01. chega de chiclete

457 Milhas

01. chega de chiclete

Ela descansou os pés no painel e estourou a bola de chiclete com um estampido ensurdecedor, preenchendo o carro com o cheiro enjoativo de tutti-frutti sintético. Ele contraiu a mandíbula diante daquele pop irritante, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

Emílio sempre ouviu dizer que um bom viajante não possui planos fixos e nem o intento bobo de chegar; tudo isso, de certa forma, arranca o espírito de aventura da viagem. Enfiar a mala no carro, seguir sem rumo e parar para admirar a vista e os encantos da beira da estrada são as regras primordiais de toda boa viagem.

Mas aquela, infelizmente, não era e nem seria, nem uma boa viagem. Num resumo certeiro e doloroso da crueldade do destino, aquela seria a pior viagem da vida de Emílio Andolini. E o motivo estava sentado no banco do carona, com as pernas pálidas jogadas sobre o painel, os olhos castanhos fixos na tela do celular e a boca rosada mascando aquele maldito chiclete apesar dos inúmeros pedidos de Emílio para que ela não o fizesse.

Pietra Salles em toda sua glória. Pietra Salles, a mulher mais irritante que Emílio Andolini tivera o desprazer de conhecer — e trabalhar com — há sólidos quinze anos.

Mas já vamos chegar, pensou Emílio, apesar de o GPS esfregar em sua cara que o otimismo não passava de ilusão infantil. Entre eles e Punta del Este se estendiam mais de 700 quilômetros e 8 horas de viagem.

Longos 700 quilômetros e exaustivas 8 horas com Pietra Salles mascando chiclete tutti-frutti e enfiando os pés, aqueles pés de anã de jardim que desconheciam outro calçado que não fosse sapatilhas e tênis All Star, sobre o painel de seu carro. Emílio sorriu em desespero, a dor de ver aqueles tênis esfarrapados sujando seu precioso painel encerado crescendo a cada segundo que avançavam pela BR-116.

Ele pensava em como pedir um desconto ao Seu Alceu na lavagem do carro — o serviço sairia o olho da cara se a maldita redatora continuasse balançando os pés embarrados sobre o painel —, quando Pietra Salles estourou outra bola de chiclete. O cheiro de tutti-frutti fechou a garganta de Emílio.

— Já mandei parar com essa merda, Salles.

Ela virou a cabeça com um olhar entediado, como se ele fosse tão interessante quanto uma porta pintada de branco. A ruiva maldita mascou o chiclete, sorrindo com o canto dos lábios e voltando a atenção para a estrada.

— Parar com o quê, Andolini?

— Não te faz de sonsa. — Ele apertou o volante. — Para com esse chiclete.

— Com o chiclete?

— É. Com a bola de chiclete. Para com essa merda.

— Parar com a merda ou com a bola de chiclete?

Jogos de palavra. Ele respirou fundo, contando até cinco de trás para frente. Aquilo era típico dela.

— Tu entendeu o que eu quis dizer, Salles. Se tu estourar essa bola de chiclete dentro do meu carro mais uma vez, vou te deixar no acostamento e torcer pra que um desses caminhoneiros tarados te carregue pra longe. Não tô com paciência pra lidar contigo hoje.

Ela riu. Pela visão periférica, Emílio vislumbrou a bola de chiclete crescer nos lábios rosados da maldita. Ele apertou o volante.

Quando o pop do chiclete explodiu em seus ouvidos, inundando o carro no cheiro enjoativo de corante industrializado, Emílio não teve dúvida do que fazer em seguida. Reduziu a velocidade, parou o carro no acostamento, destravou as portas e disse:

— Desce.

Pietra cruzou os braços, rindo com o canto dos lábios. Com aqueles cabelos ruivos nojentos emoldurando o rosto sardento e com o casaco militar folgado por cima do macacão jeans que deixava suas pernas à mostra — quem diabos usava macacão jeans em pleno século XXI? —, ela era o retrato de tudo o que ele mais abominava.

Por que todos os profissionais de criação precisavam ser maneiros e descolados? Onde estavam as pessoas que, como ele, agiam normalmente nas malditas agências de publicidade? Provavelmente trabalhando em escritórios de advocacia.

Pietra mascou o chiclete, revirando os olhos.

