Capítulo único

A Rainha do Jogo

Capítulo único

O odor de cigarro nas paredes envelhecidas pelo fumo, a música alta saindo da vitrola, o burburinho dos homens em antecipação. Aquele olhar vidrado, ansiando o prazer do que se pode vislumbrar de tão belo. Na pele envernizada por óleo, emplumada como um cisne rosa, ela deslizou pelo palco, a mão correndo pelo ventre, destilando com seu olhar envenenado uma dança de tirar o fôlego.

Tudo, naquele minúsculo espaço, se tratava de um jogo, daqueles febris e doentios, que envolve o cativeiro da mente humana e de quão poderoso é seu controle por ela. Aqui o tempo é estimado, pois esse é o segredo para manter a redoma naqueles homens extasiados. Quanto mais demorado for mais mergulhado na sinfonia eles são.

Por essa razão, ela sabia que tinha o controle de todos os admiradores sentados nas cadeiras próximas, dos tímidos que se afastavam das caravelas que eram seus bustos, daqueles que não podiam ser pegos e vagavam no fundo do cabaré como sombras à espreita. Ela tinha o controle dos garçons que lhe viam todos os dias e daquele minúsculo palco destinado a ser seu reino.

Não havia ninguém capaz de lhe vencer ali e nas memórias daqueles homens extasiados pelo espetáculo, ela ainda seria a rainha do jogo, mesmo depois do fim dele.