A fresta do muro

Através da fresta

A fresta do muro

Ela olha pela fresta do muro, ansiosamente. A caixa ainda estava lá, na porta da frente da casa. Checa novamente as horas, já era para ter aparecido alguém, ela não quer ficar muito mais tempo por ali. Seus olhos marejam de lágrimas, que seca, com impaciência. Tem andado tão emotiva. Não havia motivos para chorar, as coisas iam dar certo.

Continuava olhando apreensiva para a caixa. O bebê ainda não tinha acordado. Será que estava tudo bem? Certamente. Acordaria em breve, com fome e choraria com vontade. Então alguém apareceria. Assim esperava. Ainda sentia seu corpo se recuperando do parto. O leite que ainda não tinha descido completamente. Melhor assim. Não amamentaria mesmo aquela criança. Seus olhos marejaram novamente. Não ia chorar. A vida seguia.

Agora, precisava emagrecer. Desde antes, até. Só poderia mesmo estar muito gorda para que a barriga não tivesse sido notada no serviço. Ou talvez, ninguém se importasse mesmo. O importante era manter as vidraças sempre limpas e o jantar pontualmente pronto. Ela mesmo demorou a notar que estava grávida. Só se deu conta porque não menstruava mais. E passava muito mal. Acreditou que poderiam perdoar os dias de sumiço. Eram dez anos de trabalho, praticamente desde os seus doze anos de idade. A primeira vez que faltava. Muito mal visitava a própria família. No início, era a mãe que ia ver como ela estava. Depois passou a ter folga uma vez por mês. Nunca nas festas. Nunca nos feriados. Nunca aos finais de semana. Nunca mais que um dia. Como ia avisar do seu sumiço? O que ia dizer? Que estava parindo? Se nem da gravidez lhe deram conta?

Teve sorte que o porteiro lhe emprestou algum dinheiro para chegar até a maternidade. Ela nunca tinha nenhum dinheiro com ela. Todo mês sua patroa depositava o seu salário diretamente para sua família, que vivia no interior do Estado. E era melhor para que ela não tivesse que se preocupar com coisas de banco, lhe dizia. Teve sorte que tinha uma maternidade por perto. Nem sabia. Não havia mesmo motivos para as lágrimas que teimavam em queimar seus olhos. Ela nem sabia direito quanto ganhava. Sentia-se feliz por poder ajudar a mãe no sustento. Não ver os irmãos passarem fome. Seu pai tinha ido embora quando ela era pequena, deixando sua mãe e seus irmãos à deriva. Melhor ele ter ido mesmo. Melhor que apanhar todo dia. Ver a mãe ser espancada. No fim, a patroa foi muito boa para eles quando a levou de lá. Uma boca a menos para comer e ainda algum dinheiro para alimentar os que ficaram para trás.

Sim, ela tinha lá os seus sonhos. É claro. Estudar. Quem sabe trabalhar com outra coisa. Quem sabe num escritório bonito. Ser secretária, ou alguma coisa assim. Queria mais era poder garantir uma velhice digna para a mãe. Mas estragou tudo. Como pôde ter sido tão estúpida e engravidar? Ela não queria essa gravidez. Lógico. Como querer? Ela sequer queria ter dormido com o filho da patroa. Mas foi burra. Como acreditou que eles pudessem ser amigos, conversar de igual para igual? É certo que tinham quase a mesma idade, praticamente cresceram juntos e em outros tempos até já brincaram às escondidas. Ele era quase um irmão para ela. Que ela protegia e ajudava a esconder os malfeitos. Como ela poderia imaginar que nutriria algum interesse por ela? Logo ela? Que era gorda, feia, quase analfabeta. E ele, sempre com mulheres lindas, inteligentes, universitárias. Como ela foi permitir que aquilo acontecesse? Disse que não deveria. Que estava errado. Que a mãe dele ia demiti-la se descobrisse. Disse que nunca tinha feito aquilo. Que estava com medo. Que não queria. Disse que era para ele parar com aquilo porque ela não estava gostando. Mas ele ria dela. Não achou que estivesse falando sério. E quem daria ouvidos para uma mulher bêbada também? A culpa foi sua, não deveria ter bebido.