— Para com isso, Andolini. Tu não é louco de me deixar plantada aqui. — Como se soubesse que a batalha estava ganha, ela sorriu. — E o Kim te mata se souber que tu deixou a redatora que tá concorrendo ao prêmio de melhor campanha publicitária da América Latina no meio da estrada pro Uruguai. Tu não tem bolas pra isso.

Ele apertou o volante. Apesar da arrogância, a maldita falava a verdade.

Kim Garcia era o dono da agência Gamut e um desses publicitários já grisalhos que insistem em usar um cavanhaque ridículo, camisetas engraçadinhas e óculos com armações de cores berrantes. Kim era um cara legal, um publicitário talentoso e genial que, aos olhos de Emílio, possuía apenas um defeito: embarcar nas maluquices de Pietra Salles como se ela fosse o próprio Oráculo de Delfos da Redação Publicitária.

Se inscreviam os trabalhos da agência em festivais publicitários nacionais e internacionais, a ruiva maldita arrebanhava boa parte dos prêmios relacionados à redação. Quando isso acontecia, Kim convidava a agência inteira para um happy hour na Cidade Baixa. Todos festejando as conquistas de Pietra Salles, a maldita redatora de ouro da Gamut.

O que Emílio mais odiava era o sorrisinho vitorioso que ela ostentava quando recebia outro e-mail com a certificação de primeiro lugar em algum prêmio. Pietra era tão maldosa que imprimia o certificado e colava no monitor do computador e no pára-brisa do carro dele para implicar, para que fosse impossível ignorar seu sucesso.

Emílio também fazia questão de pisotear o orgulho dela quando era agraciado com os prêmios de direção artística: enviava o certificado para todos os endereços de e-mail de Pietra e imprimia cópias do certificado do prêmio para colar na bicicleta vintage dela. Vê-la furiosa, arrancando as folhas grudadas no guidom e levantando o dedo do meio era o que fazia todos os prêmios valerem a pena.

Ele e Pietra competiam por tudo desde a faculdade: notas, trabalhos, salgados, copos de café, estágios e, depois de formados, prêmios publicitários. Viajavam de Porto Alegre a Punta del Este justamente porque estavam competindo. Aquela premiação seria a consagração de um deles como o melhor publicitário da América Latina, a batalha final. Apesar de a vontade de abandonar Pietra na estrada latejar em cada partezinha de seu corpo, Emílio não podia deixá-la. Todos os salgados, copos de café e estágios que havia perdido para ela na faculdade seriam vingados.

Pietra o encarou, mascando o chiclete e sorrindo com malícia. Emílio grunhiu e voltou à estrada, entrando atrás de uma carreta de para-choque enlameado.

— Tu não vai ganhar, Salles. Pode esquecer.

— Com medo da concorrência, Andolini?

— Não preciso perder o meu tempo contigo. — Ele sorriu com o canto dos lábios, descansando o cotovelo na porta. — Um brasileiro nunca ganhou o LACAF, e tu não vai ser a primeira. Pode tirar o cavalinho da chuva.

O LACAF — Latin America Creativity Awards Festival — era uma espécie de Prêmio de Cannes que compreendia exclusivamente o melhor da publicidade da América Latina. Apesar de a publicidade brasileira ser reconhecida no mundo inteiro, os jurados latinos nunca concediam prêmios ao Brasil. Pura inveja, na opinião de Emílio. Todos os anos as agências brasileiras inscreviam suas campanhas apenas para voltarem com as mãos abanando e um sorrisinho complacente dos jurados.

Neste ano, com o LACAF sendo realizado no Uruguai, Kim estava enlouquecido. Ao mesmo tempo em que almejava trazer um dos prêmios para a Gamut, o chefe queria reunir a agência para “um feriado de muita curtição” em Punta. Kim, com seu coração gigante e gírias fora de moda, organizara a expedição com o núcleo de criação da agência, pesquisando horários de ônibus e hotéis mais baratos para todos.

Quando o e-mail dos organizadores informou que uma campanha de Emílio e Gustavo, seu redator, e uma de Pietra e Regina, a diretora de arte que fazia dupla com ela, estavam entre as 20 finalistas para melhor campanha do ano, Kim não precisou de mais nada para fechar a agência e dar férias forçadas ao núcleo de criação. Começaria, então, a disputa suprema pelo melhor publicitário do ano numa premiação que seria transmitida ao vivo via Facebook.

