Uma mulher olhando uma árvore

Uma mulher olhando uma árvore #HerStory

Uma mulher olhando uma árvore

O conto começa com uma mulher olhando uma árvore. A mulher é alta, tem os cabelos longos e crespos; usa um vestido verde. O ar está abafado, e o dia transmite certa inquietude, dessas de fim de manhã, quase tarde. Às vezes, ela alterna o olhar entre o tronco velho, que parece a pele do rosto de um ancião, e a copa, que muda de cor conforme a luz do sol e se move vagarosamente como um monstro peludo. Há roupas no varal e ela pensa em sair de casa, sempre com os olhos fixos na árvore. Eu lia no metrô, mas eram apenas quatro estações e não tive tempo de seguir na história. Precisei fechar o livro para agarrar-me em uma das colunas engorduradas do trem e sair desequilibrada pela porta mais próxima.

Depois de um dia de trabalho disperso, interrompido muitas vezes pelo pensamento na mulher e na árvore, voltei para casa de ônibus; queria poder olhar pelas janelas. O que ela fazia ali? Por que olhava a árvore? O veículo lotado, como de costume, não permitia que tivesse mãos para sustentar um livro, por isso decidi dedicar-me a procurar árvores pelo caminho. Selecionei algumas delas e memorizei alguns de seus detalhes – 1. folha arredondada, tronco fino; 2. folha pontuda, raízes quebrando o asfalto;  3. tronco longo, flor amarela –, porém não havia sol, nem vento, e não encontrei nenhuma árvore que fosse bonita como a do conto. Pensei na pilha de papeis sobre a mesa e logo em como queria ter mais tempo para os livros; precisava de mais encontros como esse com a mulher de verde e a árvore peluda.

Após lavar os pratos e quebrar uma xícara, sentei-me na poltrona ao lado da janela e olhei os prédios e os carros lá embaixo na avenida; não havia árvores. Antes havia cuidado para que tudo em volta estivesse limpo e organizado, perfeito; então finalmente pude abrir o livro: senti a textura de suas páginas, observei suas linhas. A mulher olhava as folhas da árvore balançando. Tentava observar, de longe, as linhas e o desenho geométrico de cada folha, seus cabelos às vezes se moviam junto com a copa, e ela tinha acabado de assar um frango. Olhava a árvore pela janela e pensava que, embora ela fosse grande, daquele ângulo parecia pequena, muito pequena, sobretudo quando a comparava com o tamanho da samambaia sobre o aparador. Ela parecia às vezes se assustar com o movimento e às vezes gostar da árvore, o que a fazia querer sair da casa para observá-la mais de perto, mas não sabia se devia fazê-lo. Olhou o relógio pendurado no canto superior direito e decidiu abrir a porta. Caminhei até a árvore e, agora mais perto dela, toquei seu tronco. Em seguida, peguei uma das folhas e a apalpei; era grossa e fosca. Simples, do tipo reticulada, mas agora o desenho parecia menos geométrico e muito mais assimétrico. Estava descalça e sentia também a grama nos meus pés e o ar quente no rosto. As crianças chegariam logo da escola e já estava quase tudo pronto, mas eu precisava pôr a mesa. Não queria voltar para dentro da casa; pensei em esquecer tudo e ficar ali o dia todo, mas comecei a escutar, distante, o som do celular tocando, até que, aos poucos, ele foi se tornando cada vez mais presente e tive que me levantar para atender.

Tentei voltar à leitura, mas dessa vez estava desconcentrada e, aos poucos, comecei perceber que o conto não tinha história e nada acontecia: era apenas sobre uma mulher olhando uma árvore, assando coisas no forno e pensando em folhas ou outras coisas sem importância. Já era tarde e meus olhos começavam a querer se fechar sozinhos. Deitei-me cerca da meia-noite.

De madrugada, acordei assustada com um ruído. Era a árvore que estava dentro do quarto, ventando, e as suas folhas batiam devagar nas paredes, ora de um lado, ora do outro, o que fazia balançar também o lustre pendente, batendo uma lâmpada contra a outra. O ruído incomodava, e me perguntei o que estariam pensando os vizinhos. Algumas folhas caíram sobre a cama e segurei uma delas. Depois fechei os olhos e me vi sorrindo.