Capítulo único

Bibelô

Capítulo único

Arminda, ruiva, quarenta e seis anos, teve uma síncope ao saber que o marido Osvaldo, falecido há pouco, tinha uma amante. Descobrira, nos pertences dele, a foto de uma loura, com dedicatória amorosa a Osvaldo, assinada como “Bibelô”. O sangue subira. Canalha, miserável, sem-vergonha! 

Pôs detetive atrás, que levantou a ficha completa: Bibelô era o apelido de Bianca Benevides Lobo, vinte e três anos. Morava numa casa de vila, a duas quadras de Arminda.

Numa tarde, foi à casa da moça, que não a reconheceu e ficou surpresa ao saber que a visita era viúva de Osvaldo. Arminda despejou tudo que sentia: a raiva pela traição, pelo sexo escasso e mecânico com o marido, pela ausência de beijo na boca. Após o desabafo, desfez-se em pranto. Não conseguia (embora tentasse) odiar Bianca– uma flor de fofura que nem sabia que Osvaldo era casado. Um bibelô, realmente. Comoveu-se ao senti-la enxugando-lhe carinhosamente as lágrimas. Em seguida, os lábios dela colaram-se aos seus, num beijo suave. Arminda, surpresa consigo mesma, correspondeu intensamente.

– Se quiser, posso dar a você tudo que seu marido lhe negou. – Disse a moça.

As mãos suaves de Bibelô conduziram Arminda ao quarto, onde se amaram intensa e apaixonadamente. À noite, Arminda velava o sono de Bibelô. Não achei que esse dia chegaria. Eu, na cama com uma mulher. Mais jovem. Amante do falecido. Abraçou-a em conchinha, adormecendo junto.

Arminda não tinha mais raiva do falecido. Afinal, por causa dele conhecera Bibelô, a melhor herança que ele lhe deixara.