Seria a coroação de Emílio e Gustavo como a melhor dupla de criação da América Latina. Era certo que faturariam o troféu de melhor campanha. Pietra e Regina não teriam a menor chance contra os dois. Não havia outra alternativa.

No banco do carona, Pietra riu. Ela apoiou a cabeça ruiva numa das mãos e perguntou:

— E quem vai ganhar o prêmio? Tu?

— A Regina é uma ótima diretora de arte, mas…

— Mas ela não é tu — completou Pietra, rindo. — Ainda bem que tu é um cara alto, Andolini.

— Alto?  — perguntou ele, franzindo o cenho.

— Sim, porque só sendo muito alto pra esse ego gigantesco caber dentro de ti.

Ele fechou a cara quando ela gargalhou. Pietra se ajeitou no banco e arranjou os cabelos ruivos, prendendo a massa desordenada de fios com uma caneta que tirou do bolso do casaco. Emílio torceu o nariz para ela, pensando naquela falta de organização como um pecado incorrigível. Um pecado que era a cara de Pietra Salles.

— Eu tive a gentileza de te dar uma carona, e é assim que tu me trata. — Ele se empertigou no banco. — Se não fosse por mim, tu ainda tava plantada lá na rodoviária.

— A culpa não é minha se o Kim disse que o ônibus saía às 7 horas e não às 6 horas. Tu sabe como ele é. — Ela fez uma pausa, sorrindo para a frente e olhando para ele de esguelha. — Mas muito me espantou tu, o Sr. Pontualidade, também chegar atrasado na rodoviária.

— Eu não cheguei atrasado — resmungou ele. — O Kim me disse a mesma coisa. O ônibus deveria sair às 7 horas. Esse era o combinado.

E o filho da puta do Gustavo nem me mandou uma mensagem. Emílio apertou o volante. Odiava quando seus planos eram frustrados, alterados de última hora. Ele deveria estar no ônibus, relaxando antes da vitória esmagadora que teria à noite, e não ouvindo a voz irritante de Pietra Salles numa viagem de oito horas até o Uruguai.

— O Kim é assim — disse ela. — E levando em conta que ele tava nervoso com o prêmio, a coisa piora de figura. Dá pra entender.

— Não, não dá — reclamou ele. — Era só ter me avisado. Celular existe pra esse tipo de coisa, porra. Quando liguei, ele me atendeu todo risonho e disse: “Ah, devo ter trocado as bolas, meu chapa. Tô ficando velho. Pega a Pietra e vem pra cá! Falha minha. Depois te pago a gasolina!” — Emílio imitou a voz do chefe. — Tinha gente cantando dentro do ônibus. Isso só pode ser um pesadelo.

Ela riu e puxou o celular do bolso. Ele apertou o volante, endireitando-se no banco.

Ao ouvir aquela ordem risonha do chefe, Emílio Andolini teve vontade de mandar Pietra Salles pedalar sua maldita bicicletinha vintage até o Uruguai, mas se conteve. Se aquele era o preço para que ela visse de perto sua coroação como o melhor publicitário do ano, pois bem. Para receber os aplausos e as glórias contrariadas dela, ele a levaria até nas costas se preciso fosse.

Quando Emílio chegou à rodoviária, meio bobo por conta do sono e da xícara de café que não fazia efeito, a primeira visão de seu dia fora Pietra com aquela cabeleira ruiva presa por uma caneta, vestindo o casaco militar verde musgo, um macacão jeans que deixava as pernas branquelas à mostra e carregando uma mala azul-néon tenebrosa. Um dia que começava assim só podia terminar mal. Quando Kim dissera a ele, rindo, para que pegasse a redatora e a levasse junto, Emílio confirmara suas suspeitas de que aquele dia seria uma merda.

Nenhum deles abriu a boca durante o trajeto de Porto Alegre a Tapes, ambos com sono e irritados com o chefe. Durante 1h30min o doce e belo som do silêncio predominou dentro da camionete de Emílio.

Pelo menos até ela começar a mascar aquele chiclete fedorento e irritá-lo, o doce e belo som do silêncio predominou na primeira hora de viagem.

Enquanto encarava o para-choque da carreta e permitia que o ódio o consumisse, Emílio Andolini percebeu que estava indo para o Uruguai com Pietra Salles, a mulher que ele mais odiava desde a faculdade, porque seu chefe não passava de um imbecil avoado que era incapaz de transmitir uma informação correta.

