O diretor

O Diretor

O diretor

Trilogia Mãe Nossa

Mãe Nossa que estás em tudo e em todo o lado, preservado seja o teu nome e o teu corpo por todos nós, venha a nós a tua generosidade e sabedoria, seja feita a tua vontade sobre a nossa, assim na Terra como no Universo, e que o pão e a água nunca nos faltem, por nossa culpa. Perdoa o nosso desrespeito, incúria e ganância, assim como nós nos perdoamos por te termos ofendido, e não nos deixes cair na extinção e livra-nos do fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dedico este livro à Maria de Lourdes Pintasilgo, bem como a todas as mulheres e homens que lutam por causas, para tornar este mundo um lugar melhor para todas e todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Assentará antes no Sorge, no cuidado, que nos põe no centro de tudo o que nos acontece e que nos faz responsáveis pelo outro, o outro que pode ser um ser humano ou um grupo social, um objeto, um património, a natureza, o outro que pode ser o nosso contemporâneo, mas que será cada vez mais um outro, futuro, cuja possibilidade de existência temos que garantir no presente. […] Uma tal ética é difícil de instituir, não só porque é contra-hegemónica, mas também porque se centra no futuro. […] A responsabilidade fundamental está em criar a possibilidade de haver responsabilidade» (JONAS, 1984, p. 186).

“Para um novo paradigma: um mundo assente no cuidado.” Antologia de textos de Maria de Lourdes Pintasilgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O DIRETOR

