Corações tortos - Degustação

Corações tortos - Degustação

Corações tortos - Degustação

2h30

 Já era madrugada de segunda-feira e eu tentava, sem sucesso, colocar a cabeça no lugar. De alguma forma, a noite me convidava para esvaziar os pensamentos, como se nuvens densas pudessem ser sopradas para longe.

 Eu tinha acabado de terminar um namoro de dois anos. Precisei mudar de emprego para conseguir pagar a faculdade e ainda não tinha novos amigos nela. Mas eu era um cara legal, juro. Peguei meus fones, cliquei numa playlist aleatória e deixei que as músicas me envolvessem. Coloquei meus óculos e peguei uma coletânea de contos ingleses.

 Quando estava prestes a terminar o conto de Oscar Wilde, o celular começou a tocar. Deixei a leitura de lado e fui ver quem seria àquela hora. Era Vivi, a única amiga que ficou do meu lado quando resolvi terminar com Renata. Nosso relacionamento não estava dando mais certo, e eu queria que ela fosse feliz.

– Oi, sumido! Como você está? – disse uma voz rouca do outro lado da linha.

– Estou bem e também um pouco sumido, admito – respondi, sem vontade. Eu estava meio distante do mundo e queria colocar minha vida nos eixos.

– Você ficou uma semana sem falar com a sua melhor amiga. Melhor amiga da vida, pra ser mais exata! Estou com insônia e pensei em falar com você. – Dava para perceber pelo tom de voz que ela não estava bem.

– Aconteceu alguma coisa? Você parece estranha – perguntei, preocupado. Ela é tão feliz e alegre que é complicado acreditar que algo poderia afetá-la.

– Nada não... Quer dizer... Eu fui ao hospital ontem porque estava com uma dor forte no pescoço e um médico gato pediu milhões de exames.

Um silêncio se formou. Eu ouvia apenas sua respiração.

– Mas você está bem? Os exames deram alguma alteração?

– Sim. Acharam um nódulo no meu pescoço e fizeram biópsia. Não quiseram me falar mais nada, mas estou com medo de estar muito doente...

– Eu falei que, se você namorasse o Edu, isso traria várias consequências... Deve ser coisa daquele ser! – tentei brincar para quebrar o clima pesado. O que você fala para alguém que acha que está doente?

– Você é um idiota! – Ela riu, e eu me senti um pouco melhor.

– Eu sei disso! Eu sou o Melhor amigo idiota da vida!

– Ah, isso é verdade. E eu adoro idiotices, logo eu te adoro! – Nós dois caímos na risada, mas minha preocupação ainda estava alta.


Corações tortos agora faz parte da antologia #OrgulhoDeSer da Rico Editora. O livro reúne 8 histórias, contadas por 8 autores diferentes que, juntos, representam a comunidade mais colorida do mundo. 

O livro já está em pré-venda e o lançamento marcado para o dia 5 de agosto às 13h na estande da Rico na Bienal Internacional do Livro - SP.

Espero todos vocês!