1 - O Fracasso

Da Noite para o Dia

1 - O Fracasso

Samantha se deitou na cama e ficou admirando o teto do quarto pequeno. O cansaço dominava seu corpo e seus músculos doíam devido ao esforço que fizera durante o trabalho. Pegou o celular para verificar as horas, já passava muito da meia noite, na verdade já era quase a manhã do dia seguinte. Verificou a data no visor do aparelho e se deu conta de que aquela era uma data especial. Doze de junho. Fazia exatamente um ano que ela resolvera mudar e viajar para tentar a vida no hemisfério norte do continente em que vivia. Fazia também um ano que deixara seu ex-namorado aguardando-a para comemorar o dia dos namorados no Brasil. Ela não se arrependia da atitude, na verdade nem remorso sentia, mas sabia que podia ter tido mais consideração pelas pessoas que amava. Refletiu um pouco sobre a situação e preferiu esquecer. Apagou a tela do celular e virou de lado.

─ Feliz um ano. – disse para si mesma e fechou os olhos.


O barulho do despertador era distante e Samantha demorou um pouco para perceber que ele tocava bem ao seu lado. Mal humorada, a jovem bateu na tela do celular para acabar de vez com o som que lhe perturbava. Demorou ainda mais para que ela abrisse os olhos e se espreguiçasse com certa dificuldade, pois o corpo ainda sentia as consequências do dia anterior, apesar da cama ser bastante confortável. Levantou-se e se vestiu o mais rápido que pôde. Afinal, tinha um teste dali a 1 hora e 45 minutos e se locomover em Los Angeles não era a tarefa mais fácil do mundo sem carro.

Foi até o micro banheiro que tinha no quarto e se olhou no espelho. As olheiras não escondiam o cansaço, pelo contrário o acentuavam. Maquiou-se rapidamente após escovar os dentes e saiu do cômodo trancando a porta.

─ Buenos días. – ouviu a amiga boliviana, Helga, a cumprimentar. Sam sorriu e retribuiu o cumprimento. E logo vieram outros, dessa vez em inglês, que ela respondeu com pressa e um pouco mal-humorada.

Samantha morava basicamente numa república, num bairro um pouco afastado do centro de Los Angeles, o The Valley ou San Fernando Valley, como era bastante conhecido. Mais especificamente na Gilmore Street, uma rua pequena e arborizada. A residência estava longe de ser algo com que Samantha havia sonhado um dia, até o apartamento em que morava com os pais em São Paulo era muito melhor que o lar atual, mas ela tinha que se contentar. Aquela havia sido sua escolha e nem de perto era a mais fácil. Na casa, de quatro dormitórios, moravam onze jovens de diversas nacionalidades. Samantha dormia sozinha, pois seu quarto não era um quarto e sim uma espécie de despensa. A dona do lugar era a senhora Adaline, muito simpática, americana patriota e receptiva, casada com um senhor de origem latina, que apoiava o sonho de jovens de países de terceiro mundo, mas que cobrava um valor considerável por isso.

Apesar da proximidade com o verão e o sol iluminando a cidade, ventava bastante. Samantha era friorenta demais e, por isso, colocou um cachecol. Suas poucas amigas americanas achavam isso um absurdo, mas ela não conseguia evitar. Saiu pela rua e correu até o ponto de ônibus mais próximo. L.A. tinha um sistema de ônibus bem extenso, mais de 200 linhas, mas por ser uma cidade muito mal distribuída, o transporte acabava sendo pouco eficiente, fazendo com que os cidadãos demorassem um bocado para chegar ao destino desejado. Além disso, o metrô tinha apenas cinco linhas funcionando. Era um erro não ter carro em Los Angeles, mas ela não tinha opção, poupava o pouco dinheiro que ganhava no bar em que trabalhava para não passar um aperto ainda maior. Era caro viver em Los Angeles, a cidade dos sonhos. Ao contrário do que muitas pessoas pensavam, a cidade tinha imóveis, gasolina e alguns outros itens bastante caros, um pouco acima da média do restante dos Estados Unidos.

O ônibus que ia para downtown LA chegou e a jovem se sentou na janela, apesar de ter que pegar apenas um ônibus, o tempo estimado até o centro era praticamente de uma hora e meia, era melhor se sentar. Além disso, uma boa pedida era sempre ouvir uma ótima música, por isso ela aproveitou para ouvir um cara que ela amava, que era do bairro e estava fazendo muito sucesso: Kendrick Lamar. O som de “Backseat Freestyle” invadiu seus ouvidos enquanto ela começava a viajar um pouco em sua própria mente.

Um ano... Já fazia um ano que ela tivera a conversa com seus pais e decidira tentar a vida no país mais capitalista do mundo, ou que pelo menos como muitas pessoas o consideravam. Lembrava-se da dura decisão de abandonar tudo. Aliás, que tudo? Ela não tinha nada a não ser um sonho: ser atriz. Todo o resto era resto. Ela nunca terminara muitas coisas, nunca fizera uma faculdade e tentara viver de teatro o quanto pôde, mas ser sustentada pelos pais aos 22 anos tornou-se insustentável. Não era como apenas viver com eles, ela dependia deles para tudo. E ela era independente demais para suportar aquilo, ao contrário de suas amigas. Por isso, no ano anterior à sua ida aos Estados Unidos, decidiu trabalhar num restaurante. Trabalhou tanto no horário vespertino quanto no noturno e guardou o máximo de dinheiro que lhe foi possível. Comprou passagens sem que ninguém soubesse e pesquisou muito na internet sobre lares que aceitavam jovens, entrando em sites e blogs de brasileiros que haviam feito o mesmo que ela.

