Capítulo único

Lina

Capítulo único

Ela. A vida por um pronome, a busca incessante por sê-lo, e por possuí-lo. Ninguém entendeu quando ela disse que não foi uma escolha. Aqueles que a viram nascer disseram que não reconheciam quem era aquela criatura que se colocava diante deles. Salto alto, cabelos longos, unhas feitas. Aquele a quem Lina doou seu afeto por muitos anos a deixou com apenas uma carta nas mãos e todas as esperanças no chão. Depois de três anos de muito amor (pelo menos de sua parte), deixá-la assim era incompreensível. Ela não ousou abrir a carta, deixou-a no assoalho assim como suas expectativas, e voou pra longe. Lina ousou algo ainda mais corajoso: ser quem sempre foi. Mulher trans, negra, forte. Lina é ela. E ela não quer mais saber de amarras, nem das cartas dos covardes. A ela interessam as palavras quentes, ditas na hora, com emoção, com cuidado. A fria caligrafia a desinteressa por completo, assim como quem limita seu ser ao imperativo falso do corpo biológico.  Dentro de Lina pulsa outra identidade, e diversas possibilidades. Naquele dia, ela abriu seu sorriso mais sincero, deu-se um abraço e foi em busca de um novo lugar onde seu amor pudesse florescer em toda sua verdade.