Enterrado vivo

Enterrado vivo

Enterrado vivo

A madeira fria agasalhava o seu corpo. O reles espaço tornava a respiração um ofício penoso. O ir e o vir, verbos corriqueiros de livres seres, não eram mais conjugados por aquela viva pessoa, que se percebia sufocada, encarcerada, enterrada. Naquela soturna caixa, somente havia um jovem, um intenso medo e um raro ar.    

Na juventude, as aventuras são consentidas. Trata-se de uma fase saturada de liberdade e que, por isso, acertos, erros e incertezas tornam-se quase sinônimos. Afinal, uma indulgência sempre estará ao alcance, uma porta voltará a se abrir e o jogo recomeçará. Porém, ele está agora aprisionado. A tessitura da vida é feita de escolhas. E suas decisões o acorrentaram nesse baú costurado com mogno.   

Entretanto, um sopro de salvação pode raiar de súbito, ofertando de vida seus pulmões, fazendo com que seu coração reviva. E assim foi feito pela sua mãe.

Ela não ousou abrir a carta que seu filho lhe enviara para esclarecer sobre seu confinamento. A mãe desejava vê-lo, tocá-lo e trazer palavras de conforto que funcionariam como chave para, enfim, libertá-lo.   

Aquela senhora, que jamais abandonaria seu filho e nunca admitiria que ele ficasse aferrolhado, descerrou a arca. “Vamos tomar café? Conte-me seus segredos. Não é preciso ficar escondido...não mais”, disse a mãe, estendendo a mão, que servia como uma ponte para que seu filho migrasse para um lado mais colorido da vida. “Não achei que esse dia chegaria”, suspirou o jovem. Ele segurou a mão de sua mãe e saiu do armário.