Eu, navega(dor)

Eu, navega(dor)

Eu, navega(dor)

Pensei ao longe: eu já estive aqui.
Cansei do perto, do dito, do tido,
Também do feito e do sim e do acerto.
Não sei ao certo se ter é contido.

Recolho as velas e o medo com elas.
Velo a esperança, e ao vê-las no mar,
Lembro do fim de quaisquer caravelas
Que se perderam tentando se achar.

Me encolho ao colo das conchas marinhas,
Pérolas, pétalas, pálidas, pétreas.
Busco o abraço de estrelas etéreas,
Pesco galáxias que não são as minhas.

Um dia paro. No outro, divago.
A tarde me leva. De noite, te trago.
Arde o frio, e o fogo nega um afago.
E encalho na neve do velho lago.

Tenho que ir, não apenas partir.
Ou me descubro ou me naufrago, então.
Nas bordas da vida não há paixão,
Nenhuma aventura a bordo quer vir.

Só quem transborda o convés do desejo
Com as águas revoltas de um bem-querer,
Se joga no abismo fundo de um beijo,
Se atira no arpão que mira o prazer.

Nas trilhas do tempo, as milhas se vão.
Canto meu conto a mais um pescador.
Brindo à saudade dos amores vãos:
Doces licores e eu, navega(dor).