A reflexão final.

O Último Sonho De Um Homem

A reflexão final.

Sob o branco lençol, via-se apenas a silhueta ossuda do que fora um corpo sadio e forte. — Não achei que esse dia chegaria. — Assim falou o acamado terminal ao contar-me seu último sonho.

Encontrava-se num evento solene com seus pais, bastante feliz e alegre. Até que, inexplicavelmente, um ódio imenso apossou-se de si. Vociferou contra todos: conhecidos, desconhecidos, e inclusive seus pais. De repente, labaredas despontavam. Um incêndio irrompia.

Transportado, achou-se num ermo escuro donde ouvia gritos distantes, fruto da catástrofe. Pela janela despontou a luz de ciclones de fogo que no horizonte mesclavam-se ao céu escarlate que lançava brasas sobre a Terra. Identificou o local onde estava, era seu lar de infância.

Dali batalhou veemente contra o fogo. Porém, testemunhou impotente sua velha morada ser gradativamente tomada pelas chamas. Sentiu-se culpado e lamentou toda a pequena fagulha de mal que espalhara em sua vida. Foi ele mesmo o responsável.

Nisso uma misteriosa força o puxou para cima; e, enquanto levitava em direção ao céu, sentiu desintegrar-se em mil pedaços, como se consumido pela ardente atmosfera. Deslumbrou pela última vez o seu mundo ruindo em chamas.

Não era nenhum criminoso, tampouco virtuoso, o homem que ali jazia. Deu seus últimos suspiros enquanto balbuciava perdão. Queria ter feito mais o bem. Em sua lápide lia-se: Em tempo, que nossa bondade exceda — e muito — os nossos erros, nossa maldade. Porque no fim, antes dele ou depois, tomaremos nossa parcela de culpa. E com tal consciência deitaremos pela última vez nesta Terra.