A mãe do menino

A mãe do menino

A mãe do menino

É uma casa de esquina. Do outro lado da rua tem um bar e, alguns metros à frente, uma praça. Ainda não abriu. Em frente à porta esperam: um jovem alto e forte, um idoso gordo, uma senhora de óculos, um casal de meia idade, uma mulher na faixa dos trinta anos que tem os cabelos bem curtos, três moças que devem estar pelos seus vinte anos, a mãe e o seu filho, um adolescente. No bar em frente, em uma das mesas alguém comenta alguma coisa com a atendente que dirige o olhar para o outro lado da rua e diz, em voz alta o suficiente para ser ouvida: “Misericórdia! Tá amarrado em nome de Jesus!”

– Difícil, né? – murmura a senhora de óculos para o jovem atlético que concorda, balançando a cabeça.

Nisso, chega outra mulher. Ela usa um vestido branco e longo. Primeiro, abraça o adolescente e, em seguida, a sua mãe.

– Foi difícil encontrar aqui?

– Foi nada.

Depois, cumprimenta com um aceno de cabeça as outras pessoas do grupo.

– O menino é seu afilhado?  – pergunta uma das moças.

– É sim. E essa é a mãe dele. Vamos entrar?

Ela abre a porta da casa, ajoelha-se, cruza três vezes o chão com os dedos e entra pelo corredor estreito. Em seguida, a senhora de óculos faz o mesmo, acompanhada pelo homem gordo. Depois, o jovem atlético e, então, as três moças e o casal. A mãe, vacilante, curva-se ligeiramente antes de atravessar o corredor, tentando imitar o ritual. Em frente à porta, o menino vira-se para o lado da rua.

– Vem, entra!

Lá dentro, um pequeno cômodo faz as vezes de antessala. Ali ficam os que aguardam atendimento. Para acomodá-los, há quatro bancos compridos enfileirados diante de uma mesa que está encostada à parede dos fundos. Sobre a mesa, uma garrafa d’água e uns copos descartáveis. Ao lado, a porta que leva ao cômodo onde ocorrem os trabalhos. Na parede atrás da mesa, um quadro do Preto Velho. Duas das três moças se assentam no primeiro banco, aquele bem em frente à mesa. O casal se assenta no banco logo atrás. Na extremidade esquerda do último banco, bem próximo à porta de saída, está a mulher de cabelos curtos. No extremo oposto desse mesmo banco, o menino e a mãe. A mulher de branco, o jovem, a senhora de óculos, o homem gordo e uma das três moças entram na sala interna e fecham a porta. Os trabalhos vão começar.

Os do lado de fora são a um só tempo plateia e pacientes. Até eles, chegam – residuais – as cantorias e batidas de atabaque. É preciso aguardar. Aos de fora não é dado assistir à transmutação que se opera na sala de trabalhos. Quando forem convocados, já não haverá a madrinha do menino, o rapaz belo e forte, o homem obeso, a moça que trouxe as amigas ou a velha senhora de óculos. Convertidos em recipientes, tornam-se hospedeiros de exus, caboclos e preto-velhos.

– Essa aí do cabelo de Joãozinho, pode entrar – sem os óculos, usando agora um chapéu preto adornado com uma tira vermelha e com um charuto entre os dedos, já não é mais a senhora que estava na porta.

À convocação do exu, a mulher se levanta e vacila por um instante em frente à porta entreaberta. Mas logo ela se decide e cruza a fronteira que separa, de um lado, o mundo dos mortais que vivem de esperar – nascimento, sucesso, amor, filho ou, naquele caso, o atendimento – é o mundo da antessala e, do outro lado, o reino dos orixás, libertos da carne e da espera. A porta se fecha e por alguns minutos pode-se ouvir um sibilar contínuo que apesar disso é perfeitamente audível para os que estão do lado de fora, talvez pela ausência absoluta de qualquer outro o ruído ou então porque parece vir de uma serpente que rasteja pelas frestas da porta, como se quisesse fazer a travessia para o mundo dos encarnados. Bobagem. É apenas o silêncio que amplifica qualquer som, por mínimo que seja. A história da serpente deve ser imaginação de algum daqueles que aguardam do lado de fora da festa dos orixás. Talvez da mãe do menino.

