Fragezeichen (Interrogação)

Lehrerin - De alguma forma, em algum lugar, em algum momento

Fragezeichen (Interrogação)

Fazia muito calor naquele dia, mesmo já perto de abril era quase como se ainda fosse janeiro. O verão parecia relutar em sair de cena no noroeste gaúcho. Nicole desceu do ônibus, que foi adiante largando poeira de terra vermelha nos olhos de quem estivesse por perto. A poeira demorou um pouco a baixar, mas quando desapareceu ela pôde avistar dona Ingrid que a esperava sorridente. Abraçaram-se como se fossem velhas amigas. A senhora baixinha de cabelos já grisalhos, perto dos 50 anos, as rugas começando a tomar o entorno dos olhos verdes delatavam a chegada da idade. Ela cumprimentou a jovem professora um tanto desconcertada com sua beleza. A jovem loira, cabelos volumosos, mas lisos, os olhos de um azul ofuscante, corpo esbelto, magra, mas com as curvas bem delineadas. A diretora a levou até uma pequena casa de madeira construída no estilo germânico que predominava no local. Seria seu lar dali em diante.

A localidade de Vogel não tinha hotéis e muito menos prédios de apartamentos naquele final da década de 80. Era apenas uma comunidade rural pertencente a um município maior, Santo Ângelo, e ficava um tanto distante do centro da cidade, 18 quilômetros. Nicole teve de ir de ônibus da rodoviária até lá, no caminho observou a paisagem rural entre cidade e colônia enquanto refletia sobre o que a esperava. Ao chegar, surpreendeu-se positivamente ao perceber que a comunidade na qual moraria dali em diante não tinha apenas fazendas ou sítios como havia imaginado antes de embarcar. O local era até bem organizado, tinha uma espécie de centrinho com um supermercado, algumas lojinhas de quinquilharias, uma pracinha com uma pequena igreja luterana e algumas dezenas de casas concentradas em sua volta. De vez em quando alguma colona correndo atrás de uma galinha fujona para lembrar-lhes de que estavam na zona rural.

A casa que ia ocupar era grande para uma mulher sozinha: três quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um enorme pátio com pomares e gatos atrevidos da vizinhança pulando a cerca. Mas era o possível. Um lugar como Vogel não estava acostumado a receber visitas e muito menos de visitantes ou moradores solitários naqueles idos de 1989. Dona Ingrid deixou a professora sozinha para que descansasse o restante do dia, no dia seguinte deveria apresentar-se ao trabalho. Havia muito a fazer, ela teria simplesmente todas as turmas da escola de Ensino Científico para atender. Sua disciplina, a Língua Alemã, era dada duas vezes por semana a cada uma das turmas. Assim, teria a grade cheia de trabalho de segunda a sexta.

Nicole deu um suspiro profundo, misto de cansaço e preocupação. Daria conta do recado? Tomou um banho frio para tirar o calor e a poeira do corpo, depois foi até uma venda próxima comprar algo para comer, o dono já sabia quem era ela. Em lugares assim, não existe forasteiro que possa se dar ao luxo de passar desapercebido. O velho com a pança de cerveja, bochechas vermelhas, já careca e o cabelo que ainda restava ao redor da cabela era branco, parecia estar bastante curioso em saber o que teria levado uma moça tão jovem a vir de Blumenau, em Santa Catarina, uma cidade grande para os padrões aos quais estavam acostumados por aquelas bandas, para dar aulas de Alemão em uma vila com uma população inferior a mil habitantes, contando a do “centrinho” e as das propriedades rurais lindeiras. A jovem, contudo, estava cansada demais e não parecia disposta a dar explicações ao comerciante. Disse apenas que precisava trabalhar como todo mundo no país e que não havia encontrado emprego em sua terra. Desculpou-se pela impaciência e cansaço em que estava, pegou a sacola com pão, salame e cuca e foi para casa comer e descansar.

No dia seguinte, Nicole foi bem cedo à escola estadual, já havia enviado a documentação por Correio, estava tudo certo para ser apresentada como a nova professora de Alemão. Dona Ingrid conseguiu um contrato emergencial, já que para estar no serviço público estadual a professora teria de, a princípio, prestar concurso. “Não podemos ficar sem uma Lehrerin (professora em Alemão)” justificou a diretora ao solicitar a contratação à sua superiora no órgão estadual competente. A professora anterior, uma cinquentona, havia morrido em um acidente de automóvel na virada entre os meses de fevereiro e março. Os alunos ficaram todo esse tempo até quase abril sem Lehrerin. Ingrid comentou com a jovem professora a importância de sua presença naquela comunidade. Era difícil encontrar uma professora de Língua Alemã por aqueles lados. Santo Ângelo não era uma cidade de colonização exclusivamente alemã, e sim mestiça, com portugueses, italianos, espanhóis, afros e indígenas. A herança cultural se perdia mais fácil em lugares desse tipo, explicou a diretora, por isso, ninguém mais se interessava em estudar Alemão e não existiam professores por perto para atender a uma comunidade rural tão retirada como aquela, um dos principais refúgios de imigrantes alemães na época de formação do município.

Ingrid teve a ideia de colocar anúncios em jornais de cidades maiores conhecidas por sua colonização alemã, cidades como Blumenau, com bastante gente e mais possibilidade de haver uma professora disponível. Na verdade, ela não esperava que realmente conseguiria alguém tão fácil. Por mais que o salário oferecido fosse um pouco acima da média, justamente para tentar atrair alguém, também não era nada de outro mundo. Ainda assim, a diretora linha dura preferiu falar com a nova contratada tentando despertar nela o sentimento de gratidão por estar ali, e não o contrário: “Estamos economizando em outras áreas para cobrir a diferença de teu salário”, enfatizou a diretora, deste modo, já deixava claro também que a jovem seria bastante cobrada no cargo.

