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O Estagiário

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— Meu deus, você não vai acreditar no que o João aprontou! — Suze me diz, assim que chego no trabalho naquela terça-feira.
— João? Qual João? — pergunto, confusa. Trabalhamos em uma multinacional enorme, no departamento de marketing. Tem pelo menos três Joões só na nossa área.
— O JP, aquele estagiário da social media. — ela se aproxima, como se fosse cochichar, mas sendo Suze, tudo que sai dela tem o volume delicado de um trovão — Ele foi pego fotografando a bunda de umas funcionárias na escada, acredita?
— Eca! E aí, no que deu?
— No que sempre dá, né. As meninas reclamaram, o RH demitiu, e vai ficar por isso mesmo.
Reviramos os olhos ao mesmo tempo, com um cansaço e uma normalidade que só quem trabalha em uma grande empresa consegue entender. É horrível que a gente tenha se acostumado a casos de assédio, mas aquele João não foi nem o primeiro nem será o último a sair com no máximo uma reprimenda. Por menor que seja o cargo, o mundo corporativo é sempre bondoso demais com os homens.
— Bom, isso significa que teremos um novo estagiário? Já posso começar o bolão? — pergunto, enfim chegando a minha mesa. Mesmo não sentando perto de mim, Suze me acompanha.
— Ih, já se adiantaram, viu. A Joyce lá do RH acha que ele não dura nem um mês.
— Que exagero! O JP durou uns bons três meses, e a Luisa ficou quanto, 45 dias? — ponho o celular em modo silencioso, deixando-o sobre a mesa, e coloco minha bolsa aos meus pés, já ligando o computador. Faço tudo isso tão no automático que quase não percebo o pequeno arranjo de flores ao lado do mouse — Quem deixou isso aqui?
— Não que eu tenha lido o cartão, mas acho que foi o Tim do financeiro. — minha amiga morde o lábio. Faço uma careta para o arranjo; é daqueles que a gente encontra em supermercado, bem vagabundo. Tal qual o galanteador que fez a entrega.
— Você quer? Senão vou colocar na mesa do Oscar. Ele bem está precisando de um colorido na vida dele. — estendo o vasinho para Suze. Ela solta uma gargalhada.
— Amiga, o único colorido que o Oscar quer ver é o do dinheiro entrando na conta dele e o do nosso sangue lavando o chão dessa empresa. — ela olha por sobre o ombro e para — Falando na fera...
Oscar vem marchando, sem dar bom dia. Chefe do departamento, ele é provavelmente a pessoa mais desagradável que eu já tive o desprazer de conhecer. Mesmo depois de quatro anos trabalhando para ele, a coisa mais gentil que ele me disse foi “Luana, fica aí, você está tapando o sol bem melhor que essa peneira ridícula de apresentação que você tá tentando me vender”. E até hoje eu não sei se isso foi um elogio.
— Vai sentar antes que ele te dê uma bronca. — falei, empurrando Suze pelo quadril. Ela acenou para mim e deu o fora rapidinho.

~*~

— LUANA, CADÊ AQUELE RELATÓRIO DA CAMPANHA DA CAMISINHA LUMINOSA, PORRA? PEDI JÁ TEM MEIA HORA.
Não, pediu faz cinco minutos, corrijo em pensamento, mas não falo nada. É sexta-feira, ainda não temos um estagiário novo para as mídias sociais, e Oscar esta fervilhando. Calmamente me levanto e vou até a sala dele, um aquário no meio do setor, sem portas e com a janela mirando a avenida.
— Aqui, chefia. — digo, jogando o relatório na mesa dele. Apesar de estarmos no século 21 e o email já ter sido inventado, Oscar gosta das coisas “a moda antiga” e prefere ter os relatórios em papel pra analisar e escrever grosserias. Ele também parou no tempo no quesito tratamento de funcionários, até onde sei. Provavelmente na década de 50.
— Tá indo aonde, Luana? Senta aí e fecha a porta. — ele diz, gesticulando pra cadeira bem na sua frente. Então olha irritado para o batente vazio — Porra de administração moderninha. Se desse pra bater à porta na cara de vocês de vez em quando, não seriam tão inúteis.
— É. — torço o nariz, mas não comento — Mas diga aí, chefe.
— Acho que segunda já vamos ter o novo estagiário. Você vai treinar ele pra mim.
Não é uma pergunta. Com Oscar, raramente é. Tento forçar um sorriso.
— Hm, mas você meio que me pediu o esboço da campanha de carnaval pra terça-feira, como é que eu vou dar conta?
— Porra, Luana, é só colocar uns desenhos de pacote de camisinha numa tela colorida, que dificuldade tem isso?
Faça design gráfico, eles disseram. Você é criativa, vai mandar super bem. Só esqueceram de mencionar que nem mesmo as pessoas do seu ambiente de trabalho vão entender como seu trabalho funciona.
— Olha só, vai chegar um pivete aí segunda-feira e você vai sentar com ele e explicar como é que é o trabalho. — Oscar continuou, pegando o maço de cigarro, embora seja proibido fumar dentro do prédio — Você trabalhou com isso por quase um ano quando veio pra cá, sabe do que precisa. E é só postar umas coisas duas vezes por dia, não deve ser tão difícil.
— Não é bem assim que funciona... — murmuro, mas quando ele me olha feio e lança um:
— Como é que foi aí?
Respondo:
— Nada.
— Se você achar que tá muito ruim, eu deixo você entregar o esboço na quarta. — ele continua, bum raro momento de bondade, embora 24h não façam tanta diferença assim — Só pelo amor de Deus me garante que esse estagiário não vai me dar problema.
— Tudo bem. — me levanto, já pronta pra sair correndo dali. Mas antes que eu dê dois passos, Oscar me detém.
— E Luana?
— Oi.
Ele me olha de cima abaixo.
— Que merda é essa que você tá usando? Troca de roupa, pelo amor de Deus.

