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O ACORDO

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     Acordei cedo determinada a aproveitar o dia ao máximo como sempre, a agenda estava apertada e não havia tempo a ser perdido. Levantei e fiz minha higiene matinal.

     Depois de uma vitamina e foto do look fitness, desci para academia do prédio e iniciei a série de exercícios que marcavam o início da minha manhã, o dia seria longo e cansativo, precisava aproveitar cada segundo.

     Uma tonelada de fotos, vídeos, textos, ligações e anotações depois, eu já estava completamente exaurida, mas feliz por deixar tudo em ordem. Finalmente pude dar uma olhada nas redes sociais e ver o que havia acontecido no mundo enquanto estava atolada de trabalho.

     As coisas estavam como sempre: fotos na praia, de comida, compras, com as amigas, viagens, roupas novas... Mas uma coisa me chamou a atenção, decidi que valia meu esforço conferir. Quem sabe fazer uma entrevista?

                          ★★★

     O táxi me deixou na porta de um dos mais luxuosos hotéis da cidade, sei dirigir, porém o trânsito do Rio era intenso e era mais prático usar um táxi.

     Eu não era impulsiva, longe disso, mas me senti atraída o suficiente para apenas observar, havia desistido da ideia de me aproximar para fazer uma entrevista ou algo do tipo, hoje eu era somente figurante.

     Eu já conhecia o hotel, havia participado de alguns eventos no salão de conferências. Me aproximei da recepção e torci para não ser reconhecida logo de cara, isso iria me atrasar e minha fuga da agenda de trabalho não poderia durar muito. O recepcionista prontamente me atendeu.

     — Bom dia, bem vinda ao nosso hotel, posso ajudá-la? — o tom do homem, que parecia no final dos vinte anos, era calmo e acolhedor.

     Abri um pequeno sorriso, o rapaz parecia gostar do seu trabalho ou sabia disfarçar muito bem.

     — Boa dia para você também. Sim, por favor. O hotel ainda tem aquele guarda-volumes? Irei para o restaurante e gostaria de guardar algumas coisas — tentei parecer o mais gentil possível, eu sinceramente amava meu trabalho, mas era cansativo acordar cedo, eu odiava, o mau humor me perseguia.

     O rapaz apenas assentiu e pediu para que eu aguardasse enquanto ele buscava uma das chaves dos armários do guarda-volumes. Uma recepcionista que terminou de atender algum hóspede do outro lado da ilha da recepção virou-se e me viu, um sorriso cresceu em seus lábios e senti o plano de não ser reconhecida ir por água à baixo.

     — Ai, meu Deus! Alguém já te atendeu? — ela perguntou se aproximando um tanto histérica, apenas sorri de leve e assenti — Eu amo seu trabalho, acompanho tudo — ela ainda falava quando o rapaz que me atendeu voltou com uma chave na mão e olhou confuso para colega.

     Eu apenas mantive meu sorriso leve, não era como se eu não gostasse de ser reconhecida, pelo contrário eu amava saber que pessoas gostavam do meu trabalho, mas às vezes é um tanto esquisito e fico sem ação.

     — Gus, você está atendendo ela? — ela notou o recepcionista que agora descobri que se chamava Gus, ainda estava eufórica e ele me olhava confuso, ela não esperou por sua resposta — Não acredito! Você pode autografar o seu livro, eu amo todos, e tirar uma foto comigo?

     — Claro, fico feliz em saber que gosta do meu trabalho — meu tom é calmo, mas alegre.

     Enquanto a moça buscava o livro e o celular na bolsa, Gus me entregou a chave e lhe dei minha malinha de mão, que eu sempre carregava com itens de emergência.

     Talvez me ache uma paranóica, mas sempre carrego itens de emergência: remédios (uma farmácia praticamente), pen drives com cópias de todos os arquivos de trabalho, uma agenda de papel com números de telefone, um celular extra, comida e uns segredinhos meus.

     Eu sou um pouco louca, mas com a rotina maluca que eu tenho como não ser? Acordo com o sol e já estou no pique, é comum esquecer algo, por isso minha malinha sempre está arrumada, posso passar uma semana no deserto se tiver essa mala.

     — Pronto — disse a moça, que pelo crachá vi que se chamava Clara, me entregando o meu livro mais recente e uma caneta.

     — Para quem escrevo? — pergunto mesmo sabendo seu nome.

     — Clara — ela responde e segundos depois já tinha escrito uma breve mensagem e assinado, lhe entreguei — Por favor diz que Wesley não vai morrer e que Linda vai levar Austin. Eu chorei muito pelo Mitchell — ela falava da história de forma animada, mas um pouco mais calma, também não esperou por uma resposta minha — Gus, temos que tirar uma foto com ela, não é todo dia que encontramos a Milena Levis — Ela fala já mexendo no celular e Gus, finalmente, parece acordar da confusão.

     — Milena Levis? Eu acompanho suas publicações, mas não te reconheci, parece mais jovem pessoalmente — ele tinha razão até minha mãe acha isso.

     Ri baixo, não havia câmera que capturasse minha idade, eu parecia um pouco mais velha nas lentes, nenhuma diferença gritante.

     Clara juntou nós três e tirou uma self, sorri e me despedi deles, precisava adiantar o passo.

