De pernas pro ar.

De pernas pro ar.

De pernas pro ar.

Naquele dia o tempo era seu amigo. Olhava para o relógio e sorria, deliciado, com a situação e com a cena. 

Sorria porque já deveria estar no trabalho àquela hora. Sorria porque as pernas do rapaz, deitado no sofá, estavam para cima, num ângulo que deixava evidentes os músculos das coxas e das panturrilhas. Os pés, másculos, faziam uma coreografia estilosa, ritmada pelas batidas de uma música qualquer.

Estava deliciado com o momento, pois sabia que era finito. Em breve, o rapaz notaria aquela indiscreta observação, jogaria a cabeça pra trás e diria "tá olhando o quê?"... e, por mais suave e carinhosa que pudesse ser a pergunta, por mais sensual que fosse o timbre rouco (que lhe arrepiava), o momento desvaneceria... a bela pose se modificaria, o encanto findaria. 

Michelângelo enlouqueceria de felicidade se sua escultura falasse. Mas Francisco, não. Queria seu momento, sua cena e seu modelo calados num momento de infinito brilho e beleza... queria o seu quadro em cristal, queria a beleza eterna... estava mais para Drummond, para quem as "coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão".