Ex Lupus

Ex Lupus

Ex Lupus

Lugar estranho, com gente peluda, com problemas de controle de raiva e muito, muito esquisita.

(Um tweet escrito por Elizabeth Bastos, pegando (descaradamente) emprestado algumas palavras do Legião Urbana).


Era uma manhã fresca na Tijuca e eu confesso essa coisa de espreitar nunca foi a minha. Eu me entediava com muita facilidade, mesmo tendo um foco exímio para investigação. 
O que eu estava investigando? Nenhuma ideia. Manu me mandou o endereço e uma frase pouco conclusiva: Resolva isso. Resolver o que? Respondi com direito a um emoticon de camarão.
O reboco destruído daquele prédio decadente? Claramente havia lugares piores para se viver do que o casarão construído no barro com bambu na divisa de São Cristovão e Maracanã. Eu estava começando a considerar aquela espreitada uma piada de mau gosto do meu amigo. Arrumei as minhas luvas e a gola do meu casaco de couro, me arrependendo de ter esquecido o meu cachecol, mas também não tinha como adivinhar que eu ficaria ali, congelando lentamente junto com a sujeira no beco e naquela caçamba de lixo esquecida pela excelente empresa de lixo do nosso bairro. Só que é claro que não. Foi quando aconteceu (adoro essas frases de efeito) e um uivo cortou a noite (odeio quando isso acontece). Lobos sempre barulhentos, e os meus instintos indicaram, adivinhem, para aquele prédio. Manu não era um idiota, afinal de contas.

Lobos não eram cuidadosos. Lobos não eram meticulosos. Lobos não eram silenciosos. Isso era uma qualidade de um felino, e Lobos, meus caros, eram caninos tão determinados em suas atitudes que eram irresponsáveis e tolos. Só um lobo pode ter propriedade para saber disso... O que não é mais o meu caso.

Eu sou o que a minha raça chama de Ex-Lupus. Ridículo, eu sei. Parece o nome de um portador de Lupus curado milagrosamente pelo poder da ciência divina, mas não era. Ex-lupus significa Ex lobo. O que aconteceu comigo é simples: eu perdi o que eles chamam de ‘dom’ e me tornei uma ‘impura’. Eu nasci com esse dom e ele foi retirado de mim, por Deus. É, Deus, o ser todo poderoso regente da Terra.
Aos meus olhos o que aconteceu vai bem além de uma simples atitude de um ser onipresente e onisciente. Além de uma postura irresponsável minha ou em respeito com as minhas raízes. Eu morri e quando voltei — o que aconteceu não muito tempo depois do meu funeral (sim, eu tive um e sim, foi ridículo pelo o que me contaram), — eu não tinha mais os meus dons.

Falando em termos técnicos eu sou uma ex-morta, ex-lupus e uma ainda, adolescente. Ou seja, eu tenho duas vezes mais rompante de irritabilidade, acredito firmemente que o mundo gira em torno do meu umbigo com piercing brilhante e sou apaixonada pelo Rafa Vitti.
E eu nunca me senti tão humana como nesses últimos meses.
Se é que fui algum dia...

Por mais louco que soe, acredite, existem lobisomens em nosso mundo – e eu lhe garanto se pegarmos o jornal, abriremos a nossa mente para um mundo bem mais insano. Existem poucos lobisomens, menos de uma centena pelo que tenho como conhecimento, e definitivamente ser lobisomem não é algo único. Tanto que existem bandos onde nossa raça se uniu, como uma espécie de família, buscando orientação e proteção. Alphas, ômegas, betas, leis... Toda essa babaquice facilmente encontrada no Google é real e existe há algum tempo, tipo, trezentos anos. O pessoal não é tão criativo quanto eu gostaria, mas as leis funcionam, como as hierarquias. Eu, por outro lado, fui contra todas as expectativas e como esperado, fui a rebelde do meu bando. Como disse, não existem muitos de nós, mas existem três pequenos bandos no Brasil: um na Amazônia, um no Rio e outro em São Paulo. Existem ômegas andando livremente pelo país? Sim, mas eles são vistos como estatísticas. Podem morrer na mão de algum caçador ou atropelado por um caminhão no meio de alguma estrada.

Eu pertencia ao bando de São Paulo. Eu, com todo o meu espírito de rebelde sem causa, acabei me aliciando a um grupo tão pacifico que parecia ter raízes diretas com o Vaticano. Culpo esse pacifismo para nos tornar um imã de problemas. O meu líder, Antonio só tinha um desejo: todos nós possuirmos uma vida segura com direitos iguais a qualquer ser humano. Que fofo, não é mesmo? NÃO! É claro que não. Alguns bandos discordavam dessa visão e alguns tentaram derrubar a liderança de Antonio. Ele era o Alpha e uma referência como líder, a outros bandos. É claro que isso era motivo de inveja e problemas. Lembra aquilo que eu disse sobre lobos não serem cuidadosos? Esse foi o primeiro erro do Antonio: o ego. Então em um desses dias, entre um problema e outro, tudo aconteceu.

Eu me meti numa encrenca, meu bando se envolveu para me proteger. Pensamos que tudo estava resolvido e BOOM. O conselho quis me renegar (outra categoria na constituição falha e hipócrita dos lobisomens) e Antonio me protegeu. Ele foi acusado de traição e acabou morto por isso, por aqueles que ele acreditou serem sua família. Minha culpa. Fui renegada. Isso não quer dizer que não ia me vingar pela morte dele. Investiguei, torturei e fiz coisas as quais me assombrarão pelo resto de minha vida... Uma coisa levou a outra e Marcos surgiu em minha vida. Ele era apenas um dos peões por trás de toda a merda manchando o Rio de Janeiro. Ele era o único peão necessário a ser derrubado para então Antonio ser vingado, mas não pude... Fui impedida de tal coisa por aquela família de sanguessugas. Outra história, outros heróis, bando de intrometido. Com isso Marcos me marcou como uma ameaça ao seu império. Inimiga pública. Meu rosto saiu nos noticiários, fui acusada de ser uma assassina psicopata e em poucos dias, eu teria algemas em meus braços... É, quem diria que teria uma adaga em meu coração.

Minha assassina foi Clarissa, noiva de Antonio e agora, viúva. Com um sai enfiado em meu coração e outro em meu plexo solar. O que é um plexo solar? Não sei, mas era isso que estava escrito no laudo do necrotério. Está aí o motivo para nunca mais eu tocar em um sai!

Morri. Renasci. E me tornei uma impura. Por quê? Rai tentou me salvar usando um recurso incomum e perigoso: sangue de vampiro.

Através do tempo existiu alguns poucos relatos de humanos e lobisomens que sobreviveram ao processo, mas era muito nebuloso. Sangue de vampiro tinha nutrientes regenerativos poderosíssimos, capaz de salvar a vida de um humano em minutos, deixando para trás uma sensação entorpecente como se tivesse tomado uma caixa de calmantes. Só que com um lobisomem isso era intensificado. Mortalmente.

Acontecia uma espécie de corrupção entre os genes, algo cientifico e doido que pouco me importo e o lobisomem que ingeria o sangue sofria uma espécie de envenenamento e lentamente tinha seu corpo devorado pela acidez do sangue, uma morte bem mais lenta e dolorosa. No entanto, Rai sabia que eu estava fadada a morrer de qualquer modo, como lobisomem por conta de uma hemorragia, logo, ele não podia deixar de arriscar todas as cartas que tinha em suas mãos, para tentar me salvar. Eu estava morta, pelo sai ou por envenenamento. No lugar dele, eu o salvaria também sem pestanejar. Um mundo sem Rai seria muito entediante.
Por alguma razão, eu vivi.

Como acabei me tornando uma ex lupus? São perguntas que troquei por uma boa garrafa de vodka, surrupiada do armário da minha tia, uma cartomante velhaca e doidona com uma lojinha caindo aos pedaços no centro do Rio.
Fim da história.

Meu antigo bando, Clarissa e Marcos acreditam que eu estou morta e por enquanto, eu quero que ao menos o primeiro continue assim... Vamos dizer que esse é o meu joguinho pessoal. Eu tenho informações o suficiente para colocar Marcos atrás das grades pelos próximos 350 anos, temer que estou viva ou ele está sendo assombrado por um espectro pérfido da minha pessoa será o mais perto de terror que o homem sem medo sentirá em sua existência horrorosa.

No momento me instalei no Rio de Janeiro, no Casarão. É assim que o bando de Rai chama a base onde eles vivem, treinam e protegem as criaturas sobrenaturais e humanos na região com ajuda da Família Oliveira, os sanguessugas da região. Manu, o braço direito de Rai é um cara esperto, sabe se virar com o que tem, é um gênio da investigação e é bom na briga. Se ele é um bom amigo para Rai é um bom amigo para mim e eu não estou numa situação de abrir mão de ter amigos. Rai, líder do bando é meu amigo há mais tempo que eu posso contar ou quero. Nossas famílias eram amigas, o que acabou por naturalmente nos unir e se na nossa infância éramos próximos, na nossa adolescência esse link tornou-se mais forte, até antes de vivenciarmos o ritual da transformação na nossa adolescência. Rai focou-se em seguir os passos do pai para tornar-se um líder e eu... Bem, eu queria me tornar uma viajante. Continuamos amigos. Internet estava aí para auxiliar nisso. Entre mensagens e vídeos acompanhamos as nossas jornadas, e quando um precisava do outro dávamos o nosso jeitinho de estar lá um pelo outro, como quando os nossos pais morreram no confronto das divisas e precisávamos restabelecer a segurança entre nós e os humanos... Rai garantiu um lugar para mim no seu bando, mas eu não gostava da ideia de ficar em um lugar só. Tudo bem ir e passar um tempo.

Eu e minha irmã Teca passávamos a maior parte dos últimos anos rondando em um carro pelo Brasil em busca de conhecer tudo o que a televisão não mostra e dali, acabamos por nos estabelecer em São Paulo, e o resto você já sabe...

Eu não me misturava com o bando de Rai e eles não se misturavam comigo. Podia ser por respeito a minha amizade com o alpha, medo de quem eu era, o que fosse... era melhor nos mantermos distantes.

O que estou tentando dizer com tanta dificuldade é que eu era uma lobisomem, conhecida pela minha raça como glabro. Grande, raivosa, musculosa como a Xena e peluda como o Tony Ramos. Eu era especial. Não sou mais. Agora sou só uma garota andando nas sombras do Rio de Janeiro com uma lamina enfiada no bolso e espiando de soslaio a cada aproximação suspeita de algum humano. Ah, sim, não perdi essa mania de chamar os humanos de humanos. O meu trabalho agora como impura era tentar consertar os meus erros. E era por isso que Manu me enfiou nessa provável encrenca.

Selvagens e controlados pelos seus alphas, um bando jamais faria um incursão sem autorização de seu líder em um Estado ou Cidade sem autorização do bando local ou do ômega dominante, muito menos andaria transformado num bairro residencial a olho nu. E era exatamente isso o que acontecia aqui. Manu devia estar trabalhando com Rai nessa e eles devem ter escutado uma boa dica e eu lhe devia um pacote de doritos e um quadrinho daquele Capitão alguma-coisa por conta disso.

Como busco consertar os meus erros, Marcos era a linha da chegada, mas eu tinha mais de 300 km de percurso para passar, obstáculos para saltar, explodir e destruir, até alcançar ele e o meu prêmio: o seu fim. Todavia como todo bom vilão que se preze, ele é intocável. E o meu plano era conquistar informação e eu precisava saber exatamente o que Marcos, os seus aliados e inimigos estavam aprontando. Por que isso é importante para pegar o cara, se você disse que tem tantas provas, Lisa? Bom, quando você vive num mundo corrupto, onde a mídia transforma uma vitima em culpado e um culpado em vitima através de um cabeçalho, eu preciso ter todas as cartas +4 antes de ganhar essa partida de Uno.

Sem cerimônia alguma entrei pela portaria daquele prédio caindo aos pedaços. Sempre eles caem aos pedaços. O porteiro não se encontrava ali e talvez, esse tenha sido um daqueles dias de sorte pouco vividos por eles, reles mortais. O elevador estava parado no quinto andar, então tomei as escadas, por saber que o eco me ajudaria a escutar melhor e os basculantes ali emperrados eram uma rota de escapatória num caso de emergência.

Uma coisa precisa ser dita quanto aos lobisomens. Em sua forma animalesca, além da força sobrenatural e regeneração, eles têm uma audição e olfato impecável, logo eles podem sentir a presença de qualquer humano a quilômetros de distância, em sua forma humana, é mais um entre o gado humano, com fome de carne (humana, no caso). Se ali haviam lobisomens transformados, nesse instante, era para eles estarem em cima de mim como cachorros no cio, mas eu estava completamente sozinha naquele mausoléu. Estariam eles preparando uma emboscada? A cada novo andar eu buscava por um indicio de presença lupina ali. Como? Rosnados, pequenos olhos me espreitando prontos para me atacar e paredes sendo arrancadas por garras buscando me alcançar... Mas nada.

Meus olhos caíram sobre a placa do quinto andar e respirei fundo deferindo cuidadosamente os meus passos até a porta para o corredor. Com a lamina em punhos, abri o mínimo possível da fresta encarando o corredor. E ali estavam eles.
Era o bando de Clarissa. Eu contei que ela demandou e criou um novo bando? Então, dizem os boatos que ela fez isso sem nem esperar pelo corpo do noivo esfriar na cova.
 
O que eles estavam fazendo ali, eu não sabia dizer, mas os betas estavam transformados em pequenos lobos, impacientes e barulhentos. Deveriam ser recém-criados. O ômega e braço direito de Clarissa parecia um cachorrinho carente de atenção do seu dono e ele era gloriosamente um Crino, um tipo raro e muito, muito forte, para o meu azar. E lá estava ela, Clarissa. Ela deixou o apartamento negando com a cabeça e sussurrando algo ao Crino, atrás de si um homem negro corpulento e forte, parou respeitoso ao seu lado.
Nunca o vi em toda a minha vida, mas ele era um deles, com toda certeza. Clarissa não andava com humanos. Ela os comia.
 
E é obvio que não escutei nada dito por eles e eles não sentiram a minha presença. Ser uma impura tinha suas desvantagens, mas não ter um cheiro característico era de longe, uma das melhores vantagens de ter sido transformada naquilo.
Os lobos estavam atentos a qualquer aproximação e eu estava bem tentada a ir embora. Eu encarava os dois lobinhos, agora o Crino e sabe-se lá o que aquela cópia do Dwayne Johnson poderia ser? Nem por um milhão de reais eu ficaria ali para descobrir. E como disse antes: eu tinha um plano de manter Clarissa as cegas quanto a minha sobrevivência, então definitivamente continuar ali não era mais uma opção, era uma questão estratégica. O que quer que eles estivessem procurando naquele apartamento, eu desvendaria depois. Eu estava prestes a fechar a fresta e me mandar, quando Clarissa fez algo que eu não esperava. Ela apontou a maçaneta para a cópia do Dwayne Johnson e fez um sinal para o Crino lhe seguir em um sussurro incisivo e ordenou a ‘Breno’ a acompanhar e o lobo marrom sujinho lhe seguiu, para o elevador.
Ela estava indo embora.
Ou talvez fosse uma saída rápida e ela retornaria em breve, o que me daria poucos minutos para averiguar o apartamento. Quem se importava contanto que eu conseguisse entrar naquele apartamento e descobrir o que diabos Manu quer que eu veja ali! Clarissa e o seu bando na minha nova cidade? Busquei sinal no celular, mas adivinha? Aquela operadora estava sem sinal. Ele sabia que se Clarissa estava envolvida em algo obscuro, era minimamente interessante da minha parte ter uma noção sobre o que ela estava envolvida e a oportunidade estava ali.

Esperei a porta metálica fechar inclinando levemente minha cabeça para o lado, assistindo o rosto de Clarissa desaparecer. Eu tinha duas opções: eu podia sair gritando como Mel Gibson em Coração Valente, fazer o lobinho dormir com um soco e depois, sair a la Ragnar do Vikings atacando o Dwayne Johnson ou eu podia ser furtiva.
Fiquei com o último pelo simples prazer de ser foda.

Primeira lição sobre como deter um lobo em forma lupina: Você pode sim usar da violência gratuita. Inferir uma adaga nas partes mais sensíveis de seu corpo poderá retardá-lo por um tempo, mas ele vai regenerar, e rápido, mas se você mantiver a adaga, ele vai ficar catatônico e é capaz de voltar à forma humana em alguns segundos. Contudo existem formas menos evasivas de conter um lupino. Wolfsbane é uma delas. Wolfsbane é uma ervinha roxinha, delicada e mortífera para um lobo. Moa ou dilua em liquido e use sem pena.
Eu só precisava de alguns segundos.

O Dwayne Johnson brasileiro retornou para o apartamento e fechou a porta. Eu me vali daquela oportunidade.

Conferi o meu cinto de utilidades. Eu não tinha muito, mas acreditava que aquilo era o suficiente para aquela pequena incursão. Sem medir esforços, bati meus pés contra o chão, como quem esta subindo rapidamente os degraus. E adivinha, o lupino tolo virou o focinho para a porta do corredor. Rapidamente ele se moveu e eu também. Tirei de dentro do meu casaco um pequeno crossbow e apontei para cima, a cordinha desceu em linha reta, utilizei a parede como impulso e sustentei meu corpo, graças aos meus braços. Ele só não podia demorar muito... E para a minha sorte, ele veio rápido e caiu no conto!
Ele passou direto, sem olhar para cima. A porta fechou e eu larguei a corda, caindo agachada. Ele virou e o meu spray 100% eficaz de Wolfsbane foi direto em suas retinas (vendido exclusivamente para item de colecionador ou não no Mercado Livre). Não nego minha pena por conta dos seus gemidos de dor, até que ele se transformou em humano, curvado em posição fetal cobrindo suas partes nuas dos meus olhos (amém!). O que posso fazer? Ele escolheu o bando errado para se aliar. Ele devia gostar do perigo e esse era o meu nome do meio.
Wolfsbane ficava no sistema de um lobo por pelo menos, oito horas e seus efeitos eram no mínimo, horripilantes: dor, paranoia, alucinações, enjoo e esse era o inicio da onda de ácido bacana que ele iria viver...

Seguindo... Sabendo bem que após a minha demonstração de sapateado, o querido Dwayne Tupiniquim deveria estar em total fúria buscando pela minha cabeça, e logo me resta apenas duas opções novamente: Ser Mel Gibson com a cara pintada ou furtiva como uma ninja.

Arranquei a flecha do teto, por que não estou em condição de desperdiçar armamento; Desci as escadas saltando do meio para o chão, rolando para não quebrar os meus joelhos; Deferi a flecha de metal contra o vidro do basculante e escutei o som de algo batendo bruscamente contra uma parede. Um corpo? Não ia ficar para descobrir. Sai pelo basculante e me equilibrei, rapidamente pegando o crossbow e prendendo a flecha no gancho, atirando contra o chão da escada de emergência. Segurando firme a corda me lancei no ar, cruzando no mínimo uns três metros, caindo duramente no chão entre a escada do andar de cima e de baixo. É claro que doeu e também perdi aquela flecha. Antes a flecha do que a vida. Por que dizia isso? Pois vi a janela sendo destruída por uma mão com um tamanho suficiente para segurar minha cintura numa fechada só. Aquilo estava bem longe de ser algo de Deus. Finquei meus tênis no chão e me ergui em um pulo, abrindo a porta da varanda com tudo, entrei no apartamento com um olhar urgente.
O cheiro de cachorro molhado estava penetrado em cada canto daquela sala. Podia ser vestígio dos invasores, mas pelos meus anos como lobisomem e vivendo com dois bandos distintos, eu podia garantir que quem eles procuravam ali, era como eles. Seria uma intriga entre bandos? Interessante.

Buscando qualquer sinal de violência, sangue, bagunça, comida ruim entregue na noite anterior, assinatura de revista duvidosa ou qualquer coisa que pudesse apontar para um motivo claro para Clarissa e o seu bando estarem ali.
Nada.

— Tem alguém aqui? — Perguntei firme, mexendo rapidamente por entre as papeladas na mesa de centro, encontrando algumas revistas, jornais antigos e algumas contas abertas e claramente não pagas.

Uma lata de refrigerante vazava no chão com um sanduiche meio devorado, o que apontava para a presença recente de alguém. Será que a pessoa conseguiu escapar a tempo?

Um estrondo no corredor do apartamento atordoou os meus sentidos. Desabei no chão, sentindo meu ouvido zumbir com o som da água deixando os canos rangendo pela sua destruição tardia e o cheiro de gás corroendo o meu ar. Isso era novidade.

E o que podemos falar do nosso The Rock? Sabe o Golias? Então, ele era o Gigante do Golias. Ele não tinha a tal da minúcia. Ele simplesmente abriu um buraco na parede do apartamento e entrou! Assim. Para que porta? Ah, e sabe a sorte? Foi embora da minha vida. Ele também era um Crino. E olha o bicho era horrendo! Eu não sei o que aconteceu, mas a genética dele deu muito ruim. Ele tinha muito pelo em tufos negros por todo seu corpo, mas seu rosto era deformado. Não lembrava em nada um lobo, mas também não sabia dizer o que lembrava. Era como se ele tivesse sido afogado em ácido, mas isso não explicava o porquê dele não ter cicatrizes em sua forma humana. De qualquer forma, eu ia piorar a situação para poder me salvar. O apartamento era pequeno o bastante para em duas passadas ele conseguir chegar até mim e me dividir em duas, então eu atrapalhei o caminho.

Empurrei a mesinha de centro para entre nós, isso me deu impulso e ouvi suas garras arranharem o chão pesadamente e suas garras prenderam em minha cintura, ou seja, não adiantou de muito. Ele me ergueu no ar como se eu fosse um daqueles pesos de levantamento e me tacou contra as paredes do corredor principal, como se eu fosse a Emilia, do Sitio do Pica Pau e no processo, ele arrancou não apenas pedaços de minha camisa e pele da barriga, mas rasgou meu casaco de couro. Tudo bem em tentar me matar. Eu posso ser bem irritante e isso é compreensível, mas destruir o casaco da Teca? Ele pediu pela minha ira.

Normalmente eu era muito sábia em minhas decisões, logo dificilmente você me verá fazendo uma merda dessas sem ter um bom motivo. Eu tinha dois ali: primeiro ele rasgou o casaco da minha irmã e segundo, eu não ia morrer nas mãos dele. Spray de Wolfsbane não era a única coisa a qual eu era boa preparando, eu também era excelente com bombas. E aquele cilindro roxo entre os meus dedos era um especialmente potente. O Crino batia suas patas até o meu alcanço e eu arranquei o pino e rolei o cilindro no chão... Busquei impulso e desesperadamente corri por proteção no primeiro buraco alcançável: um quarto. Fechei a porta e entrei no armário de roupas, trancando a porta para diminuir o impacto e BOOM!

Tá, essa onomatopeia não foi impactante.
Na realidade, só estando lá para entender como o som ecoou estrondosamente. O varal da roupa caiu em cima de mim, como várias roupas e outras coisas não identificáveis por mim. Ouvi o som dos escombros, mas definitivamente houve dois sons que atraíram a minha atenção: um clique metálico e algo pesado desabando no chão. Torci para ter sorte e ser o Crino. Engatilhei meu crossbow, fechei meu punho agarrada a lamina e sai do armário.
Sem Aslam e sem intenção de revelar a minha sexualidade ao mundo, pois quem se importa, não é mesmo? De qualquer forma, o quarto estava completamente destruído e não esperaria menos do resto da casa. Com toda certeza a policia foi acionada por algum morador e agora eu tinha menos tempo do que antes. O cheiro de lobisomem era mais forte, o que me levou a crer que a pessoa dormia ali. O que eu procurava antes? Um computador, documentos, celular, um cofre, um gato, qualquer coisa que pudesse significar alguma coisa de valor para Clarissa. Sabe o que encontrei? Um jaleco branco, uma bolsa meio aberta e convidativa. Fuxiquei, em busca de uma carteira e um crachá caiu nos meus pés. Diana Salazar era médica residente de um hospital universitário próximo dali e tinha uma foto 3 por 4 horrível. Um porta-retrato na mesinha de cabeceira atraiu minha atenção. Uma garota de cabelos negros, olhos grandes e felizes e pele parda abraçava carinhosamente um homem negro alto, forte e sorriso caloroso. Esse homem era ninguém mais ninguém menos que Rai. E não era só isso... O olhar dela era estranhamente familiar. Eu não era boa com fisionomias, mas olhares e bundas eram meu ponto forte.

Então, Manu pediu para ela averiguar aquela vizinhança por que Rai tinha uma namoradinha lobisomem? Uh, ela ia infernizá-lo a ponto dele liberar os drinques da boate de graça para ela. 

Senti um cheiro terroso dominar os meus sentidos. Não estava sozinha. Me virei e me deparei com a garota da foto. Os olhos lupinos brilhavam por conta de lagrimas me olhando, a mão repousada nos lábios para abafar o seu lamento e vestindo nada mais do que um jeans surrado com uma flanela de estampa azulada. Até aí, uma vitima, então eu vi suas unhas, ou melhor, garras dignas de um velociraptor. Vitima é o caramba! Apontei a crossbow para a garota e defensiva, ela imediatamente ergueu as mãos e me lançou um olhar dominado por desespero e suplica.

— Por favor, não, não... Eu não estou com eles. Essa casa é minha! — Ela sussurrou aflita, tateando o parapeito da janela atrás de si o que me fez sustentar a mira do crossbow. Ela apontou para o porta-retratos em minhas mãos. — Eu vi o que você fez. Você não está com ele. Quem te mandou aqui?

A garota era esperta. Isso não respondia as minhas perguntas.

— De onde você conhece ele? — Apontei para Rai na foto. Não disse seu nome temendo dizer mais do que devia. A garota engoliu em seco. Não tínhamos tempo para receios. — Olha, eu conheço ele.

— Rai te mandou aqui? — Ela sussurrou com os olhos brilhando em esperança. Aquilo me desconcertou. Confiei em sua reação e assenti.

— De certo modo.

Cecília e os seus paus mandados estavam atrás dela ou procurando Rai? Pela preocupação estampada na cara da garota eu não sabia muito bem como deduzir as suas emoções. Será que Manu me mandou ali para garantir a segurança do líder do bando ou... Para proteger a garota? Mas, o que aquela lobinha saindo dos 25 anos podia ter de especial para Cecília?

— Ele está aqui perto? — Neguei em silêncio e ela uniu as sobrancelhas, refletindo. — Precisamos encontrá-lo.

Precisavam mesmo, ela tinha algumas perguntas para fazer e socos para dar nele.

— Onde você estava? — questionei com um olhar suspeito sobre ela e atenta a qualquer movimento surpresa.   

— Quarto do pânico. — Ela apontou para uma porta metálica semiaberta escondida pelos panos da cortina de renda e a base do armário. Eu conhecia aquela construção. Rai tinha uma no casarão para os betas recém transformados. Era uma passagem dolorosa e violenta, só metal e amarras seguravam alguém nesse estado. Sem conotação alguma sexual aqui. — A trava estourou com a explosão. Eu definitivamente vou querer reembolso por isso! — O que o que o que? O meu olhar fez a altivez dela evaporar.

— Se a gente conseguir sair vivas daqui... — debochei com descrença, atinando a minha audição, mas por algum motivo, ela retornou a sua reles humanidade, nada bem vinda.

— Aquela coisa sobreviveu à explosão? — A garota levantou e diminuiu a nossa distância, o que me fez olhá-la de cima abaixo. Ela vivia em um mato ou ninguém a ensinou sobre círculo pessoal?

— Provavelmente. — Não era de admirar, mas com toda certeza, ele ia estar bem ferido por conta da explosão misturada ao gás escapando. Morrer, morrer? Eu duvidava disso.

— Ele vai me pegar! Rai me avisou que isso aconteceria. Eu quis seguir com a minha vida e deu nisso. — A garota bradou levando a mão ao coração e eu conferi o que poderia nos ser um trunfo em meu cinto de utilidades. — Ele vai me pegar e levar para ele... Eu não vou... — Ela estava hiperventilando e eu revirei meus olhos. Não seria mais útil se ela usasse essa energia para não sei, elas escaparem? — Eu não tenho onde me proteger.

É, mas ele não sabe disso. Olhei para a porta do quarto de pânico semiaberta e a garota tremula a minha frente. Por algum motivo, eles não me detectaram pelo meu cheiro, mas isso claramente foi diferente com ela. Por isso Clarissa mandou o lupino e o Dwayne ficarem no apartamento. Uma hora a garota teria que sair do quarto do pânico e eles estariam esperando por ela. Fiz um sinal para a garota ficar em silêncio e movi meus lábios proferindo: Eu tenho um plano.

Na realidade, tudo que eu tinha era o número um. Um plano, um quarto do pânico, um esconderijo, uma bomba de estilhaço e uma emboscada. Mandei a garota arrancar a blusa de flanela, como eu esperava encharcada em suor e joguei dentro do quarto do pânico. A garota parecia ter perdido a capacidade de raciocinar, mas pelo menos ela ainda sabia obedecer. Mandei, muito sem vontade, que ela vestisse meu casaco e empurrei ela sem explicações para dentro do armário. Entrei também e fechei a porta deixando uma fresta minimamente aberta.

O quarto perdeu a sua porta. Agarrei a bomba de estilhaço pronta para arrancar seu pino, segurando o braço da garota com firmeza. A pisada do Crino era pesada, o seu rosnado furioso, um pouco misturado com resmungos de dor. Ele tinha camadas avermelhadas por toda a sua pele, marcas de queimadura do que parecia ser terceiro grau. Parecia bem feio, mas não tanto como ele. Ele virou seu rosto bem para o armário e a garota soltou um silvo. Tapei a boca dela e rezei para ela entender que um vacilo agora seria igual ao seu coração na mão dele. O armário balançou por muitos centímetros, por um segundo pensei que ele tinha descoberto nosso esconderijo, mas não, provavelmente foi seu corpo pesado batendo contra o móvel. Ele seguiu. Seguiu por toda a extensão do quarto e alcançou exatamente onde eu queria. O ruído da porta metálica irrompeu e ouvi seus passos ecoarem no quarto do pânico. Mantive a garota dentro do armário e sai, parando a poucos passos do Crino.

Ele estava segurando a blusa da garota, farejando. Ele não me viu. Não me sentiu. Eu era invisível para sua raça. Fabuloso.

Fiz um barulhinho com a minha garganta e o Crino virou para mim rosnando furiosamente.
Joguei a bomba de estilhaço.

Tick tick boom. — Fechei a porta com um chute e o armário veio com tudo contra a parede, fechando a passagem. Arregalei os meus olhos encontrando a garota afastando as mãos da madeira. 

— Eu pensei que isso fosse ajudar — Ela disse esbaforida, afastando algumas mechas dos seus cabelos do rosto. — Ajudei?

— Foi fofo da sua parte, mas não vai rolar — respondi negando com o indicador, correndo e agarrando a sua mão, disparamos para bem longe dali.

O corredor estava completamente destruído. Era uma mistura de escombro, terra, água e o cheiro forte de gás. Eu precisava de mais. A garota murmurava o que iríamos fazer agora e eu honestamente não tinha um grande plano. Na realidade, era uma ideia bem merda. Ou eu fazia isso ou aquela coisa iria me dividir em pedacinhos e conseguiria ter posse dela, como parecia tanto desejar. O som de madeira e metal sendo destruído ecoou e o tempo de pensar acabou.
Acendi todas as bocas do fogão, principalmente o forno. Puxei a garota pelo antebraço e ela berrou, abaixando a tempo de ser acertada por um escombro atirado pelo Crino. Vi de relance sua figura alta e corpulenta, ele rosnou alargando suas garras bem afiadas para arrebentar minha linda barriguinha e não me prendi nessa ideia. Empurrei a garota na minha frente para a varanda e ela parou de supetão na escada de incêndio. Oh, ela não tinha a menor ideia! Conferi o meu crossbow e implorei para essa belezura não me decepcionar. O Crino vinha em linha reta e eu também joguei algo ao seu horizonte. Um isqueiro aceso. Virei e a garota não parava de gritar o tão imbecil àquilo era e eu estava pensando em jogá-la lá de cima. Bom, era quase isso que ia fazer mesmo. Atirei a flecha certeiramente para um pedaço de concreto do prédio à frente. Sorri de lado ao ver a corda ficar retinha e bem sustentável. Na pior das hipóteses? Morreríamos na queda. Na melhor? Voaríamos a céu aberto.   

— Se segure em mim! — Ordenei, agarrando a cintura da guria e assisti o isqueiro tocando o chão e lentamente as chamas acendendo em labaredas incontroláveis. Quando chegasse ao fogão, a coisa ficaria louca!

— O que? O que você esta fazendo? Você vai matar a gente! — Ela berrou desesperada no meu ouvido e agarrou as minhas gordurinhas na minha cintura.

— Se tivermos essa sorte... — Peguei impulso e nos joguei no ar. Pode chamar de efeito a La Michael Bay, mas tudo foi pelos ares exatamente enquanto ganhávamos os céus da Tijuca dependuradas feito Tarzan e Jane no meu plano improvisado. À distância vi o meu ônibus para o Méier passando. — Merda, vou chegar atrasada!

Batemos firme contra a parede e a garota quase se soltou do meu corpo, o que é claro deu mais motivos para ela gritar.

— Faz um favor para mim? — Eu pedi comprimindo um sorriso transformado em um ar diabólico. — Cala a boca. — Ela não ficou muda, como até pareceu parar de respirar. — Obrigada. — Sorri com gratidão e lancei um olhar para a janela mais próxima, encontrando um escritório vazio. Seria ali mesmo. Na duvida, se alguém nos encontrasse entrando lá, o natal chegou mais cedo ou éramos viajantes no tempo. — Agora coloque seu pezinho ali no parapeito e entra no escritório. — Indiquei com uma calma longe de ser natural.

— Pode ter alguém lá... — Ela choramingou tentando esguelhar um olhar no escritório. 

— Então tá. — Dei de ombro, sentindo os meus ombros começarem a queimarem pelo esforço excessivo dos meus músculos. — Vamos ficar penduradas aqui.

— Sério? — Ela acreditou. Aquela garota tinha a ingenuidade e teimosia de uma criancinha de três anos. Nossa, como sou sortuda! E sarcástica.

— Claro que não! — Bradei gesticulando internamente em horror a lerdeza daquela garota. — Entra antes que eu te jogue, garota.

Ela me obedeceu. Muito sem jeito ela conseguiu colocar o pé no parapeito e agarrada no mármore com suas garras, ela quebrou o vidro e entrou no lugar esquecido pelo tempo. Balancei de um lado a outro e alcancei o parapeito, entrando com dificuldade e para piorar, ainda me desequilibrei e cai de cara no chão de taco.

— Eu estou bem. — Revelei com a cara amassada no chão.  

— O lugar parece estar fechado. — Levantei os meus olhos, escondidos pelos meus cabelos. A garota conferia o cômodo lançando um incomodo olhar para as suas garras ainda expostas. Ela deveria ser uma novata. Só eles demoravam a controlar os instintos básicos, como a exposição das garras, as orelhas pontudas e o controle dos seus sentidos aguçados. No entanto, novatos tinha dificuldade de controlar todo o processo de transformação, o que só podia significar que ela era uma nascida: um dos seus pais ou ambos tinham o gene de lúpus em seu código genético. Ser lobisomem era parte dela.   

— Esse prédio é abandonado — revelei, levantando a cabeça e o meu tronco. — Pode ficar tranquila quanto a isso. — Gesticulei para ela se afastar da janela e recostei as costas na parede, me dando o direito de respirar. — Não estamos quebrando nenhuma lei. Pelo menos não aqui.

— Será que ele morreu? — Ela esgueirou um olhar por uma brecha da janela batucando a sua garra no mármore.

— Eu não sei você, mas eu não vou ficar esperando ele dar um movimento de sobrevivência. – Levantei com um impulso, limpando as minhas mãos nas laterais dos meus jeans e caminhando para a entrada do escritório. — Ele não era o único atrás de você, então eu aconselho a sair desse perímetro o quanto antes.

Ela me seguiu prontamente. Com a porta trancada, peguei um grampo no meu bolso para abrir a tranca, mas a garota não mediu esforços e arrancou a maçaneta e uma lasca da madeira. Mas, abriu a nossa passagem. Suspeitei com isso que ela conhecia Manu. Só ele era um bruto. Aquele era um antigo prédio comercial, o corredor era pequeno e levava direto a um elevador antigo e desligado, como também uma escada de emergência. Segui direto para o último, guiando na minha frente a garota, por não querer perdê-la da minha vista.

— O nosso cheiro... — ela sussurrou soando reflexiva.

— Fica tranquila. — Esbaforida, buscando seguir o seu descer ágil demais para a minha resistência humana. — Eu tenho uma desconfiança. Fica com o meu casaco e estaremos bem.

Eu não era tola em revelar a minha vantagem contra qualquer lobisomem, ainda mais uma novata ainda aprendendo a controlar os seus sentidos.

— Para onde vamos? — Ela arqueou as sobrancelhas.

Abafei uma gargalhada. 

— Eu não sei você, mas eu vou para o lugar mais movimentado que conseguir encontrar num raio de dois quilômetros. — Falei, arqueando uma sobrancelha.

— Posso ir com você? Eu preciso encontrar o Rai.

Parei de caminhar e ela percebeu um pouquinho mais a frente, me olhando com inquisição. 

— Vai me obedecer? — Levantei o meu queixo, semicerrando um olhar analisador sobre a sua figura.

— Vou — Ela respondeu prontamente e duvidei muito de sua postura.

Quem em sã consciência é tão passiva com alguém que nem conhece?

— Ótimo. Você iria comigo de qualquer forma ou Manu acabaria comigo. — Bati as palmas da minha mão, levantando um dedo. Ela arqueou as sobrancelhas e abriu os olhos, mas ela pensou duas vezes e abaixou o olhar, crispando os lábios. Alguma coisa estava passando na cabeça dela. — Então primeira regra: nada de choramingar, gritar e muito menos surtar. Eu não tenho paciência nem tempo para lidar com ataques emocionais agora. — Levantei mais um dedo. — Segunda regra: Coloca seu celular no silencioso. Nada de vibrar, nada de sons engraçadinhos. Um barulho e eles podem te achar. Nos achar, sacou? — Levantei mais um dedo e arquei as sobrancelhas. — Terceira regra: Nada de se transformar agora. — Apontei para as suas garras e curvei um sorriso. - Entendeu?

— Eu não controlo isso... — Ela mostrou as mãos com um olhar pesaroso. — Muito bem.

— Eu percebi — Debochei, revirando os olhos. — E as outras pessoas também irão, por isso, se acalme, respire fundo e esconda essas facas afiadas nos bolsos. Só não rasga meu casaco ou eu rasgo você. Já tenho problema demais para me preocupar com as pessoas tirando fotos da Moglia, a menina loba no meio da Tijuca.

Tadinha. Ela estava apavorada e assentia. Duvidava que ela estivesse me escutando ou se quer compreendia as minhas palavras. Eu também não facilitava para ela.
Retornei a caminhar seguida por ela em meus encalços e isso estava começando a me dar nos nervos.

— Qual o seu nome? — A voz dela soou um pouquinho altiva atrás de mim.

— O que? — Meus olhos rodopiaram em desagrado.

Nós tínhamos que fazer isso?

— Nós não nos conhecemos? — Mesmo? Mesmo? Olhei para aqueles olhos grandes e pidões e bufei. E, o sentimento era recíproco. Ela não estava colhendo mole para fazer ficar duro. Tínhamos que fazer esse lenga lenga ou ela não confiaria em mim e meteria aquelas garras na minha garganta.

— Elizabeth. — Retornei a descida, enxergando uma luz a dois níveis abaixo; uma saída.

— Lisa? — Ela parou de caminhar, me olhando descrente. Travei meus passos e assenti. Ela abafou uma risada. — Você não deve lembrar de mim, mas você cuidou de mim quando eu era criança. Foi um dos melhores fim de semana da minha vida.

— Eu estava alcoolizada?

— Não sei dizer. — Ela inclinou a cabeça, alargando os lábios naquele sorriso. Grunhi. —Diana, eu sou a Diana.

Ela podia ser a Maria Bethania, eu não a reconhecia.
Não... Espera. Ela era ‘a’ Diana.

— Você... — Apontei para a sua altura não sabendo como colocar em palavras. — Nossa. Eu estou ficando velha. Quantos anos você tinha na época que isso rolou?

— Oito. — Ela comprimiu os lábios e o seu olhar antes vigoroso, agora entristeceu. — Foi quando os meus pais morreram.

— É, eu lembrei agora. — Rai pediu para que ela cuidasse da menina, por ela ter jeito com criança. Ele deveria estar desesperado para dizer isso. Manu queria ficar com a irmã, mas na época ele já era um dos melhores no fronte de ataque. Sem ele lá, Rai e os outros do bando de seu pai e do bando da família de Diana morreriam. Eu fiquei de babá e os meus amigos foram para a guerra. Os pais de Diana e Manu morreram. A mãe de Rai ficou cega. A família Oliveira retornou soberana entre os vampiros da região e querendo vingar todas as perdas no lado da sua família e entre os lobisomens. Perdemos entes queridos naquela batalha, mas ganhamos aliados para a vida toda.

— Você não estava estudando em São Paulo? — Essa informação era um pouquinho velha. Tipo, uns três anos. O que ela sabia era que Manu se mantinha distante da irmã para protegê-la. Ele gostava de estar no meio das badernas, das brigas e conflitos entre bandos e tê-la por ali só a colocaria em risco de acabar sendo uma isca. Rai, por outro lado, não gostava nada desse distanciamento, sempre teve um instinto protetor por Diana, pelo que me lembrava, só que ele podia considerar Diana uma irmã, mas ela não era.

Sua palavra calava quando a de Manu era pronunciada.

— Eu me formei, a uns dois anos. — Ela uniu as sobrancelhas. — Escolhi fazer residência aqui no Rio, para ficar perto do meu irmão e também por conta da minha transformação. Não queria passar por isso sem ele e o Rai. — Assenti, descendo os degraus. Ela estava na cidade a um bom tempo. Às escondidas. E Rai e Manu sabiam disso. Por que eles não me contaram? Não era como se eu fosse intima dela ou algo assim para precisar saber em primeira mão, eu só não esperava que eles tivessem segredinhos de mim. O que só me faz pensar que talvez, Cecilia não estivesse buscando por Rai coisa nenhuma e quer mesmo é Diana, mas agora por que ela iria querer a esquilinho assustado? — Manu não gosta muito disso. — Manu não gosta de nada. — Na realidade não gosta da maioria das minhas escolhas, mas... Como você sabia que eu estava aqui e que estava em perigo?

Era por isso, exatamente isso que me impede de ter uma boa relação com os humanos. Eles não querem saber só o seu nome, mas sua idade, sua ideologia religiosa, sexualidade, se prefere Game of Thrones ou The Walking Dead e quando eu vejo, ela está me adicionando em todas as minhas redes sociais e vasculhando toda a minha vida, me tratando como a sua melhor amiga, quando eu, se quer queria saber o nome dela.

— Garota, você é movida a bateria? — Questionei, conferindo pela brecha da porta algum segurança ou câmera de segurança. Não encontrando nada preocupante, resolvi diminuir a tensão palpável no ar. Carol parecia prestes a subir pelas paredes, coçando as mãos com as garras e possuída por aquele olhar arregalado. — Ok, vou ser boazinha e responderei a sua pergunta: Manu me deu esse trabalho. Ele não me contou nada sobre, pediu para verificar a área e retornar com um relatório. Acho que o relatório é você.

— Você matou um Crino — ela sussurrou como se fosse um assunto proibido, com um sorriso escapulindo do canto dos seus lábios. — Rai diz que eles são indestrutíveis.

Era verdade. Os Crinos eram conhecidos como uma raça forte, letal e praticamente, imortal. Tanto que era comum eles crescerem em seus bandos como braço direito do líder ou seguranças.

— E não só isso... ele estava com aquela mulher. — Arquei uma sobrancelha. Agora estamos falando sobre algo interessante. — Ele deveria ser do bando dela. Se ele morreu, isso pode causar problemas para o Rai.

— Não sabemos se ele morreu. — Outra verdade, a qual eu não buscava por comprovações. — Qual é a sua relação com a Clarissa?

— Clarissa? — Ela enrugou o cenho, confusa. — Quem?

— Ruiva, um metro e meio de altura, um gênio digno do capeta — descrevi, arqueando as sobrancelhas. O tico e o teco de Diana pareciam ter desistido da vida. — Não? — Meneei com a cabeça negativamente. — Tudo bem. — Gesticulei em concordância e resolvi mudar de estratégia. — Vamos para o casarão, lá Rai nos dará as respostas que buscamos, nem que eu tenha que arrancar dele.  

— Eu preciso ligar para o Matheus antes. — Ela fechou os olhos, abraçando o corpo.

— Que Matheus? Quem é Matheus?

— Nós dividimos o apartamento. Ele é meu amigo do hospital... — Sabe, feromônio é uma coisinha engraçada e fedida. Disseminada do jeitinho certo podem promover um caos sexual em uma pessoa. Pode ser um pisca alerta de que aquela pessoa tem sonhos molhados com um individuo x ou servir como um aroma com a única intenção de atrair o fruto do seu interesse para a sua teia. Matheus era o fruto de interesse de Diana e ela fedia. — Ele não voltou da casa da família dele ontem à noite e eu estava esperando por ele para ir para o plantão.

Ela precisou de alguns segundos, bem generosos para responder.

— Será que fizeram alguma coisa com ele?

— Ele também é um lobo? — Questionei com curiosidade e essa foi a primeira vez que Diana pareceu irromper um sentimento.  

— Não. Ele é humano.

— Ele sabe o que você é? — Instiguei, buscando tirá-la de sua zona de conforto, como também descobrir a ligação entre o casal. 

— Não exatamente. — Ela inclinou o rosto, pensativa. Havia algo de podre cruzando a sua mente. — Ele sabe que eu sou diferente dele. — Arregalei os olhos. Isso não era nada bom. — Longa história curta... Eu desmaiei no trabalho. Não comia carne há um tempo por conta das idas e vindas do trabalho e... Enfim, ele me colocou em observação e tirou um pouco do meu sangue para exames...

— Que merda!

— Ele achava que eu estava anêmica. — Ela defendeu sua ação, refletindo. — Foi quando viu os resultados e eu precisei explicar para ele que...

— Você não era humana.

— Olha foi à conversa mais estranha que eu tive até hoje, mas eu não contei para ele o que nós somos.

— Eu era — disse rispidamente e ela esbugalhou os seus olhos, com uma tensão desabando nos seus ombros. — Eu não sou mais como você.  

— Eu sinto muito...

— Tudo bem.

— Eu não sei até que ponto posso confiar em você — Ela confessou e sorri para o céu matinal do Rio de Janeiro. Sentindo os raios do sol tocarem cuidadosamente a minha pele morena e lancei um olhar para Diana, suave e amigável. É, agora eu poderia confiar nela.

— Idem, querida. Idem. — Sorri marota, apontando para ela me seguir lado a lado para leste da rua.

— Rai e Manu não me contam muito... — Novamente, idem. — Mas, eu ouvi eles falando com o Roberto algo sobre o tal do Marcos estar atrás de mim por algum motivo que eles não discutiram na hora, mas tinha alguma relação com a ex lupina.

— Espera aí. Rebobina: Roberto? Roberto Oliveira? Filho dos líderes do clã Oliveira? — Ela assentiu entortando um sorriso. Olha aquele cheiro de sexo no ar de novo. — Por deus, garota! Você tem um fogo equivalente a mil mulheres.

— Que? — Abanei a mão para ela e gesticulei para ela prosseguir.

— Alguma coisa mais?

— A última vez que eu o vi foi na boate do Rai, faz alguns dias. Ele saiu de lá para seguir uma pista que o levaria até a tal ex lupina. — Opa, isso estava ficando cada vez mais interessante, como um livro da Agatha Christie. — Ele disse que ela pode ajudar a entendermos o que o Marcos quer comigo.

— Ex lupina. Quem diria... — Abafei uma risada.

— É, alguém que está aqui, mas também está lá, do outro lado, da vida, sabe? – Ela acabou de me explicar o que eu sou? Sério? Quer dizer...

Ele saiu para encontrar a ex lupina, pois ela é a chave para entender o que há de excepcional em Diana. Ela pode o que? Ajudá-lo na conquista, ela é a chave para essa conquista, seu sangue o purificara para essa conquista? Essa falta de clareza me mata um dia! Ironias a parte. Pelos meus conhecimentos, só existe uma ex lupina, em todo o país. Por gentileza, você pode parar de apontar o seu dedo para mim? É mal educado, sabia? Obrigada por parar. E sim, eu estava falando de mim mesma.

— É, vamos precisar chamar ele para o papo. Eu acho que sei onde vamos encontrá-la — Murmurei, pensativa. O sinal abriu e os carros começaram a disputar o seu espaço como organismos metálicos vivos nas avenidas. Vi um taxi amarelinho ganhar velocidade, vazio e fiz sinal, assistindo-o diminuir a velocidade e ir parando no encostamento.

— Você sabe? — Diana estava se acostumando com o meu jeito de ser, pois nem reclamou quando comecei a puxá-la pelo antebraço e abri a porta traseira, apontando para ela entrar. — Onde?

— Na minha casa. — Sorri arqueando sugestivamente uma sobrancelha. Diana piscou atordoada. — Eu sou a sua salvação. — Ela agora parecia apavorada. – Ah, qual é, mostre um pouco de empolgação. Tudo bem, você tem razão, estamos fodidas. — Revirei o meu bolso, retirando algumas notas de dinheiro e encontrei um cartão da loja esotérica da Fernanda com endereço e telefone. — Mas antes de qualquer coisa, toma, isso deve dar para o táxi e vá para esse endereço. — Ela olhou o cartão com uma cigana pouco atraente e cheia de photoshop e me olhou, parecendo preocupada. — Diga a Fernanda que eu te enviei e você precisa ficar as escondidas até Rai ou Manu chegarem, ela vai cuidar de você, talvez até faça uma leitura de mão gratuita.

— O que? — Ela soou amuada. — Eu pensei que íamos para o casarão.

O taxista chiou pela demora e lentamente lancei a ele o meu melhor olhar de assassina de aluguel, aprendido com o Steve Seagal e a Beatrix Kiddo.

— Mas precisamos — proferi repousando minhas mãos sobre os ombros dela.

— Porque?

— Eu sou a ex lupina, mas ainda tenho uma carga horária na faculdade de direito para cumprir — revelei sombriamente, inclinando minha cabeça e entortando os lábios. — Vou falar com os rapazes para irem conversando com você e pedir para alguém cuidar do seu apartamento. Liga para o seu amigo assim que chegar na Fernanda e dá seu jeito dele não ir para o apartamento. Te vejo depois do meio dia e... Tenta não morrer. — Pedi empurrando ela para dentro do taxi, fechando a porta e lançando um último olhar para a misteriosa sobrevivente partindo no taxi, pensei...

Eu também vou tentar.

E pelo amor de Deus, tenta não destruir o meu casaco, garota. É uma relíquia, como eu.