            O diretor olhava o mar do alto da sua estatura e da soberba dos seus músculos trabalhados no ginásio, sentia-se um colosso capaz de enfrentar aquela força. Enquanto buscava uma vela no horizonte, pensava no poder que o inchava e tornava invencível, senhor de todos os seres e todas as coisas, nunca se sentira assim, mas ser diretor era isso mesmo. Poder discricionário, prepotente, absoluto, não o poder que o obrigava a produzir a verdade, ou a justiça, a não ser que fossem as suas. Defronte encontrava-se o único rival à sua dimensão, mas até esse um dia o diretor domaria. O mar estava calmo, desafiando aqueles que o temem e enganando os audazes na sua ânsia de o conquistarem e fazerem-no seu.
            Bateram à porta e ele voltou à sua cadeira de executivo e à sua secretária pejada dos papéis que determinavam a vida dos seus dirigidos, maciça, imponente, inspirando a distância das hierarquias. Pois é, essas questões de candidaturas teriam de ser muito ponderadas, estudadas e acauteladas, ele iria ouvir a sua equipa e depois tomaria a decisão, a decisão final seria sempre dele, depois lhe comunicaria. Era esta a resposta à proposta de uma colaboradora que conseguira resistir às suas arremetidas de galã e não caíra na sedução abjeta, também não seria recompensada, nem promovida. De facto, ele não entendia nada do assunto e precisava da equipa para o informar e depois deliberar do cimo da sua autoridade indiscutível.
            Todos os dias era um corrupio de entradas e saídas femininas do gabinete do diretor. Entre a corte, o assédio e a consumação, criara-se uma rede ao serviço da satisfação do seu prazer plenipotenciário. Ele enfatizava sempre nos seus longos e vazados discursos a importância da colaboração, no entanto, raramente a aceitava, preferindo ditar e ordenar, camuflando essa atitude com a verborreia neoliberal que inventara outro termo para a escravatura do século XXI.
            Nos corredores, na cantina, em todos os espaços partilhados, ouvia-se em surdina críticas ao comportamento do diretor, mas ninguém ousava denunciá-lo ou contradizê-lo, nem os que já lá trabalhavam há muitos anos e haviam conhecido outros, este era sem dúvida o mais incompetente, o mais ignorante e o mais arrogante que por ali passara.
            Reinava o medo, o desânimo, a desesperança naqueles tempos de crise que assolavam o país e, os mais afoitos, sentiam as mordaças e as ameaças esgotar-lhes as forças e secar-lhes a alma. Mesmo assim, iam reagindo às injustiças e às perseguições do diretor dizendo-lhe aquilo que ele não admitia ouvir e incorrendo na sua ira.
            Na aleatória moda dos rankings, a instituição ia descendo tantos degraus quantos o diretor ia subindo na sua prepotência e presunção. Por isso a tutela indicou o nome de um novo colaborador que chegaria naquele dia. Os comentários que corriam é que fora expulso de várias instituições, desconheciam-se as razões, todavia a sua competência e superioridade científica precediam-no.
            Henrique apresentou-se ao despeitado diretor, ferido na sua autoridade por não ter sido ouvido na escolha da figura que lhe apareceu: hirsuta, desalinhada, desengonçada e, diria até, animalesca! O aperto de mão quase lhe esmagou os ossos, magoando-o mais nos seus bíceps invencíveis, ganhos à custa de muito suor derramado sobre as máquinas de musculação e de muitas horas sob o chicote impiedoso do treinador pessoal.
- Então Henrique, ou devo dizer Dr. Henrique, o seu currículo é realmente impressionante, várias doutoramentos, em diversas áreas, mas também é impressionante o número de instituições por onde passou, já correu praticamente o país todo, ou será que pensa fixar-se aqui?
- Henrique está muito bem, é verdade, o tempo que eu permaneço num determinado lugar tem a ver com o tempo que necessito para concluir a tarefa de que fui incumbido. Chamam-me para aferir os problemas que afetam o desempenho de uma instituição e desenhar uma estratégia para os superar, depois da missão concluída não há razões para me manter no mesmo lugar, até porque estou sempre a ser solicitado, para o bem ou para o mal.
- O Henrique vai passar o tempo todo a fazer só esse trabalho pois tendo em conta o seu currículo, gostaria de lhe pedir a sua colaboração noutras áreas, nomeadamente de promoção dos nossos projetos para o exterior.
- Com efeito terei de recusar, a função que aqui tenho de cumprir está superiormente definida e não irá restar tempo para me dedicar a mais nada.
- Muito bem, estamos conversados, já deve estar alojado, se precisar de alguma coisa é só dizer.
- Sim, vou procurar uma casa na aldeia dos pescadores, fica aqui perto e como ando a pé, está ótimo. Só queria dizer que vou começar por conversar bastante com todas as pessoas, esse será o primeiro passo a dar para tentar entender onde reside a fonte dos problemas.
- O quê, vai questionar os meus colaboradores, mas é inaceitável, o que é que isso tem a ver com os possíveis problemas que possam existir?
- Eu entendo que devo começar por falar com eles para ouvir as suas opiniões, ideias, mas quaisquer objeções que tenha em relação aos meus procedimentos deverá colocá-las a quem de direito. Muito bom dia.
            Ao sair Henrique deixou um rasto de raiva intensa expressa no rosto do diretor. Mas quem é que aquele, aquele, aquele pretensioso pensava que era para entrar nos seus domínios e começar a indagar o que muito bem lhe apetecia junto do seu pessoal. Ainda pegou no telefone para falar com a tutela, lá na capital, sobranceira a tudo e a todos, e porque não estaria ele num cargo desses? Mal esse pensamento cruzou a sua ambição, pousou o auscultador, a cobardia e a submissão seriam a sua melhor estratégia para conseguir a tal posição, sem ninguém acima, a não ser o ministro claro, e porque não chegar mesmo a ministro?
