A fresta de sol

Através da fresta

A fresta de sol

Ela já estava impaciente, olhando por aquela fresta de muro. Mas não podia ir embora sem ter certeza que do que aconteceria. Até que, para seu alívio, o bebê acordou e começou a chorar. Pronto, em breve alguém apareceria. Como esperado, uma porta se abriu, e uma voz veio de dentro perguntando curiosa “que barulho é esse?”. Era a deixa. Já podia se afastar.

Caminhou por horas a esmo, pensativa, até que decidiu que finalmente era o momento de voltar para casa e enfrentar a mãe. Contar que tinha perdido o emprego, que tinha estragado tudo. Mas não diria nada além disso. Sua mãe não precisava de mais desgostos nessa vida.

Quando entrou no quintal de terra batida da sua casa, notou que agora havia algumas galinhas ciscando por ali. O cachorro, sempre magro. Aquela mangueira que ainda dava frutos. Sentiu uma pontada dolorida de saudade. Parou em frente a porta, suspirou, bateu com força. “Abre mãe, sou eu”. Escuta passos arrastados, esbaforidos. A porta abre num sopetão, revelando o luminoso sorriso desdentado da sua velha mãe. Que a recebe chorando, de alegria. “Minha filha, você aqui! Deus é muito bom! Olha como Deus é bom!”. E então ela estava lá, no meio daquele abraço apertado da sua mãe, e foi vindo tudo, tudo o que já viveram, tudo o que ela viveu. Toda a vida que nunca foi e poderia ter sido. E se esforçava para segurar suas próprias lágrimas. E numa avalanche de palavras começou a pedir desculpas, e dizer como tinha feito tudo errado, e que agora não tinha mais emprego, e que não sabia como eles iam se sustentar porque ela sabia como ela precisava daquele dinheiro, porque os meninos mais novos ainda estavam na escola e quem sabe eles iam conseguir estudar, e se formar e tirar ela daquela vida. Mas que ela ia dar um jeito, que tudo ia ficar bem, que ela faria qualquer coisa.

E a mãe começou a rir e a abraçava com força, e ria e dizia “Minha filha, Deus é muito bom!”. E ela só pensava que a igreja já estava afetando o julgamento da sua mãe. E sua mãe continuou dizendo, “Olha, a moça da assistência social veio aqui ontem avisar que deu tudo certo e agora eu tenho aquela coisa aposentadoria! É duas vezes o que você ganhava, minha filha! E você ainda voltou pra casa! Olha como Deus é bom!”. E então ela começa a rir junto com a mãe, aliviada e a pensar que sim, talvez a mãe estivesse certa e Deus fosse bom. E a mãe continuou falando “e eu quero que você venha aqui porque eu vou te mostrar o presente que Deus mandou pra abençoar nossa casa”, e a mãe a foi puxando pela mão, através dos cômodos mal acabados, sempre em construção, até entrar no quarto que estava iluminado por uma fresta de sol.

E sobre a cama, lá estava ela, ainda na mesma caixa, adormecida, a sua filha. O seu bebê. E ela olhou para mãe e fez uma pergunta engasgada na garganta, “E agora, mãe, o que você vai fazer?”. E a mãe a olha espantada e responde “Que pergunta ué, nós vamos criar né. Como é que recusa um anjinho do Senhor?”.

E ela então foi até a caixa e pegou o bebê, e aconchegou nos seus braços. E se virou para mãe e disse: “Nós podemos chamar ela de ‘Marta’?”. Ao que a mãe assentiu sorrindo e então veio tudo veio de uma vez e ela não pode mais conter a torrente de lágrimas que a afogava. Começou a chorar, copiosamente, desconsoladamente. Chorava abraçada no seu bebê, enquanto sua mãe acariciava seus cabelos.