A superiora explicou à novata que, mesmo em Vogel, muitas famílias não ligavam mais em manter viva a tradição de os jovens aprenderem a língua dos antepassados. A imigração já era tão antiga, algo dos idos do século XIX e começo do XX, que ficava difícil que a cada geração o interesse não diminuísse. O mesmo acontecia com a religião luterana da maioria por lá, muitos casavam-se com alguém de outra religião e acabavam se convertendo ao catolicismo ou a alguma outra crença, sobretudo as mulheres que seguiam a vontade do marido. Nicole era católica, mas explicou que não praticava a religião, sequer conseguia lembrar-se da última vez em que havia ido a uma missa. Já que não seguia nenhuma religião como praticante, Ingrid sugeriu que ela fosse ao almoço de Páscoa na comunidade evangélica luterana no domingo seguinte, assim poderia ir se entrosando com a maioria das famílias da localidade. Havia poucos homens solteiros, mas quem sabe pudesse arrumar algum pretendente. Nicole sorriu amarelo pensando no que fazia aquela mulher acreditar que ela quisesse ou precisasse de um pretendente.

O prédio da escola não era muito antigo como alguns colégios que já tinham até mais de um século de construção Brasil afora. Essa deveria ser no máximo da década de 60. Era um prédio comum, de concreto, pintado de verde, sem nenhum adorno arquitetônico. O que o embelezava era um jardim de flores de diversas cores no pátio da frente. Descendentes de alemães eram conhecidos por cuidar bem de seus jardins. Na fachada, estava escrito Escola Estadual Segundo Grau de Vogel, com uma pomba da paz desenhada, lembrando o significado da palavra Vogel, “pássaro”, em Alemão. Nicole foi apresentada no salão de atos a todas as turmas às quais daria aula. Parecia uma festa. Um grupo de mais de 100 jovens das diferentes séries a esperavam com balões das três cores da bandeira alemã. Um coral improvisado cantou uma música infantil germânica para recepcioná-la:


Kommt ein Vogel geflogen, setzt sich nieder auf mein' Fuß,

hat ein Zettel im Schnabel, von der Mutter einen Gruß.

(Vem um pássaro voando, senta-se em meu pé,

traz um bilhete em seu bico, uma lembrança da mãe)


Nicole ficou desconcertada com a cena, pareceu bastante estranho aqueles jovens, alguns deles já beirando os dezoito anos, cantarolando uma kinderlied, canção folclórica infantil. Ela pensou com seus botões que daria um jeito naquilo com o tempo, mas já nas primeiras aulas pretendia fazer algumas mudanças. Sorriu às saudações, disse umas poucas palavras aos jovens e o grupo logo se dispersou, cada um às suas salas para terem as disciplinas previstas para o horário. A Lehrerin também tomou rumo à primeira turma que atenderia, a do 3º ano. “Muita atenção a essa turma, dê prioridade a eles, puxe o máximo que der, seja exigente, afinal, estão terminando”, pediu Ingrid. Nicole concordou com a diretora, embora não soubesse o que seria exatamente priorizar, já que a quantidade de aulas era a mesma das turmas do 1º e 2º anos. A professora entrou para sua primeira aula em Vogel. A turma tinha cerca de 20 alunos, metade deles loiros e a outra metade de cabelos castanhos ou pretos, mas pele branca, a maioria de olhos claros, havia apenas um jovem mulato, provavelmente filho de algum peão que trabalhasse em alguma fazenda por aqueles lados, pensou Nicole. Ela perguntou a eles se cantavam sempre músicas infantis como Kommt ein Vogel, os jovens confirmaram com a cabeça. Ela então perguntou se não gostariam de ter algo mais de acordo com sua idade, eles ficaram sem jeito, mas alguns disseram que sim.


- OK. Então na próxima aula eu vou trazer uma fita que trouxe comigo e vocês vão ouvir e me ajudar a transcrever a letra no quadro. O que acham?


Alguém disse que a outra professora apenas dava a letra pronta e eles decoravam e cantavam, achavam que era mais fácil assim. Nicole argumentou que aprenderiam mais tentando transcrever o que escutassem. Além disso, não precisavam se preocupar porque não seria uma avaliação e seria divertido, à medida que alguém poderia entender algo diferente do contexto e acabaria por ser engraçado. No final, claro, corrigiriam e teriam aprendido muita coisa. Os jovens sorriram e concordaram. O sinal bateu e a professora saiu rumo à sua próxima turma.

No fim do expediente, a Lehrerin pegou o caminho a pé até sua casa, que ficava pouco mais de 5 minutos caminhando do colégio. Olhou desgostosa como o chão batido de terra vermelha sujava seu tênis All Star branco. Deveria escolher um de outra cor para andar por lá. Estava acostumada com a terra arenosa de onde vinha em Santa Catarina. Ao chegar em casa, almoçou e logo teve de atender a porta. Eram os homens da CRT, estatal gaúcha de telefonia, que vinham instalar o seu telefone. Uma vizinha curiosa viu e logo comentou com outros sobre o quão estranho era a rapidez com que o telefone estava sendo instalado, já que as famílias de lá costumavam esperar meses, algumas até mais de ano, após pedirem uma linha. Além disso, por que a professora queria um telefone tão rápido? Alguém tomou sua defesa e argumentou que ela ia morar ali sozinha, seguramente precisava ter uma maneira de se comunicar com a família em Blumenau. Entre especulações e mexericos, a Lehrerin chegava mexendo com o imaginário dos habitantes. Muitas perguntas eram feitas sobre ela nas rodas de chimarrão. Afinal, nunca antes uma mulher sozinha havia chegado para morar em Vogel.

Rette mich (Salve-me)