O assassino de Helena

O assassino de Helena

O assassino de Helena

Ela adorava olhar para as estrelas. Infelizmente, contemplar aquelas pequenas luzes no céu escuro não era a mesma coisa sem ela. Mesmo fazendo trinta anos, me lembro como se fosse hoje o dia em que ela se foi, ou melhor, o dia em que tiraram ela de mim. E quem a tirou de mim? Nem mesmo os melhores policiais e detetives desse país sabem. Anos de investigação, e nada foi descoberto acerca daquele assassino desgraçado, nenhum rastro ficou, absolutamente nada.

            Eu sei que eu deveria ter protegido ela, mas como eu saberia que ela seria morta chegando do hospital, logo após visitar sua mãe doente? Aquela noite chuvosa foi a pior da minha vida. Vê-la no chão, suja de sangue, morta por uma arma desconhecida, abandonada, sem sua capa de chuva vermelha, que depois foi encontrada em um rio distante dali. Quem dera eu soubesse, quem dera eu pudesse voltar e rever aqueles cabelos castanhos encaracolados, aqueles olhos negros que de alguma forma me davam luz. Era tão lindo me ver refletir neles. Eu queria ter estado lá antes de tudo acontecer, queria ter impedido aquele filho da mãe de matar minha querida Helena. E esta noite eu poderei, eu irei encontrá-lo, e tudo irá mudar, eu terei minha Helena de volta. Mas, para isso, primeiro eu preciso levantar dessa grama molhada e esquecer por um momento as estrelas.

            Durante esses trinta anos, ninguém conseguiu descobrir quem a matou, nenhuma investigação funcionou. Graças ao avanço da ciência eu conseguirei encontrar esse desgraçado. Não fiz dois doutorados à toa. Em pensar que na época eu planejava largar a faculdade de ciências para ter filhos com ela. Mesmo que ela não gostasse da ideia de ter filhos com um ano de casamento, eu adorava pensar em crianças correndo pela casa, e ainda adoro, pois ainda é possível que aconteça. Eu não sei como minha memória funcionará após a viagem, mas sei que pelo menos uma versão de mim terá Helena de volta e poderá acariciar novamente sua pele negra. A viagem irá mudar tudo, e eu não me importo em haver um paradoxo na realidade como conhecemos, afinal, tudo que eu tinha está perdido e agora a única solução de poder rever minha esposa está em voltar no tempo e matar quem a matou antes que ela morra.

            Esse porão na casa foi uma ótima ideia, no início eu sempre tive medo de que houvesse assombrações por aqui, mas hoje agradeço por Helena ter escolhido justamente a única casa com porão dessa rua. E agora o lugar onde há trinta anos eu tinha medo de entrar, abriga essa enorme máquina. As luzes dela iluminam todo o ambiente, não sei ao certo porque ainda ligo as luzes do porão. As hastes de ferro brilham com as luzes vermelhas, e os vidros têm um reflexo muito bonito, em um tom amarelado. Helena adoraria essa máquina, ela ficaria admirada com os fios cinza na lateral esquerda, e com essas telas touchscreen que controlam tudo, afinal, ela amava ficção cientifica. Quem diria que apenas em trinta anos eu conseguiria criar uma máquina do tempo. Realmente, o amor pode superar todas as barreiras, me sinto como um Ulisses voltando para Ítaca, para encontrar sua Penélope.

            Agora faltam apenas alguns ajustes. Na teoria, isso deve criar um buraco de minhoca que abrirá uma fenda no espaço tempo, e assim, atravessando-a, eu conseguirei retornar para alguns instantes antes que Helena seja morta. Já calculei a quantidade de milésimos de segundos que há entre o agora e o momento onde irei parar. Todos os cálculos estão perfeitos segundo todas as formas de contagem no tempo que conhecemos. Não há como dar errado. Por via das dúvidas levarei um relógio no pulso.

            Eu deveria ter colocado uma poltrona confortável para a viagem, mas já está muito bom esse interior forrado com espuma sintética. Está na hora. De dentro, com um tablet, eu consigo acessar o sistema. Todos os fios estão conectados ao meu corpo corretamente. Agora é só inserir os cálculos e definir a latitude e longitude. Perfeito. Espero que Helena não me veja com essa roupa estranha. Queria ter feito um curso de moda para que a roupa adequada para a viagem no tempo não fosse esse saco de batatas preto, que parece uma mistura de astronauta com mendigo. A arma que estou levando será perfeita, ela foi inventada apenas cinco anos atrás, assim ninguém nunca saberá que eu matei alguém no passado, ela não deixa vestígio nenhum.