            O diretor encontrava-se nestes voos pelas alturas do poder quando alguém bateu à porta. Entrou um homem de semblante triste, um pouco corcovado, explicando que o seu filho estava bastante doente e precisava de ficar uns dias em casa para cuidar dele, não tinha ninguém a quem recorrer.
- Pois é, os filhos estão sempre a trazer problemas aos pais, claro que tem o direito de ficar em casa para prestar assistência ao seu filho, mas depois temos a questão da avaliação, que está sempre relacionada com o número de faltas dadas e, realmente, estamos num período do ano difícil. Eu não lhe posso negar isso, só estou a alertá-lo para as consequências, agora a decisão é sua. Bom dia.
            No dia seguinte o colaborador não foi trabalhar levando os que sabiam da sua situação a concluir que se achava em casa a tratar do filho. No entanto, quando o telefone do gabinete do diretor tocou foi para comunicar a sua morte, durante a noite tinha sofrido um ataque cardíaco fulminante, o funeral seria daí a dois dias.
            Depois de terminar a ligação o diretor pediu à secretária para divulgar a notícia e providenciar um ramo de flores para ele levar em nome da instituição. Mais um discurso para preparar e aquele faria chorar as pedras da calçada. Mandou ainda chamar Henrique, precisava de saber o andamento das suas inquirições.
            Estavam todos presentes no funeral para prestar a última homenagem ao colega. Entre o negro, as flores, as lágrimas e os suspiros, chispavam os olhares acusatórios de muitos visando o diretor que parecia imune a todos eles, na sua gravidade circunstancial e serena. Nunca pela sua mente parasitária havia passado a mais leve dúvida em relação ao que poderia ter levado àquele desenlace e, muito menos, o mais ténue sentimento de responsabilidade, de culpa então...
            Chegara a hora do elogio fúnebre do diretor que, tal como previra, fez chorar todos os presentes, não pelo significado das palavras, mas pela hipocrisia, insensibilidade e demagogia do seu autor. Nenhuma era verdadeiramente sentida, genuína, nem uma expressava qualquer dor ou perda, ou saudade.
            O seu papel estava cumprido, depôs a palma e afastou-se do grupo, preocupava-o o que Henrique andava a fazer, ainda naquele dia o chamaria novamente para saber sobre a evolução do seu trabalho.
Quando Henrique entrou, qualquer um perceberia o seu semblante impaciente e incomodado, por isso quando o diretor lhe dirigiu a questão de sempre ele respondeu:
- Em dez anos de serviço não fui chamado tantas vezes ao gabinete dos diretores como durante este mês que passou. Por isso aquilo que lhe posso responder é que quando o meu relatório estiver concluído será a primeira pessoa a ter conhecimento dele, até lá, agradeço que não me convoque mais e que me deixe fazer o meu trabalho, sem interferências ou interrupções. Boa tarde.
            O rasto de raiva e agora ódio que Henrique largava era cada vez mais visível e insuportável, o diretor deu então o seu dia por terminado, precisava de se aconselhar com alguém sobre a situação e rumou a casa para falar com a mãe.
            Iria ao vê-lo chegar percebeu que algo de errado se passava com o filho, ele nunca regressava tão cedo do serviço e passava sempre primeiro pelo ginásio. Preparou-lhe um uísque para tentar acalmar o rosto transtornado que entrou porta dentro, desabrido, e deixou-o sentar no sofá para poder articular as palavras que lhe iriam revelar a razão de tanto alvoroço.
-Vê lá mãe que a tutela nomeou um sujeito para ir investigar o que se passa na minha instituição, então não me podiam ter falado diretamente e perguntado a mim? Isto não é uma humilhação, um ultraje e nem os meus amigos do partido me conseguem livrar disto. Ainda por cima é um doutor daqueles insubornáveis, muito íntegro e imparcial, daqueles para quem os valores, os princípios, a ética, estão acima de tudo, como se isso fosse possível nesta sociedade. Este então tem-se numa conta, que nem me quer prestar contas, ou seja, não consigo saber nada, ah, mas eu vou fazer as coisas doutra forma, amanhã vou colocar em ação a minha rede de informantes lá dentro, o senhor da samarra vai ver! Havias de ver o casaco que ele usa, parece um pastor, que patético! Bem, pelo menos eu vou ser o primeiro a ver o relatório, espero que cumpra a palavra, mas disso tenho a certeza, ainda é dos que acham que a honra, a palavra e o nome são os bens maiores de uma pessoa, idiota!
Filho, ouve-me, tens a certeza que a tutela nunca falou contido, nunca te questionou sobre a descida nos rankings, o mais certo é tu teres dado uma das tuas respostas evasivas, está tudo bem, nada que eu não consiga resolver, não foi? Então eles decidiram ir por outra via, tenta compreender, já tens a garantia que serás o primeiro a ver o relatório e sabes que ele é um homem de palavra, nessa altura logo lhe dirás o que pensas. Agora o melhor é esperares com calma e dignidade, sem o pressionares e, sobretudo, sem te intrometeres, deixa-o fazer o seu trabalho.
Depois daquela conversa sentiu-se mais confiante e até com vontade de ir ao ginásio, jantaria fora com os amigos para desanuviar.
            Nos dias que se seguiram o rodopio de entradas e saídas do gabinete do diretor redobrou, sabujos, lambe-botas, bufos, espiões, informadores, delatores, traidores, todos ali iam parar, esforçando-se cada um por fornecer a informação mais detalhada e importante na mira de, pelo menos, não perder o emprego e na melhor das hipóteses ser promovido, em detrimento do colega mais competente, mais honesto e mais merecedor.
            Nestas questões laborais o mérito é relativo, o serviço que prestavam poderia ser muito meritório para o diretor naquele momento e a ele cabia decidir quem parava, recuava ou seguia em frente, por isso, o melhor seria fazerem bem a cama, para melhor nela se deitarem. Assim justificavam alguns deles a sua atitude, se porventura uma dúvida rebelde lhes beliscava suavemente a consciência.

 

Vénus de Willendorf