Depois do silvo, o grito. Em seguida uma confusão de berros, gargalhadas e insultos. No meio do barulho, já não se podem distinguir os vivos dos mortos. Até que a voz do exu se impõe: “dá sete passos pra trás e vai embora”. A porta se abre e a mulher deixa a sala, de costas para os que esperam atendimento. Ela se serve da água que está sobre a mesa e vai se sentar próximo à porta da saída. Do lado de dentro, os trabalhos continuam e quem está na antessala acompanha os sons que chegam ali: o toque do atabaque, a cantoria dos pontos, os risos.

Eis que a porta se abre de supetão:

            – Esse menino aí, faz favor de entrar.

             Ele se levanta resoluto e avança, sem olhar para trás, sem reparar na feição apreensiva da mãe que chega a se mover, como se quisesse para acompanhar o filho. Mas a porta é batida tão decididamente que ela se joga na cadeira resignada, sem conseguir, contudo, disfarçar a contrariedade de terem-lhe levado o menino.

            De novo o silêncio, o silvo, o grito. Não aquele de antes, que precede gargalhadas e discussões. Um grito rouco e no entanto cheio de vigor. Como se tivesse atravessado infernos e umbrais, como se fora cortado por labaredas e espadas e se tornou por isso, vitorioso, apesar do som débil e fragmentado que agora se alastra pelo ambiente. É esse o grito que atravessa a porta de madeira e chega até a antessala onde os pacientes – ou seria a plateia? – estáticos e de olhos esbugalhados, aguardam o próximo acontecimento.

             – Ele é meu! – é tudo o que consegue se ouvir em meio aos grunhidos roucos emitidos pela voz cavernosa.

            Do lado de fora, os que esperam pelo atendimento franzem a testa e aguçam os ouvidos. Inútil. “Ele é meu” é a única coisa compreensível que sai das entranhas daquela criatura. Ele é meu: não uma ameaça, mas uma súplica. A mulher de cabelos curtos levanta-se e vai embora. As duas moças sentadas no primeiro banco se abraçam e uma delas parece chorar. O casal permanece impassível. A porta se abre e de lá de dentro, a ordem:

            – Manda entrar a mãe do menino.

 

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            Entro. O mundo dos que esperam ficou do outro lado da porta. Aqui não há porvir. Gente viva, gente morta, orixás e outras entidades comungam – não harmonicamente – daquele espaço sem fronteiras precisas, sem delimitação de tempo ou qualquer ordem preestabelecida. A fumaça que mistura os cheiros de incenso, charuto e cigarro SanMarino já acena que ali reina a indiferenciação das coisas. Eu sou a mãe e o menino. Sou a comadre da mãe empreendida agora em salvar alma do afilhado. E também a sobrinha órfã, a irmã morta no acidente, o bebê indesejado e o pai do bebê que raspou até o último centavo da minha conta corrente e sumiu, depois de ter prometido amor eterno. O dono da boca com quem negociei para que ele zerasse a dívida do menino: eu sou. Tudo – o cruel e o generoso, o valente e o covarde, a vítima e o carrasco – estão cá dentro. E lá fora também, o que é só uma forma de dizer mais uma vez que não existe fronteira.

            – Ele é meu – agora vejo o rosto desfigurado, o corpo se arrastando pelo chão, as mãos que buscam agarrar os pés do menino.

“Ele é meu”, e não sei se o que sinto é raiva ou compaixão.

– Apruma esse corpo e fica de pé! Tem ninguém seu aqui não! – o exu também sou eu?

“Ele é meu”, a voz cada vez mais rouca e a alma penada, já desfalecida, começa a abandonar a hospedeira. “Ele é meu”, a derradeira súplica e a médium que emprestou o corpo ao ritual, recomposta, põe-se de pé e assume seu posto ao lado do altar adornado com imagens de Oxalá, Jesus, Xangô, Iemanjá e Nossa Senhora Aparecida. Diante de mim, o menino é pouco mais que um espectro, os olhos esbugalhados, o corpo ereto como uma estátua congelada. Sem tirar o charuto da boca, o exu caminha em sua direção até ficarem frente a frente.

– E você, largou os estudos por quê?

 – Não sei.

            – Você vai voltar, vai parar de dar trabalho pra sua mãe e tirar as coisas de dentro de casa.

            Dá as costas com desprezo e agora vem em minha direção.

            – Você é mãe desse menino aí?

            – Sou.

            – E até quando vai ficar carregando ele nas costas?

