Mamãe, ser azul é mau?

Lápis-lazúli

Mamãe, ser azul é mau?

Da cozinha Virgínia ouviu a buzina da van tocando: Antônio chegara da escolinha. Ela secou as mãos no avental e foi pegar o filho no portão. Esperava com alegria aquele abraço tenro que recebia do filho de cinco anos toda vez quando se reencontravam.


- Toninho, e o abraço da mamãe? - sua inquietação se dera porque o menino mantivera-se parado, olhando para o céu.

- Mamãe, ser azul é mau? - perguntou, a vozinha trêmula e os olhinhos molhados.

- Como assim, meu bem? - ela pegou-o pela mão e sentaram-se na varanda.

- Dois meninos do quarto ano falaram que de tão preto eu era azul… - ele voltou os olhos para ela, esperando que ela o explicasse aquilo. Virgínia repreendeu com dificuldade o choro que vinha, e as palavras do menino desceram ardidas feito brasa por sua garganta. Ela afagou as bochechas do filho, e minutos depois respondeu-lhe:


- Querido, não há razão para tristeza! Sabia que há uma rocha azul que valia tanto e era tão rara que faraós, reis, a igreja e artistas queriam uma?

- Ah é? Qual, mamãe? - o menino abriu um sorriso tímido.

- O lápis-lazúli, meu bem... Não há mal no azul. O azul é raro e muito precioso também… assim como o meu Toninho - e ela apertou de leve o nariz do menino. Ele abraçou-a.

- Mamãe, então eu sou como o céu… - ele volveu e completou logo - Preto e azul.


Virginia apenas sorriu emocionada. Toninho era muito criança para entender aquilo. Por ora, bastava-lhe a pureza daquele pensamento infantil.