O mais difícil fora deixar os pais, o irmão e o namorado. Aliás, o namorado fora uma situação à parte. A passagem mais barata que ela havia encontrado era para o dia 12 de junho, ou seja, dia dos namorados no Brasil e ela não teve coragem de lhe contar. Combinou com ele o lugar onde passariam a data e nunca apareceu. É claro que depois eles acabaram se falando pela internet e ele entrou em contato com os pais dela, mas foi difícil fazer com que ele entendesse a situação e também a necessidade daquela decisão. Ainda assim, não lhe importava muito, quando ela decidiu que faria aquilo, pensou somente em si mesma e em mais ninguém. Não queria carregar o peso da dor de ninguém, queria buscar sua própria felicidade e, quando a encontrasse, dividi-la com os demais.

Apesar de ter sido há um ano, aquele ainda era o terceiro teste que ela fazia. Logo sua permanência, que era de, no máximo, dois anos, iria expirar e a garota poderia ter que voltar com as mãos abanando. Aquilo era totalmente diferente do que ela sonhara, tinha que admitir. Era muito difícil para uma garota estrangeira concorrer com tantas outras americanas que, além da fluência na língua, tinham também anos e anos das técnicas utilizadas em Hollywood para interpretação. Ela não. Vinha de uma escola de artes cênicas brasileira, ótima, mas que lhe deixava com a sensação de ter aprendido a interpretar somente para novelas, que eram comerciais demais para terem sentimentos reais como os atores deveriam ter no cinema. Ela se sentia despreparada. Ainda assim, lutaria o máximo possível. Até o fim. Afinal só agora ela havia começado a fazer as amizades certas e a conhecer as pessoas que poderiam instruí-la ou indica-la para algum trabalho. Fora isso, tentava entrar no sindicato de figuração, assim poderia ser figurante e ter um salário digno.

Aquela sexta-feira, particularmente, estava estranha. Samantha não sabia dizer o porquê, mas sentia-se inquieta. Ligaria para os pais assim que possível, não gostava daquele tipo de sensação. Quando se deu conta, já estava praticamente no local onde deveria descer. O teste seria numa produtora pequena, mas ainda assim ela não devia desanimar, os contatos que poderiam sair dali eram grandes. Mesmo não sendo um filme de grande orçamento, era um começo. Desceu no ponto que julgava ser o correto e caminhou um pouco até o local onde a produtora ficava. Era uma casa grande, branca, com vidros negros e uma porta central - que estava aberta. Logo ela entrou e se encaminhou para a recepção. Preencheu uma ficha e aguardou ser chamada.

O primeiro teste do dia seria com uma outra garota 2 anos mais velha, Julie, que não gostava muito de falar. Geralmente era assim, as pessoas não queriam muito contato, não queriam se apegar, ali eram todos concorrentes. Quase inimigos. Samantha teve que interpretar uma garota problemática e usuária de drogas, de 18 anos. A cena era com sua suposta irmã, para a qual Julie fazia o teste, em que ela era ameaçada, pois a irmã iria contar para os pais o que estava acontecendo com a garota que havia largado a faculdade sem que eles soubessem.

Samantha saiu do teste exausta. Fora desgastante, mas ela tinha certeza de ter dado seu melhor. Ensaiara muito com Helga nas semanas anteriores. Agora teria que aguardar, afinal eram muitas pessoas para o teste e eles diziam quem ia para a próxima fase ao término de todas. Samantha aguardou, tentou ficar calma, mas a ansiedade sempre estava por ali, à espreita.

─ Srta. Fernandes. – uma senhora anunciou, após quase 4 horas de espera e de fome, com um sotaque americano.

Samantha se levantou e seguiu a mulher para a sala onde ela havia feito o teste com Julie. Um rapaz acenou para que ela se sentasse e ela o fez.

─ Percebemos que a senhorita tem um pouco de sotaque, srta. Fernandes, e procuramos na sua ficha... Você é brasileira? – um homem de meia idade, que havia visto seu teste olhava para um papel e não para a cara de Samantha.

─ Sim, sou.

─ Hum... Eu amo a capital, o Rio de Janeiro. – ele disse ainda sem olhá-la.

A garota revirou os olhos, mas fez o possível para que ninguém notasse.

─ Na verdade, o Rio não é a capital.

─ Ah não?! – perguntou o homem finalmente olhando-a. – É São Paulo então?

─ Não, Brasília.

─ Ah sim, sim... Ainda não conheço Brasília. Bom, srta. Fernandes, lamento informá-la, mas você não continuará conosco nos próximos testes. Peço que mantenha a persistência, não desista. Com certeza em algum momento aparecerá o trabalho certo para você. De qualquer maneira, iremos guardar seu portfólio para, quem sabe, uma próxima oportunidade.

Os olhos de Samantha encheram-se de lágrimas, mas a garota não chorou ali. Levantou-se e saiu da casa branca e monumental. Caminhou até que a primeira esquina chegasse, assim que a contornou caiu num choro inconsolável. Mais um fracasso para a sua coleção.

2 - Ao Acaso