            Ergo a cabeça. Não vou ter medo, não vou me intimidar. “Ele é meu”, eu diria se a voz não me falhasse naquele instante.

            Antes que responda, ela me dá as costas.

            – Dá sete passos pra trás e volta pro lugar onde estava.

            A moça – aquela que trouxe duas amigas e parece ser uma espécie de assistente – vai me conduzindo, de costas, até a porta de saída. “Espere aí do lado de fora, é capaz de te chamarem de novo”.

            – O menino fica – exu avisa. 

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            Se o que contasse fosse a percepção que tenho do tempo, diria que estou há uma vida inteira nesta sala esperando. O quê? Não sei. A mocinha disse que devem me chamar de novo. A essa altura pouco importa. Podiam era liberar meu menino e a gente deixar este lugar. Foi bom, mas agora chega. Estou sozinha. A mulher de cabelos curtos foi embora e eu nem vi. Quando o casal foi chamado para a sala dos trabalhos, o homem tirou uma garrafa de cidra de uma sacola de supermercado e, antes de entrarem, entregou-a a sua esposa. Não ficaram muito tempo. Um vozerio, gargalhadas, a cantoria que se não me engano dizia “deixa a pomba gira trabalhar”. Quando saíram, de costas para a porta, a mocinha – sorriso pálido e sem graça – disse-lhes: “vocês estão liberados”. Pouco depois, as duas jovens, amigas da assistente, foram embora sem receber atendimento.  “Cansei”, uma delas murmurou.

            Já estou cansada há muito tempo. As coisas vão melhorar. Não melhoraram. Deus vai te dar a vitória. A ligação da polícia rodoviária federal às onze horas da noite – “a senhora é parente de Ana Lucia Moraes?”, “sim, é minha irmã”. Então, reconhecer o corpo despedaçado preso às ferragens, providenciar o enterro, comprar uma cama nova para a menina, formalizar o pedido de tutela. Tá vendo como nada acontece por acaso? Você sempre quis ter uma filha! Que preço alto, meu senhor! Este homem entrou na sua vida com um propósito. Jantar, buquê de flores, um bebê prematuro e a conta bancária zerada. Saldo total: dois mil reais negativos e a provisão de pão e afeto para três crianças. Depois de duas horas trancada na sala com a coordenadora RH, o laboratório aceita adiantar as férias e metade do décimo terceiro. Viu só como Deus tudo provê? Saldo atualizado: mil e duzentos reais negativos. Fora a provisão de pão, afeto, frauda e leite em pó para o bebê e o chá de camomila todas as noites para a menina não despertar em sobressaltos na madrugada gritando pela mãe. A minha irmã, meu Deus, para sempre presa entre as ferragens do carro. O menino já cresceu, ele toma conta de si. Aliás, por onde ele anda a essa hora que ainda não chegou?

 – Só duzentos tá pouco, dona.

 – Ele diz que deve setenta.

– Setenta era semana passada. Agora tem multa.

– Mas duzentos não tá bom?

– E o cliente que a senhora tá me fazendo perder? Eu sei como é. Playboy, filhinho de mamãe, esse não volta mais. Vou ficar no prejuízo.

– Quanto, então?

– Vamos lá em cima comigo.

Saldo total: mil e quatrocentos reais negativos, ou melhor, mil quatrocentos e cinquenta, contando os gastos com antibiótico para tratar a infecção urinária que peguei lá em cima, com o dono da boca. Além da provisão de pão, etc., etc., etc. Ao menos deixaram meu filho em paz.

            – Fala com a mãe do menino que ela já pode entrar. – uma voz gasta pelo tempo, paciente e bondosa. Definitivamente o exu já foi embora.

 

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            Estranho. Por que ela está sim? Será que é a fumaça dessa parada aqui tá me deixando louco? Que viagem. Minha mãe não está parecendo gente. Tá feito um fantasma. Uma alma penada. E ela tinha que ser atendida logo por esse saradão? Daqui a pouco vai se apaixonar de novo. Se bem que aqui ele parece ser outra pessoa. Sentado no banquinho, fica dando baforada no charuto e falando como uma voz estranha. Porra, virou um velho duma hora pra outra.

            –Ô menina, que tristeza é essa? Seu coração… Tudo escuro, escuro. Difícil, né, fia? Muito trabalho, muita amolação.

