os raios de outro sol que queimam

os raios de outro sol que queimam

os raios de outro sol que queimam

pelos joelhos

minha saia estava junto das cicatrizes

de uma queda

quase poética

e nada sintética

aos anos de luz


a brisa lambia meus cabelos e a barra dessa saia

eu saía de casa

procurando por sabão

engraçado, não?


pedalava com amor

na minha bicicletinha

cor-de-burro-quando-foge

mas era um burro cor-de-rosa-silvestre-com-espinho

e minha buzina

a vizinhança conhecia

era um som de alegria-que-fica-depois-que-a-festa-acaba

eu buzinava,

e a vida acordava

eu acordava

e as cores tomavam outro tom


nas quintas, eu jogava xadrez com os anjos

nas terças, eu estudava a sagacidade dos louva-deuses

[por favor, tenham em mente,

esses animais não são de Deus!]

aos sábados, e

apenas nesses dias

eu ia na esquina

das mais belas flores amarelas

cultivadas pela beleza do sol que alí

repousava seus raios por ventura

com a minha bicicletinha audaciosa

como eu


contudo, neste sábado

[e tenham em mente, apenas nesse dia]

o céu não estava rindo como de costume

e sem emoção nenhuma

os raios do meu Sol

encontravam a esquina das alegres,

hoje tristes,

flores amarelas

quase por obrigação

e eu,

sem muitos porquês

em busca do meu sabão

que mamãe havia pedido para lavar

uma garbosa camisa de botão

fui à esquina toda riso

bom, quase fui.


chegando na rua da Dona Amélia,

a senhora mais rancorosa do mundo

eu tinha certeza,

por um dia só

ela riu pra mim

um riso triste,

[e tenham em mente,

eu sei como é um riso triste!

é como se houvesse anjos

que te modelassem a sorrir

quando você quer cair em lágrimas]

eu, naturalmente,

parei e abracei a senhora dona

dona Amélia

e dona dos maiores traços cansados que já havia visto

em toda minha jornada pelas ruas de pedras emotivas


viro aqui e ali,

um rosto novo.

quem seria o portador de novas histórias?

logo me animei e as cores tomavam tom novamente,

aquele olhar parecia revelar algo

algo que eu não entendia

quem seria?


não houve novas histórias,

longe de qualquer som de amor

ou cor de eufonia visível

eu senti cada célula queimar de horror.


uma vez, um homem sem expressão

me pegara sem previsão

e nunca mais

meus tons e sons

e meus bons

e dons

foram os mesmos.

eu não existo mais.


minha bicicleta exótica,

minha esquina alegre,

meu Sol, que me aguardava,

minhas pedras emocionadas,

não eram mais minhas.

eu não me pertencia mais.

hoje, sem alma

sem calma,

sem palma.


agora, sou linha

sou preto no branco

gravado no cinza

sou dobra e joga

sou joga-da

no lixo.

agora, sou jornal, sou notícia.

e não passo disso.

todo meu amor massacrado

por um homem

sem expressão

longevo como o mar

em uma nau sem mais

mas a expressão que ficou foi

- a saia que ela usava, enquanto

andava de bicicleta

- e aquele jeito todo aberto, era pra provocar.