Sarau sem pudor

Sarau sem pudor

Sarau sem pudor

É tudo movimento.

Primeiro ato.

É matinê.

As mãos se tocam, ao som de bocas que pararam de falar. O andamento é lento — tanto quanto a brisa de um começo de fevereiro. A ponta dos dedos passeiam leves, reconhecendo o salão da tua pele negra. Cada linha das tuas mãos marcam uma posição a ser explorada.  Cada verso dos toques é acompanhado por olhos tímidos, ainda pegando o ritmo da tua experiência. Uma ponte macia de cachos escuros amarram a sequência seguinte. São fios finos que ensaiam suaves rodopios por toda tua cabeça. Com movimentos mais atrevidos, dedos se intrometem na multidão dançante, afagando tua nuca no compasso nervoso do coração. É a vez da tua mão dar suas voltas na minha cabeça, acompanhando as últimas notas antes do refrão.

O refrão é cantado pelos nossos olhos e dançado pelos nossos lábios. A coreografia é singela, começando com um beijo tênue e demorado, abrindo para um passeio delicado que desliza de um canto ao outro da tua boca. O teu sabor harmoniza com o meu, numa instância que aprendi a precisar. A melodia de nosso primeiro beijo ainda ecoa em cada um de nós, mas nossas bocas ainda dançaram mais algumas vezes naquela tarde.

Segundo ato.

O segundo ato começa após um longo intervalo — ou que pareceu um longo intervalo, como um filme de duas horas sobre um interim de sete anos. A conversa inicia como uma flauta doce e despretensiosa, e nossos olhos bailam perscrutando uns aos outros. Nossos sorrisos, sincronizados, aparecem bem marcados pelas alfaias em nossos peitos. Uma marchinha de beijos nunca foi tão doce. Nossas bocas bocas frevaram até o começo da noite quando, num passo ousado de um convite, seguimos pra casa — nossa casa — sem pretensões de retornar.

Os tambores rufam todo o caminho e dançamos trepidando com o veículo. Você deita na rede e eu não demoro a mudar de figurino, retirando minha camisa e calça para vestir algo mais leve e compensar o peso do meu coração. Você me acompanha, removendo as peças que impediriam nossos corpos do contato direto. Deitados na rede, bailamos em silêncio, conduzindo o calor de nossos peitos um para o outro. Sob essa transferência, minhas mãos caminham sobre tua pele, em passadas lentas — ora firmes — ensaiando os passos do meu desejo. Sinto teu rabo com a ponta dos meus dedos, te aperto com firmeza e você responde com um sorriso. Coberto pelos teus cabelos, vou dançando seguro de mim enquanto você me assiste deliciosamente acomodada. O teu cheiro me aplaude e se movimenta dentro de mim. O sinto pulsar em todas as partes do meu corpo. Decido então dividir com você, abaixando meus shorts. Sinto a textura da tua calcinha com a minha pele nua, insistindo suavemente, te incitando pra fora de você, te puxando finalmente para dançar comigo. Minha respiração sussurra no teu ouvido um ultimo convite — pra dentro de mim.

Terceiro ato.

Você cai fora da rede, fora da tua lingerie, fora das máscaras de gente — cai fora de si mesma — caindo em cima de mim. Sinto tuas pernas molhadas de nós dois enquanto teus olhos perfuram os meus no quarto sombrio. Meus pés balançam fora da rede, e você se ajoelha por sobre mim, tomando para si todo o destaque dos movimentos seguintes.

É tudo movimento.

A música acelera impiedosamente, mas você dança no seu próprio ritmo. Me sinto deslizar dentro de você, complemente lambuzado no teu prazer. Você dança em mim, encharcada de desejo. Aperto  teus quadris enquanto você sacoleja e rebola no meu pau, explorando cada centímetro de mim. A rede balança com teu corpo quicando no meu, com equilíbrio ideal, nos separando  somente para nos juntar impetuosamente logo em seguida.

Já não há música. Já não há quarto. Já não há rede. Já não há sequer nós dois.

Perdidos um no outro, caímos fora da rede. E dançamos no chão com violência. E voltamos para rede. E dançamos de lado. E de costas. De pé. Deitados. Até amanhecer e depois. E parte de nós nunca parou de dançar. Como uma música adivinhada com o soar da  primeira nota, cada toque foi o despertar de uma memória antiga. Nossos corpos perfeitamente simétricos se sintonizaram a cada compasso, com a força mística de uma intimidade construída e solidamente fundamentada nas vidas passadas. Um reencontro comemorado num sarau sem pudor, composto, coreografado e performado por todos os universos de nós dois.