Por que, de todas as mais de 50 pessoas da Gamut, ele precisava ficar preso num carro com a redatora mais abominável de todo o núcleo de criação? Por que ele não podia ter encontrado Sarah na rodoviária, com seus óculos gatinho e receitas de bolo? Por que não Romero, que sabia tudo sobre futebol e se orgulhava porque as filhinhas já experimentavam as primeiras chuteiras?

Tanta gente, pensou ele, olhando de esguelha para a ruiva mal-arranjada no banco do carona. Tanta gente e eu confinado com essa maldita. Emílio suspirou, afastando os pensamentos ruins. Pietra Salles não estragaria sua glória.

— Curioso. Sim, muito curioso... — divagou ela.

Emílio virou o rosto. A ruiva olhava para frente, perdida em pensamentos. O celular pendia de sua mão pálida. Depois de trabalharem juntos por quase cinco anos, ele sabia exatamente o que ela queria.

— O que é, Salles?

Ela deu de ombros, os olhos castanhos cravados na carreta.

— A situação é curiosa, Andolini. Muito curiosa.

— Como assim?

Ele odiava quando a ruiva fazia aquilo. No breve período em que formaram uma dupla — outra das esquisitices de Kim, que insistia em girar os diretores de arte e os redatores de tempos em tempos para “reciclar a criatividade das duplas” —, Pietra caía em silêncios reflexivos e achava tudo curioso. Emílio nunca odiou tanto sua vida quanto naqueles sete meses em que fora forçado a encarar a cabeleira ruiva da redatora logo pela manhã.

— A viagem tava fechada. Tipo, 20 pessoas, incluindo eu e tu, poderiam receber a informação errada. Mas só nós dois chegamos uma hora mais tarde. Só nós recebemos a hora errada — disse ela, virando o rosto para encará-lo. — Curioso, não?

— É karma. Pode apostar.

— Não, mas a inicial tá certa. — Ela riu. Emílio franziu o cenho, dividindo a atenção entre Pietra e a estrada. Como se lidasse com uma criança burra, ela sorriu com o canto dos lábios. — Kim, Andolini. Não karma. Kim.

— Kim?

— Só pode. Acho que ele tá tentando… tentando reviver “A Época das Trevas”.

Os dois se olharam. “A Época das Trevas” era como se referiam ao período, aos sete longos meses em que foram forçados a trabalhar juntos.

Emílio piscou para a traseira da carreta.

— O Kim não teria motivos pra fazer isso, Salles.

— Sério, Andolini? — Ela sorriu com o canto dos lábios e cruzou os braços. — Todos os trabalhos que a gente fez durante “A Época das Trevas” foram premiados. Todos. O Kim juntaria a gente de novo se isso significasse mais prêmios pra agência. Lá no fundo tu sabe que eu tô certa.

Apesar de quase se matarem naqueles sete meses, de alguma maneira mística que estava além da compreensão de Emílio, ele e Pietra arrebanharam boa parte dos prêmios publicitários daquele ano. Na falta de uma explicação racional, Emílio creditava o sucesso estrondoso deles a alguma bruxaria de Pietra. Só podia ser. Aqueles cabelos ruivos não enganavam ninguém.

— Tá, mas o Kim não faria isso. Acho que ele não faria isso — insistiu Emílio. — Ele sabe que eu preferiria furar meus olhos com uma lapiseira diferente a cada dia do que trabalhar contigo de novo.

— Saiba que o sentimento é recíproco. — Pietra sorriu de maneira forçada e abriu o porta-luvas. — Enfim, se o Kim tiver um dedo nisso...

— O que tu tá fazendo? — Ele enrijeceu no banco.

— Procurando os teus CDs — respondeu ela, como se fosse óbvio. — Tô entediada e não quero mais ouvir música clássica. Tá enchendo o saco.

Ele apertou os olhos. O rádio do carro sempre ficava sintonizado na estação de música clássica não porque Emílio fosse um grande apreciador do gênero, mas porque abominava barulho. A música clássica, por não conter vozes estridentes e guitarras barulhentas, acalmava o espírito de Emílio após outro dia de trabalho estressante.

Irritado, ele fechou o porta-luvas com um tapinha.