E tudo por causa da comida. Era uma gorda mesmo. Só aceitou a bebida que ele ofereceu para poder provar a comida que ele tinha preparado. Risoto de Camarão. Salivava só de lembrar. Estava uma delícia. Nunca tinha comido nada tão bom. Eram anos comendo arroz, feijão, ovo, tomate, restos. E lasanha congelada. Pelo menos comeu camarão. Não devia era ter tomado o vinho. Ele deve ter pensado que aceitar dividir a mesa era convite para dividir a cama. Que idiota ela foi. E depois ainda teve que ouvir que o filho não podia ser dele. Que foi uma única vez, que ele não terminou dentro. Como assim? Ela nunca nem tinha feito aquilo antes com ninguém. Ele sabia disso. E como ela ia conseguir fazer filho com mais alguém se quase nunca saia daquela casa? Sua vida era da limpeza para a cozinha, da cozinha para o seu quarto minúsculo nos fundos. Nem janelas possuía.

E nem para tentar tirar ele ajudou. “Não posso fazer nada agora, toda a minha a grana é para o intercâmbio nos Estados Unidos”, ele disse. E era isso. Esperar o quê de homem? Pensou em dar um jeito sozinha, mas não tinha a menor ideia de como fazer. Com quem conversar? Se falasse com a patroa, seria mandada embora na hora. E como explicar aquela barriga? Ela iria ficar do lado dela contra o filho? Ela obrigaria o filho a abrir mão de estudar nos Estados Unidos para assumir aquela criança? Poderia falar com a mãe? Não. Ela ia morrer de desgosto. Mais uma filha perdida. Não achava também que a mãe fosse aprovar tirar a criança, agora que era da igreja. Embora a mãe soubesse como. Ela já tinha ouvido essas conversas. Que era para ela ter mais irmãos. Que a mãe já quase tinha morrido. Que graças a Deus o pai tinha ido embora e parado de fazer filhos nela.

Então o tempo foi passando. E ela não falou com ninguém. O filho da patroa se foi logo no começo e dessa vez ficaria um longo tempo fora. A patroa estava sempre muito ocupada, enfiada na universidade, dando aula ou escrevendo livros. Era uma professora famosa, aparecia na televisão dando entrevistas sobre a situação do país. Mal se falavam, desde sempre. Até que a vida era boa sem o filho da patroa por lá. Sempre sujando, bagunçando, trazendo amigos, fazendo farra, a perseguindo na cozinha com brincadeiras que a faziam se sentir mal. Tinha menos tarefas, não precisava cozinhar tanto, só fazer a salada, única coisa que a patroa comia. E era também nessas épocas que ela comia lasanha congelada. Só lasanha.

Como a patroa quase nunca estava mesmo, ela ficava só a maior parte do tempo. Então, depois que terminava todo o serviço conseguia descansar tranquila no sofá em plena sala. Colocava as pernas inchadas para cima e ficava assistindo televisão. Via programas que falavam de bebês, como eles nasciam, como cuidar deles. E aí até fazia um pouco de carinho na barriga, na TV dizia que era bom.  E até chorava um pouquinho, não entendia muito o motivo. Achava que eram os tais hormônios. E gostava quando sentia o bebê mexer dentro dela, porque sabia que ele estava bem. Estava vivo. Já que não tinha ido ao médico nenhuma única vez. Na vida. Ela ficava ali sentada no sofá, às vezes cochilava. Sentia tanto cansaço! Fantasiava que poderia ficar com o bebê ali, sem ninguém perceber. Se não perceberam a gravidez, será que perceberiam uma criança? E quando o filho da patroa voltasse?

