ANTES DA SEMIFINAL

Amor em Jogo

ANTES DA SEMIFINAL

Nunca fui um cara cheio de exigências, detalhes e prioridades, muito pelo contrário, os problemas simplesmente são invisíveis em minha visão para muitas situações, mas existem apenas duas coisas que eu me recuso a fazer e aceitar em toda a minha vida.

Primeira: falar em público.
Segunda: perder uma aposta.

O meu ensino médio e fundamental inteiro foi prejudicado pelo ridículo trauma que criei na minha infância depois que todos os pais presentes no auditório do antigo colégio que eu estudava, admiraram minha cueca do Homem-Aranha enquanto dramaticamente eu recitava em uma atuação maravilhosa e digna de aplausos a cena do último ato de Romeu e Julieta.

Esse acontecimento para um homem no auge de seus vinte e três anos, que não se importa com nada além do futebol, competições de outros esportes e que já mandou todo o resto para o inferno, não passa de algo absurdamente comum e normal, mas para uma criança de dez anos que nunca tinha visto sua família tão eufórica e animada após escutar da boca de sua mãe a notícia que interpretaria Romeu em uma peça da escola, e teria como Julieta a garota por quem nutria sentimentos puros, inocentes e sinceros, isso é no mínimo, traumatizante.

O resultado dos milhares de flashes que foram disparados em minha direção e as gargalhadas sonoras que ecoaram pelo cômodo tiveram, foram as minhas notas que sempre eram baixas em trabalhos que exigiam uma apresentação no meu ensino médio — já que eu não conseguia ao menos ler uma maldita receita de bolo em frente à classe sem rever a cena que marcou minha infância na cabeça —, a mudança de escola pois chegou em um nível que eu não suportava mais as piadas com o acontecimento e o enorme medo de falar em público.

Embora meu trauma sempre ter sido algo muito presente na minha vida, principalmente em situações que envolvem meus amigos, eu como um cara inteligente que sou, consegui por um longo tempo manter esse segredo apenas entre eu e minha mãe até infelizmente o dia de hoje chegar, e eu contar pelo menos umas setenta pessoas presentes nesse bar e que em breve saberão do grande empecilho existente na minha vida.

Por apenas dois segundos. Dois pequenos e míseros segundos que subi nesse palco, peguei o microfone mantendo-o em mãos e observei a grande quantidade de pessoas com suas visões em minha direção, me perguntei se verdadeiramente eu queria fazer o que tinha planejado, se realmente valia a pena me permitir e aceitar o que viria a seguir, por mais que eu saísse beneficiado de todo esse desfecho.

A resposta veio bem nítida e bonita em minha frente quando visualizei Sibele Loss no meio do salão com seus cabelos claros soltos, usando suas casuais roupas básicas, com as mãos na boca e os olhos quase fechados, me dando certeza que seus dedos pequenos e finos escondiam um enorme sorriso frouxo que impedia o riso e completava sua expressão em uma junção de perplexa e confusa.

Todo o seu pequeno e maravilhoso corpo junto com o brilho da sua íris castanha clara, gritava a vitória que Loss acabava de ter da mesma forma que acredito eu, todos os meus poros berravam o fato dela estar tão quente e completamente iludida que valia totalmente a pena deixá-la achar que saiu vitoriosa da bendita aposta, quando na verdade nem perto do troféu ela chegou.

O simples fato de eu estar de pé em um palco, passando a maior vergonha que alguém desse campus já se permitiu ter não indicava a sua vitória e sim a sua derrota. O jogo já tinha acabado para ela a partir do momento que Sibele negou o que sentia e ironicamente, o que mais queria admitir.

Em dois meses eu coloquei meus únicos princípios no jogo e nessa noite, admito que eles não são fortes o bastante para continuar sendo colocados à prova, mas em exatos dois minutos todas as paredes em volta de Loss encontraram-se com o chão a deixando extremamente vulnerável e me tornando finalmente o campeão.

🏉🏈🏉


PRIMEIRO TEMPO