                          ★★★

     O restaurante do hotel era enorme e separado do refeitório onde os hóspedes tomavam o café da manhã incluso na diária, sentei-me numa mesa na lateral, cheguei cedo e poderia trabalhar enquanto isso, tudo bem, talvez eu trabalhe 24 horas por dia.

     O garçom não tardou a chegar e pedi meu vício atual: milk shake. Vi quando o alvo da minha impulsão adentrou o restaurante e sentou-se no fundo em duas mesas juntas, estava acompanhado de um senhor de vestes árabes e dois homens que pareciam seguranças com seus ternos e grande porte.

     Concentrei minha atenção para o milk shake, a fatia de torta de chocolate e o meu celular enquanto via discretamente mulheres entrando, sentando, conversando com o homem de vestimentas árabes e saindo para outra entrar, senti um olhar sobre mim, mas ignorei afinal é um espaço público e sou uma pessoa da mídia.

     Eu como que nem monstra, depois do milk shake e a torta, comi pães de queijo e tomei café, graças aos céus minha educação falou mais alto e me detive de pedir mais alguma coisa, afinal já tinha tomado café da manhã, resolvi que tinha visto o suficiente e fui ao caixa na entrada do restaurante pagar a conta, não resisti e comprei um picolé e umas balinhas.

     Já estava saindo com minha malinha quando um funcionário do hotel me alcançou, comecei a repassar se havia esquecido algo, impossível.

     — Senhorita, espere — parei ao ver o homem ofegante ao meu lado, aguardei ele recuperar o fôlego e voltar a falar — o Sr. Zali gostaria de falar com a senhorita — tenho certeza que uma ruga de confusão se formou em minha testa, sei que sou famosa, mas não na Arábia, o que seria?

                         ★★★

     Voltei ao restaurante como se fosse a coisa mais normal do mundo eu ser parada porque um árabe que não conheço quer falar comigo, não a nada de estranho nisso, imagina. Meus saltos pararam em frente a mesa do Sr. Zali.

     Achei curioso o fato do rosto dele estar escondido, na cultura dele quem se escondia não era a mulher? Então me lembrei do short que estava usando, não era muito curto, mas revelava minhas pernas, pensando bem, eu estava no meu país e não seguia aquela cultura, não havia motivo para vergonha, apesar de não querer afrontar ou desrespeitar ninguém.

     Pelo que tinha visto as mulheres que foram "entrevistadas" não estavam com qualquer pudor, tirando umas seis que vieram vestidas segundo a cultura árabe. Não estava ali para impressionar ninguém por tanto mandei ele e qualquer julgamento que pudesse fazer se danarem, mentalmente é claro.

     — Me informaram que queriam falar comigo — digo em um tom quase irritado, não queria estar ali, meu sexto sentido me dizia que ia dar merda, mas ali estava eu.

     — Sim, por favor sente-se — Ao ouvir as palavras do homem que acompanhava o Sr. Mascarado meu cérebro não demorou de entender o que acontecia, a revolta começou a crescer dentro de mim, tenho um gênio forte, me processe!

     Sentei sem demonstrar hesitação, estava longe de ser qualquer uma e cá entre nós eu era uma ótima atriz, escondia meus sentimentos como ninguém, não iria perder a oportunidade de tirar o chão do Zali se minhas suspeitas estavam certas.

     — A senhorita poderia me responder algumas perguntas? — disse o árabe em um perfeito inglês, ele percebeu que eu era fluente quando falei.

     Perguntas? Um desconhecido pede para falar comigo e depois quer que eu responda perguntas? Isso não é um interrogatório.

     — Depende, o que seria? — minha voz já atingiu um tom gélido, a ironia estava pronta para desarmar esses dois, sendo que o Mascarado permanecia calado.

     — Qual seu estado cívil? — ele perguntou como se falasse do tempo, mas com um tom profissional, arqueei uma sombrancelha.

     — Posso saber o por quê de seu súbito interesse em saber algo tão íntimo de uma desconhecida? — rebati desviando da pergunta, digamos que meu atual status é complicado e não é da conta de ninguém. O rosto dele fez uma expressão horrorizada, não estava acostumado à uma mulher lhe rebatendo e constrangendo, ri por dentro.

     Sua expressão durou apenas segundos, ele pareceu sem resposta, mas isso também durou pouco.

     — Estou desimpedida — disse para evitar que a conversa ficasse tensa demais, não iria discutir com ele e desimpedida não chegava a ser mentira. Ele anotou algo.

     — Como se chama a senhorita? — agora meu nome é importante? Não quer pedir a senha do meu celular antes?

     — Se vai buscar meu nome no Google pode buscar por "Gab and Mia" — falei como se não fosse nada, sabia que iria puxar minha ficha no Google. Hoje em dia, todo mundo faz isso, então por que não facilitar o trabalho dele?

     Uma ruga de confusão apareceu em sua testa, mas apenas sorri, confesso que era um sorriso diabólico, mas o que posso fazer? Eu estava com raiva.

     — Qual a idade da senhorita? — eu estava irritada em outro nível, nunca pergunte a minha idade, sério, há quem tente, mas nunca me dou o trabalho de responder.

     Eu sabia exatamente onde ele queria chegar com aquelas perguntas, quer dizer, interrogatório, e perguntar minha idade foi o limite, apenas sorri maliciosa como se tivesse a resposta do século e saí. Claro que ele chamou por mim, mas sequer olhei para trás, dessa vez ninguém foi maluco o suficiente para ir atrás de mim.

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