Ainda assim, sentia-se com sorte. Que outras opções teria? Nunca mais tinha ouvido falar da irmã do meio. Sabia que ela tinha saído de casa para trabalhar de vendedora. Mas sua mãe dizia que sabia bem que tipo de coisa a irmã andava “vendendo” por aí. A última vez que se viram, a irmã parecia cansada e triste. Embora ostentasse um sorriso duvidoso de quem sabia o que estava fazendo.

Sentiu-se aliviada porque as primeiras dores do parto começaram num final de semana em que a patroa tinha viajado. Ela aguentou mais um pouco até terminar todo o serviço. Aguentou mais, quietinha no seu quarto, deitada na cama, morrendo de medo. Até que um aguaceiro molhou o chão e ela percebeu que a bolsa tinha estourado. Era melhor sair dali. Desceu, com os documentos no bolso do uniforme, e ficou parada na portaria do prédio, pálida, sem saber o que fazer. Ela não tinha nenhum centavo e sequer sabia para onde ir.

Foi o porteiro que a ajudou. Que também estava lá desde sempre. Que a tinha visto crescer ali, carregando as bolsas de compras da patroa. Ele a amparou, ajudou a caminhar até a saída, parou um ônibus na rua e a ajudou a subir. Pediu ao motorista que a deixasse na maternidade, que era próxima e ainda deu uns trocadinhos para ela. “Para ajudar a voltar, minha filha. Tenha uma boa hora”. Quando ele a beijou na testa, antes de deixa-la ir, ela quase chorou de novo. Mas não era hora para essas coisas.

A ajudaram a descer do ônibus na porta da maternidade. Ela entrou e o mundo ficou para trás. Dor, dor, dor. A hora que não passa. Um dia se passou. Ela sozinha, vendo mulheres chegando, parindo seus filhos e indo para enfermaria. Dor, mais dor. “Será que demora muito ainda? Eu preciso voltar pro trabalho antes que a patroa volte”. Deita, coloca soro. Dor, muita dor. Grito. “Na hora de fazer, doeu?”. “Doeu! Na hora de fazer doeu! Não aguento mais!”. Que bom que a ajudaram. Se o médico não subisse na sua barriga o bebê não tinha saído. “Força!”. Mas não tinha mais forças. Estava ali há quase três dias, sem comer, sem beber, estava exausta. Estava com medo. Ela só pensava que a essa altura a patroa já tinha voltado e não tinha encontrado a caneca de café no escritório, logo pela manhã, e saberia que ela não estava lá. “Força!” Sentiu um corte na vagina. O médico com um bisturi na mão. “Agora vai”. Força. Forceps. Nasceu.

Era uma menina. Ela não sabia. “Ela é perfeita?”, perguntou. Não conseguia vê-la muito bem, apenas uma coisa rosada sendo levada para lá e para cá. Não poderiam trazê-la? Queria tocá-la. Por que não a traziam? Para onde a levavam? Protocolo, disseram. Enquanto era suturada, remexida. “Foi um pique pequeno, vai ficar melhor que antes”, disse o médico. Pique? O que?

Enfermaria. Dormiu longas horas. Um cansaço mortal. Acordou faminta e a comida que lhe deram pareceu-lhe deliciosa. Não era lasanha. E então sua filha veio. A aconchegou nos braços e ficou olhando longamente. Pensando se ela era parecida com alguém. Pensando no que ia fazer agora. Pensando em tudo. Pensando em nada. A enfermeira veio, explicou como amamentar. Ela ali, com aquele bebê nos seios, sugando colostro. Sentia-se esvaziada. Mais que fisicamente. Era quase como se sua alma também tivesse se esvaído. Não sentia o tal “amor de mãe”, não sentia nada. Acariciou a bochecha do bebê por um instante. Menina. Pobre coitada. Já nasceu condenada. A enfermeira volta. “Quando posso embora?”, pergunta. “Amanhã, já terá alta”, a enfermeira responde. E assim, no dia seguinte, ela se viu na porta da maternidade. Entrou cheia de dores e saiu com um bebê no colo enrolado numa manta e com roupinhas doadas pela maternidade. Na certidão de nascida viva do bebê que agora estava no bolso do seu uniforme, junto com seus documentos, estava escrito o nome “Marta”. O mesmo nome da sua mãe.

