Até que a morte nos separe

Até que a morte nos separe

Até que a morte nos separe

“Até que a morte nos separe” foi a frase que finalizou os votos do meu casamento. Eu queria tirar esse trecho, por achá-lo mórbido, mas Renan fez questão de mantê-lo. “O que Deus uniu só acaba quando Ele quiser”, disse o homem que um dia amei com a anuência de um padre.

A morte veio nos separar anos depois. Renan morreu após comer camarões salteados na manteiga. Esse prato foi o que dividimos quando nos conhecemos. Nessa época, eu ainda podia me esbaldar. Em camarão ou em qualquer outra coisa. Depois, passei a ter uma alergia severa desse alimento e uma vida restrita a dois quartos, um banheiro e uma cozinha.

Renan me obrigava a preparar essa iguaria e isso era só mais uma das coisas que ele me forçava a fazer. O camarão salteado na manteiga não era um prato que ele consumia por romantismo e nostalgia, era somente parte de mais uma de suas ameaças. Enquanto comia, ele dizia “Se eu quiser, te faço engolir esse pedaço, vadia” e eu pensava que um dia ele terminaria sua refeição me vendo estrebuchar na sala de jantar até morrer.

Quando ele caiu morto, logo após o almoço, sorri pela primeira vez em anos. Não achei que esse dia chegaria. Pelo menos, não dessa forma. A morte sempre cercou nosso casamento e tudo indicava que eu iria primeiro e pelas mãos do meu então marido. Mas, entre nós, fui eu que sobrevivi. O que Deus uniu, eu separei com vidro triturado.