            Tomara que ela não chore. Não queria ter dado essa amolação toda. Foi o que encontrei. Naquela casa, era como se eu não contasse mais. Como se tivesse morrido e meu fantasma ficasse ali, tentando conversar com os vivos – minha mãe, Aninha, o bebê e mesmo o pilantra do César – sem conseguir ser ouvido. Caíque era meu único amigo. Ele que me levou pros rolê. A mãe fala que é má companhia. Esse exu também falou. Mas Caíque sempre foi parceiro. Nunca me deixou de fora. Pista de skate, baile funk, pegar as meninas e depois ia pra boca comprar um prensado. Ás vezes, um peixe. Não foi certo, eu sei. Mas ao menos ali eu existia. Caralho, como a mãe tá acabada!

            – Cansada, né, menina? Muita coisa… Senta aí um pouco.

            Eu tô bolado com isso, o bombadão agora é um velho. E esse velho é gente boa, fala umas coisas bonitas que acalmam o coração da minha mãe. Eu queria ser assim, tranquilo, bom das ideias, mas só mando bola fora. Não quero isso mais não, mãe.

            – Seu coração precisa ficar mais alegre, fia.

            – Como? O quê que eu faço?

            – Você já tá fazendo sua parte.

            Eu é que não tô fazendo a minha.

            – Tem uma Nossa Senhora Aparecida na cozinha da sua casa, né?

            – Era da minha avó.

            – Coloca ela na sala, menina. Nossa mãezinha tem ficar bem guardada que é pra ela guardar bem a gente. Cuida dela que ela vai cuidar docê, da casa, dos minino tudo. Deixa ela na sala, tá?

            Caralho, fui eu que mandei a mãe esconder a santa. “Que troço mais feio, mãe. Dá um sumiço nela”.

            –Tá querendo chorar, né? Pode chorar. Oia a sua mãezinha ali no altar. Ela não esqueceu docê não, ó lá, tá vendo?

            Ah mãe, não chora! Prometo que vou ficar direito, parar de andar com o Caíque, parar de usar essas coisas que você não gosta.

            –Pode chorar, oia lá, ela tá cuidando docê. Docês tudo. Ela cuida das mãe, dos fio, não deixa ninguém pra trás. Canta comigo, menina. Canta pra ela. Mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei repetir, quero te amar, azul e teu manto, manto é teu véu, eu quero ser tua, mãezinha lá do céu.

            A santa lá em cima cuida de todo mundo? Mãe, filho, o escambau? Coitada dessa dona! Minha mãe se acabou por ter que dar conta de três.

            –Mãezinha do céu, mãe do puro amor, Jesus é seu filho, eu também sou…

            Filho demais pra uma mulher só. Eu não queria ser assim, não queria dar tanto trabalho. Tô com pena da minha mãe, ela não para de chorar. Tô com pena dessa estátua de gesso que nem chorar consegue mais. Há mais de dois mil anos – não é dois mil anos a idade de Jesus? – sem pregar o olho, cuidando de condenado, prisioneiro, perseguido e malandro. E também cuidando da mãe de todos eles. Caralho, ela deve estar cansada. Acabada igual minha mãe. Será que quando era moça essa santa era bonita? A minha mãe antes de me ter era linda.


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            Os dois precisam de descanso. Uma noite inteira de sono, sem levar dura de polícia, sem sobressaltos, música alta, ameaças ou telefonemas no meio da madrugada. Uma noite em que possam se deitar abraçados e, como quando o menino vivia dentro dela, os tornarem um corpo só e assim ficarem até o amanhecer, ele, envolto nos braços da mãe, ela, coberta pela luz do manto azul. O meu manto azul, já gasto e roto, cristalizado no gesso que me cobriu desde as entranhas até a superfície.

            Se eu pudesse descer daqui faria tudo de novo como daquela vez. Prepararia a manjedoura afofando o feno para aconchegar os corpos – tão pequeninos mãe e filho – naquele berço improvisado. Os três sábios do Oriente ao virem os dois num sono tão profundo, depositariam seus presentes com delicadeza e sairiam em silêncio. No céu, o brilho das estrelas seria apagado e em toda a Terra só haveria quietude e escuridão.

            No entanto, não posso. As mãos rijas desaprenderam a preparar o berço na manjedoura, os braços, colados ao corpo duro e inerte, não podem acolher quem quer que seja. O leito do peito empedrou. Em outras palavras: virei estátua num altar.

            Ô, meu Preto Velho, cuida desses meninos pra mim!