— Para de mexer nas minhas coisas, Salles.

— Só quero ver os CDs…

— Não tenho CDs — resmungou ele. — Quem diabos usa CDs hoje em dia?

Ela revirou os olhos.

— O que a gente vai fazer, então?

— Ficar em silêncio até o Uruguai tá fora de cogitação? — perguntou ele. Pietra apertou os olhos. — Olha, se tu tá tão entediada, vai dormir. Assim tu cala a boca e não me enche o saco.

— Não durmo perto de quem não confio.

— Essa foi pra me atingir? — Ele riu. — Tu já foi melhor do que isso, Salles.

— Acredite ou não, Andolini, o mundo não gira em torno do teu umbigo. Chocante, eu sei, mas se acostume — retrucou ela, voltando a abrir o porta-luvas. Emílio fechou a cara. — E não durmo perto de ti porque tu me abandonaria no primeiro motelzinho xexelento de beira de estrada. Não confio em ti.

— Se tu não fosse tão arrogante, quem sabe…

— A culpa é sempre minha, né? Pelo amor de Deus.

— Não é como se tu não fizesse por merecer, né? — resmungou ele, as orelhas pulsando de raiva. Emílio fechou o porta-luvas novamente, desta vez com mais força do que o necessário. — E já mandei parar de mexer nas minhas coisas!

Ficaram em silêncio por três segundos, ouvindo apenas os sons dos pneus sobre a estrada macia. Pietra escorregou no banco, voltando a atenção para a tela do celular.

— Foda-se — disse ela.

— Muito maduro da tua parte. — Ele ultrapassou a carreta, aumentando um pouquinho o volume do rádio. — E a gente vai ouvir o que eu quiser. O carro é meu. Sou eu quem manda.

— Foda-se — repetiu ela, a atenção presa na tela do celular. — Faz como tu achar melhor.

— Vou fazer. Pode deixar. — Ele sorriu. — Agora chega. Hora de calar a boca.

— Beleza, Vossa Majestade.

Emílio trincou a mandíbula, mas não se importou com a provocaçãozinha adolescente da redatora. Ele relaxou os ombros no banco de couro, alegre por ouvir o ronco baixinho do ar-condicionado e a música clássica ambiente.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, a calmaria sustentou-se por menos de 200 metros. Pietra Salles, sempre irritante, parecia ter o dom de contrariá-lo.

Quando tudo o que ele queria era paz e silêncio, ela fez uma nova bola de chiclete, enrolando uma mecha de cabelo ruivo no dedo indicador enquanto seus olhos castanhos vagavam pela tela do celular. Emílio apertou o volante pela milésima vez naquele dia, invocando mentalmente todos os mantras budistas que conhecia para não empurrar a redatora para fora do carro.

Antes que a bola fosse estourada e ele parasse o carro no acostamento para ter o prazer de esganar sua dona, Emílio puxou o chiclete para fora da boca de Pietra com a ponta dos dedos. Num gesto rápido, e morrendo de nojo porque a goma cor-de-rosa estava toda babada, Emílio baixou o vidro e atirou o chiclete pela janela.

— Chega de chiclete no meu carro, Salles.

Para a surpresa dele, Pietra não se alterou. Quando ele achou que a batalha estava ganha, ela sorriu com o canto dos lábios. Uma mecha do cabelo ruivo selvagem caiu sobre seus olhos castanhos maliciosos.

— Sem problemas, Andolini. Tenho mais aqui.

Pietra puxou uma cartela repleta de chicletes cor-de-rosa do bolso do casaco, envolvendo o carro no pior cheiro de tutti-frutti da face da Terra, e enfiou dois na boca. Emílio apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

O maldito cheiro de tutti-frutti tomou de assalto o interior do carro, potencializado pelas janelas fechadas e o ar-condicionado ligado. Emílio trincou a mandíbula ao ver outra bola de chiclete, uma maior ainda, formar-se nos lábios rosados de Pietra Salles.

Se não chegassem em breve ao Uruguai, ele entendeu que aquela maldita viagem terminaria de um jeito ou de outro: suicídio ou homicídio.

E quando Pietra Salles estourou a nova bola de chiclete, rindo seu risinho vitorioso, Emílio Andolini decidiu que a segunda opção estava de bom tamanho.

02. época das trevas 2.0