Quando entrou na portaria do prédio, o mesmo porteiro estava lá. Ele o recebe com um sorriso triste e um olhar de compaixão. Parecia assim tão mal? Subiu temerosa. A patroa, como imaginou, não estava. O bebê começa a chorar. Ela amamenta. Corre, arruma tudo. Que bom que a casa não estava muito suja. Choro. Mama. Dorme. Ela está sangrando e ainda com dores.  Lava, cozinha. Bebê chora mais. Troca. O pacote de fraldas que a maternidade doou não vai durar muito tempo. Salada pronta. Se esconde no quartinho. Ela está exausta. O bebê chora. Ela chora. Está em pânico. Não demora muito a patroa vai chegar. Deixa o bebê chorando em cima da cama e sai pela casa. Na cozinha se escuta o choro. Que bom que a patroa quase não vem ali. Na sala, se escuta muito pouco. No escritório, quase nada. No quarto da patroa, nem um som. Tem uma ideia. Retorna ao quartinho e coloca o bebê, que ainda chora, delicadamente dentro do seu armário, e fecha a porta. Sai do quartinho. Fecha a porta. Silêncio na cozinha. Respira aliviada. Volta correndo e tira o bebê de dentro do armário. Começa a embalá-lo para que pare de chorar. Para que durma. Para que a desculpe por colocá-lo dentro de um armário que cheira a naftalina velha e baratas.

No dia seguinte, ela vai levar a caneca de café para a patroa no escritório. “Onde você esteve?”, a patroa pergunta sem nem levantar os olhos do jornal. O que responder? “Como você some assim?”. Ela permanece muda, cabisbaixa. A patroa continua. “Como você pôde fazer isso comigo depois de tudo que eu fiz por você e pela sua família?”. Meu Deus, a patroa estava certa, ela era uma ingrata. “É assim que você me agradece por eu cuidar de você e evitar que sua mãe morra de fome?”. Ela permanecia de cabeça baixa, não ia chorar, não ia chorar. “Não quero mais você aqui. Fora. Eu preciso de empregados em quem possa confiar”. Não, por favor, não. “Pegue suas coisas e vá embora agora”.

Ela pensou em retrucar. Em implorar. Em explicar. Contar tudo. Dizer que o filho da patroa a tinha engravidado. Que ela não queria nada daquilo. Que por favor a deixasse ficar. Dizer à patroa que sua neta dela estava naquele momento berrando dentro de um armário abafado, quente e mofado, no quartinho minúsculo da empregada. Pensou em dizer tudo isso, mas no fim não disse nada. Porque a neta da patroa era também a filha da empregada. E ninguém acreditaria no que ela tinha a dizer.

A patroa então lhe estendeu um envelope. “Aqui tem algum dinheiro. É muito mais do que lhe devo, e muito mais do que você merece. Não pense que eu sou idiota e não sei do que acontece na minha casa. Eu não tenho nada a ver com seus problemas.” E então ela e a patroa finalmente se olharam nos olhos. Talvez pela primeira e última vez.

 Ela pegou o dinheiro, voltou para o quarto, tirou sua filha, agora já adormecida de tanto chorar de dentro do armário. Arrumou suas poucas coisas dentro de algumas sacolas plásticas e saiu da casa, onde tinha passado os últimos dez anos da sua vida, sem olhar para trás.

Passando pela portaria, o porteiro vai ao seu encontro e a abraça. “Minha filha, tem alguma coisa que eu posso fazer por você?”, ele pergunta. E então, com uma lucidez recém-conquistada, respondeu: “Zé, tu me arruma uma caixa?”.

A fresta de sol