            Hora da partida. Os ferros tremem, e sinto um choque suave na ponta dos pés. As luzes piscam e piscam e parece que tudo está escurecendo. A espuma está queimando lentamente. Sinto meu corpo dormente. Meu Deus, estou com muito medo. Está escuro. Eu consigo me ver, consigo me ver como um reflexo na própria realidade. Mas está tudo embaçado. É como se toda a realidade tivesse explodido.

            Não lembro muito bem o que aconteceu. Estou agora na grama molhada e está começando a chover. Será que deu certo? Eu estou tentando lembrar de Helena, mas o rosto dela, os detalhes, tudo parece algo muito vago na minha mente. Preciso cumprir meu objetivo, matar o desgraçado que assassinou minha esposa. Preciso chegar em casa. Mas eu acho que estou em casa, e parece ser a mesma noite. Eu consegui. A chuva está ficando mais forte. Foi debaixo dessa chuva que ela morreu. Na frente do quintal de casa. Preciso esperar até que ele apareça. Meu Deus, eu consegui, eu viajei no tempo.

            Está frio, minhas mãos quase não conseguem segurar essa arma, mesmo que ela seja leve, apesar de ser feita de cerâmica e amálgama com quartzo. Quem teria a ideia de fazer uma arma com esses materiais? Preciso focar na minha missão. Talvez eu precise lutar, por que não pensei nisso antes? Deveria ter me atentado ao fato de que sou um senhor de 53 anos prestes a enfrentar um inimigo desconhecido. Mas será fácil, primeiro eu atiro, nas costas, e depois que ele estiver morto eu descobrirei quem ele é. Meu Deus, eu viajei no tempo. Eu estou prestes a ter a minha Helena de volta.

            Alguém está vindo. A rua está deserta, apesar de ser tarde ainda haveria pessoas na rua se não fosse pela chuva. Mas a única pessoa que poderia estar agora nessa rua é ele, o assassino da minha, como é o nome? O nome dela? Helena, isso, Helena, minha Helena. Lá vem ele, parece apressado, coberto com uma capa de chuva. Desgraçado, eu espero que queime no inferno. Ele está se aproximando do quintal da minha casa, pelo visto ele vai esperar ela chegar para tirá-la de mim. Não, ele não vai conseguir. É hora de agir.

            Eu aperto a arma futurista com minhas mãos trêmulas de frio. Eu aponto. Ele está na mira. É agora.

            Só resta o silêncio. E lentamente vejo aquele corpo caindo junto com as gotas de chuva. Em alguns segundos se ajoelha, e logo depois está totalmente no chão. Mesmo com a chuva consigo ver o sangue. Essa arma realmente é silenciosa, o único defeito é o brilho esverdeado do laser. Mas isso não importa agora. Nada importa agora. Aquele desgraçado está morto. E tudo parece melhor. Eu vou encontrá-la de novo.

            Mesmo com a dor de cabeça repentina que me deu, e com o corpo frio e trêmulo, eu consigo ir me aproximando. O corpo está caído, consigo ver um buraco nas costas do infeliz, transpassando suas roupas. Ele está morto, tão morto que não reagiu ao chute que dei na costela dele. Está na hora de ver seu rosto. Descobrir finalmente quem matou, ou quem mataria, Helena. Eu me abaixo e minha coluna dói, parece que a viagem piorou os efeitos da velhice no meu corpo. Com minhas mãos eu viro o corpo molhado dele, tentando não sujar minhas mãos de sangue.

            Não. Não pode ser. Isso não pode ter acontecido. Eu não consigo entender. Tudo deveria ter saído conforme os planos. Eu voltarei de novo. Eu matarei ele. Eu não posso ter errado. Melhor eu correr antes que alguém chegue. Mas antes, eu vou levar essa capa de chuva.

            Eu corri, corri como nunca havia corrido, e não importava quão velho meu corpo estivesse, eu não parei de correr. E em um momento eu não sabia mais o que era chuva e o que eram lágrimas. Eu fui para o bosque, eu corri até amanhecer, desapareci em meio às arvores, até chegar a  um rio. Parece que se passaram apenas alguns segundos, mas eu já podia ver o sol. Posso ouvir as sirenes da polícia mesmo distante. E ali na frente há um rio, é para lá que irei.

            Eu sinto meu corpo morrer. A arma que estava em minha mão agora há pouco sumiu, eu não lembro de ter deixado ela cair. Eu parei na frente do rio, parece que a única coisa real naquele momento era aquela capa de chuva. O vermelho dela parecia a coisa mais viva nisso tudo. Eu me sentia desaparecendo. Me ajoelhei diante do rio, e ali consegui ver o reflexo na água. Era isso, era o fim. De qualquer forma eu havia descoberto quem a matou. E ele estava pagando por isso. E como estava pagando. Não havia dor maior naquele momento. E na água eu via desaparecer, de uma forma surreal, o reflexo do assassino de Helena.