas. Na mistura do sotaque, que vai parecendo um rádio sendo sintonizado, chiado... chiado... 

Na caboquice do caboco, na pavulagem dos “pequeno”. Na gaiatice, na galhofa. No olhar cansado de ter-se acordado na madrugada, nos ombros arreados de tanto carregar farinha e açaí. Na briga por política, sobre quem é o mais ladrão... na peleja dos times. Quem é melhor, papão ou Leão? Pronto. Passou cansaço, passou tristeza.

   No aroma azedo da maniva e do cupu. Pat’choli... ah, como és misteriosa, morena. Como és encantadora. E sacana. Sacana como a conversa das damas da noite pra cima dos garotões... e a dos garotões pra cima das damas da noite. Como o olhar do limpador de para-brisa, mordido, porque lhe disseram "não". O carro arrancou... o céu começa a escurecer.

   E quando escurece, do nada. Parece que tudo fica triste, como o olhar do garotinho vendedor de bombom, com seu discurso decorado, seus pezinhos sujos de piçarra. Subiu ao ônibus. Vendeu dois chicletes... já ia descer, a chuva desabou. Gloriosa, sem perguntar se devia... molha tudo e umedece o corpo... chove tanto que umedece a alma... chove tanto que a água vira choro, um choro interior... água doce e água salgada... vivemos num aquário, e o sentimento é agridoce.

   E o ônibus vira uma estufa. Todo mundo fecha sua janela. O cheiro de gente exala, o vidro embaça. A senhora reclama do cheiro do sovaco do fulano de tal, que segurava o ferro de suporte. A mocinha reclama para o namorado, do calor e sentimento abafado. O senhor pesca um sono e um sonho. Piscou, acordou e desceu na parada errada.

   Desceu na parada errada, tomou um banho de um motorista mal-educado e mal intencionado. Mas, de repente, radiante o sol volta. A pino. Secando tudo. Queimando tudo e dourando as peles. Queimando rostos e cabelos. Disfarçando a tristeza da recente escuridão. Desfazendo os medos e dando a energia.

   Comprou o açaí... ô sorte!, tirou a tarde de folga e vai poder ficar morgando aquela momó do mormaço da tarde. Na rede. Que delícia. Coçando o pé no punho da rede. E ela vem, manhosa. Embebida no cheiro de café, mas olha que sorte: tem pupunha! Lá se vai mais conversê, lá se vai preocupação; e reclamação: égua do calor!

   Chegam os filhos, na boca da noite. O hibridismo é interessante: são pobres, mas o sapato é de marca; que vem molhado, por conta das ruas alagadas, e tem um amarelinho na ponta, do chute dado numa manga. Do bolso pende um saquinho de plástico, sobrou ainda uma castanha... resistiu àquela fome do entardecer. Os garotos vêm de longe, daquela parte tão bonita da cidade, que passam olhando, mas que não conseguem ver.

   Pronto, escureceu. Mas ainda assim não ficou frio. Continua quente. Como a conversa dos que estão de pegação. Como a orelha dos atendentes de telemarketing. Como a sola do pé do carroceiro, que passou o dia todo na rua. O corpo e seus músculos rijos, pros seus cinquenta anos, quase não aguentam mais. Os cinquenta contos que ganhou dão para muito pouco. Vão virar uma conserva e um pacote de miojo.

   Mas vai virar sorte, no trocado pro jogo do bicho. E se ganhar, vai virar sorriso, no rosto daquela mulher. Vai virar choro. Sim, vai virar choro, vai virar reza... quem sabe até oferenda... mas aí já amanheceu o dia, e o ciclo dessa beleza particular há de se renovar mais uma vez.

   Quintana disse bem, "todos os poemas são de amor".