~*~

Eu descobri que gostava de moda quase ao mesmo tempo em que descobri que gostava de editar imagens no computador. Eu mexia em fotos das minhas celebridades preferidas nos seus melhores looks pra postar no Tumblr, e me dei conta de que, mais do que apreciar as roupas, eu queria me vestir como elas.
Foi mais ou menos nessa época também que eu descobri que era gorda. Não deveria ser novidade depois de anos vivendo acima do peso, mas até então, sendo só uma adolescente numa cidade do interior, aquilo nunca tinha me ocorrido de fato. Foi só quando decidi começar a me vestir bem, a procurar um estilo para chamar de meu, que percebi que o meu corpo não era o que geralmente cabia em estilos — ele cabia, quando muito, em pedaços de pano.
Guardei a vontade até me mudar para São Paulo, no início da faculdade, e fui investindo meus primeiros salários em roupas novas, em escolhas ousadas pro guarda-roupa, e transformei minhas combinações em um Instagram de moda. Mesmo longe de ser famosa, aquilo ajudou muito a me entender e a me perceber como mulher. Das varias coisas em mim que eu gosto, meu senso de moda é a maior delas.
Mas tentar explicar o conceito de moda pra alguém como o Oscar, que parou no tempo há aproximadamente um milhão de anos, é inútil. Eu estou perfeitamente formal em uma saia lápis escura com uma camisa estampada em padrões geométricos, mas aposto que tudo que ele vê é uma gorda em uma roupa chamativa. Não preciso nem perguntar pra saber; ele mesmo já me disse isso uma centena de vezes.
Ignoro o comentário dele, colocando na caixinha de “motivos pelos quais eu vou mandar o Oscar se foder quando conseguir um emprego melhor”, e volto ao trabalho.
Apesar dos pesares, eu gosto do que eu faço. Se alguém me dissesse quando comecei a faculdade que eu passaria os próximos quatro anos da minha vida criando campanhas publicitárias pra camisinhas, eu provavelmente teria rido; eu era pudica e tímida naquela época, e a ideia de olhar pra uma camisinha j me deixava envergonhada.
Vejam só o que quatro anos de mercado publicitário fazem com a gente. Hoje em dia eu não só fazia as propagandas para as camisinhas — eu era uma grande consumidora delas. Minha avó ficaria horrorizada.
— Lua! Ei, Lua! — ouço Suze me chamando, num sussurro alto, três mesas à frente da minha.
Me ergo sobre os computadores para olhar. Ela está apontando para frente, na direção dos elevadores, e dizendo algo que não consigo escutar porque é nessa hora que o Henrique, outro designer que senta bem ao meu lado, resolve cair no gemidão do zap.
— O que? — pergunto, num sussurro igualmente alto, e me viro para Henrique — Cacete, desliga esse negócio!
— Eu falei que acho que é ele! — minha amiga diz, tão discreta que é óbvio que o departamento inteiro se vira pra olhar — O estagiário.
Procuro na direção que ela aponta e encontro a Joyce, do RH, acompanhada de um rapaz. Ele é alto, corpulento, mas não do tipo bombado; faz mais o estilo “comi McDonalds a semana toda e sobraram uns bacons em mim”. Mas não é possível que ele seja o estagiário. A menos que estejam dando fermento pros adolescentes nas faculdades, não tem a menor possibilidade de esse cara ter menos do que a minha idade.
Joyce passa com ele, e eu finjo voltar ao trabalho. Tento ouvir o que eles falam, mas Henrique é a criatura mais irritante que existe quando quer, e depois da bronca que dei nele, vai fazer questão de fazer bastante barulho pra me irritar. Quando dou por mim, Joyce e o rapaz já se foram, e Suze está na minha mesa.
— É ele, certeza que é ele.
— Nao pode ser, aquele cara deve ter uns trinta anos. Não tem pique de estagiário. — digo, e Suze suspira.
— Eu sei. Tem pique de amor da minha vida. Olhou praquela cara?
— Achei que você gostasse deles sem barba, saindo do berço. — brinco, mas com um fundinho de verdade. Suze já passou dos trinta, mas prefere os mais novos. Sua paixonite mais recente é um moço do departamento de TI que mal saiu da faculdade.
— Eu só gosto de ensinar o bom caminho pra eles. — ela dá de ombros, sem se incomodar — Bom, se ele não for o estagiário, precisamos descobrir qual o setor dele. Se eu não pegar, você pega, já sabe, né?
Ao meu lado, Henrique faz algum comentário engraçadinho, mas eu o ignoro. Em vez disso, olho com pesar para as flores no arranjo sobre a mesa.
— Olha, depois do Tim, acho que nunca mais faço isso. — digo, e estou sendo sincera. Tim foi um erro de happy hour que estava me custando o sono. O que pra mim tinha sido só uma noite divertida se transformou nele me mandando mensagens as três da manhã e presentinhos em horário de trabalho.
— Que pena, porque o cara é gato. — Suze se adiantou e recolheu o vasinho de flores — Ah, dá isso aqui, vou levar pra minha mãe.
— Agradeço. — digo, acenando e tentando voltar ao trabalho. Minha mente invariavelmente volta para o tal suposto estagiário.
Não, não vou fazer nada a respeito. Não vou me aproximar. Mas Suze tem razão sobre uma coisa: que ele é gato, isso é.

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