Pele e osso

Pele e osso

Pele e osso

Antes de o sol se erguer, antes de a lua repousar, o sertanejo põe-se de pé, porém esquálido. A roça está ali. Para garantir o sustento da família, uma enferrujada enxada, trabalho, suor, sangue. São os calos do ofício, que brotam em sua pele e osso. 

As sementes são jogadas. A plantação precisa vingar, mesmo quando a seca insiste em permanecer, mesmo quando a chuva insiste em não voltar. A natureza é dádiva, mas, às vezes, torna-se cruel, travestindo-se como uma inimiga implacável.

Já com o sol como testemunha, o nordestino deve continuar. O esforço, invariavelmente, significa o nada, que, no caso desse sertanejo, este pronome indefinido é sinônimo de fome. O filho está faminto. Com olhos marejados. A miserabilidade extrema está sedenta por matá-lo.

O gado agoniza. Pele e osso. Com os riachos vazios e pastagem desprovida, o bovino seca. Tal qual a mãe, ao lado do seu fogão de lenha com panela vazia.

O fiapo de homem escuta o sino da igreja, que funciona como um alarme de relógio para avisar o horário da missa. O sertanejo, a esposa e o filho aguardarão avidamente para comungar. Sabem que a hóstia será o único alimento que sorverão no dia.

Depois da refeição abençoada, seus joelhos tocarão o solo divino para pedir a água benta. Para pedir que as nuvens se sensibilizem e chorem para irrigar a terra rachada, arrasada, pois amanhã o sertanejo estará de pé, antes de o sol se erguer, antes de a lua repousar.