Nico

Nico

Nico

16h45m.

— Carol, anda!

— Calma, Nico! Vai dar tempo.

Faltando 15 minutos para a aula de dança da Carol, eu vou a caminho dos portões para tirar o carro.

— Vou te esperar no carro!

Abro os portões, ligo o carro e o tiro da garagem. Minha irmã não parece estar muito preocupada com o atraso. Eu buzino enquanto a vejo correndo na frente da janela, fazendo um sinal com as mãos.

Carol corre pela porta enquanto grita um tchau através das paredes. Tranca o portão e entra correndo no carro. Da casa até o estúdio de dança é aproximadamente 10 minutos, mas não tem como saber como está o trânsito, por isso eu geralmente saio mais cedo.

— Você vai chegar atrasada, Carol.

— Não vou, Nico. Acredite!

Para a alegria geral, não houve trânsito. Chegamos lá em 7 minutos.

O estúdio irá participar de um concurso de dança que acontece todos os anos, onde os melhores estúdios inscrevem seus melhores alunos para concorrer à prêmios que incluem desde desconto na mensalidade até bolsas de estudos, mas a verdade é que Carol quer apenas participar de um concurso profissional. Ela quer tanto participar que me ensinou os passos do seu par, para que eu consiga ajudá-la em casa.

Ao chegar no estúdio, os outros alunos já estavam com seus pares. O par de Carol, Danilo, também já a aguardava, um tanto quanto preocupado.

— Você demorou.

— Calma, Dani. Eu estou aqui, não erraria com você.

Eu sempre sorrio quando vejo que os dois se entendem. Me aproximo do banco onde os pais assistem as aulas. Na verdade, os pais geralmente ou tiram fotos constrangedoras ou passam pouco mais de uma hora mexendo no celular. A maioria dos familiares não se importam com aquilo que deixa seus parentes felizes, mas eu me importo. Faço sempre questão de levar a Carol em todas as aulas, pois eu sei o quanto aquilo é importante para ela.

— Meninos e meninas – Começa Ângela, a professora. –, vamos dividir as duplas e treinar as coreografias?

Dentre vários pares, uma mulher estava sozinha.

— Professora, temos um problema.

— Ai, Charlotte. Fernando não vem?

— Não. Na verdade, ele não vem mais. O horário do trabalho dele mudou, mas posso fazer um solo?

Ângela vai até sua bolsa e pega a programação.

— Olha, Charlotte, eu acredito que não. Aqui diz que cada estúdio tem direito a uma apresentação solo, que vai ser a Vitória, da turma da manhã, mas eu posso conversar com o pessoal do concurso.

Nesse momento, Carol deu um grito:

— Nico!

Eu? Pulo do banco enquanto tento entender o por que desse grito repentino.

— Professora, sabe quem sabe todas as partes de todas as danças?

— Quem, Carol?

Carol aponta os dedos para mim.

— Por que você acha que eu decoro as coisas tão rápido? Eu treino em casa com uma ajuda especial!

Ângela fica surpresa ao ouvir que alguém além dos alunos sabe todas as coreografias. E eu não acredito que essa dama me entregou.

— Mas, Carol...

— Charlotte, você se importa de treinar com a minha ajuda especial?

Charlotte olha surpresa para mim, enquanto eu tento esconder a vergonha que estou sentindo no momento. Os outros alunos se olham como se não aprovassem, enquanto Ângela aguarda uma aprovação tanto minha quanto de Charlotte.

Eu me levanto e vou até a roda de alunos, com os outros pais chocados de surpresa.

— Oi, Charlotte. Então, eu ajudo você, se você quiser. Eu estou sempre dançando com a Carol mesmo.

— Você não se importa?

— Na verdade, não.

Eu não posso desmaiar. Eu não posso desmaiar.

— Mas, Nico – Interrompe a professora –, você pretende se inscrever no concurso? Porque eu teria que dar mais uma olhada nas regras.

Carol sorri de orelha a orelha e mexe a cabeça incansavelmente dizendo que sim.

— Concurso?

— Vamos, Nico! – Começa Carol – Você sabe tudo que a gente ensaia aqui, você pega no meu pé quando eu erro, você sempre vê os pontos que eu preciso melhorar! Você é impecável comigo. Se inscreve no concurso!

Como assim, concurso? Eu estou em choque. A ideia era apenas ajudar uma aluna a fazer uma aula de dança, não me inscrever para o concurso.

— Mas eu não sei se eu consigo...

— Podemos tentar uma coisa? – Charlotte segura minha mão olhando nos meus olhos – Dançaremos hoje e, caso você se sinta confiante, continuaremos. Se você ver que não vai conseguir, eu busco outro par. O que você acha Nico? – e se vira para Ângela. – Professora?

Ângela olha para mim e para Charlotte enquanto coça o pescoço, como quem não tem muita certeza que isso seja possível. 

— Bom, podemos tentar.

Apesar de alguns olhares tortos, inclusive de alguns pais, a aula segue e, sem querer, eu faço parte da equipe. Não tem motivo para tanto nervosismo, já que eu realmente sei todas as partes das coreografias, então ficaremos bem.

É diferente você dançar com a sua irmã e depois dançar com o intuito de fazer parte de algum coisa. Nesse momento eu entendo o sentimento que vaza do sorriso da Carol. Dançar com a ideia de melhorar e querer fazer parte de algo é realmente incrível. E talvez eu deva me inscrever para o concurso.

No final da aula, Ângela não sabe esconder sua surpresa.

— Nico... – Ela pára. Boca aberta, olhos arregalados, sorriso escancarado. – Nico, você precisa se inscrever. Eu me viro com relação as inscrições, mas você dança muito bem! Você deveria se inscrever.

Eu sorrio, pois me sinto capaz. Quando viro os olhos para Carol, tenho a impressão que ela não parou de mexer a cabeça positivamente.

— Não posso negar que eu me sinto bem fazendo isso, professora.

Charlotte me observa e, por alguns segundos, eu não sei o que aquela expressão significa, até que ela começa a falar.

— Eu acho que o nosso encaixe foi melhor do que eu poderia imaginar.

— E não é, menina? – Ângela continuava surpresa.

Dessa vez parece que todos os outros pais realmente assistiram a aula toda. Enquanto outros me olhavam com leveza, alguns me olhavam com desaprovação. Deixei de me importar com isso alguns anos atrás.

— E então? – Pergunta Charlotte. – Formaremos um par para o concurso?

Respiro fundo e lembro de uma frase que minha mãe me disse: “Ser você nem sempre é fácil, mas não existe opção melhor”.

— Sim. Formaremos.

A aula acabou e Carol estava estonteante. Precisei me inscrever no estúdio, mas isso não é um problema. Chegando em casa, Carol fez questão de contar tudo para nossa mãe, que me olhava incrédula.

— Nico! Isso é incrível!

— Mãe, é só um concurso de dança.

— Não é só um concurso de dança, é você assinando sua liberdade! Festeje isso! E quando eu vou conhecer a Charlotte?

— Mãe, não vamos nos casar, vamos apenas dançar em um concurso.

Minha mãe me observa com os olhos serrados e solta uma risada disfarçada. Posso dizer que ela não acreditou muito que Charlotte seja apenas minha parceira de dança.

Decidimos dançar na minha casa. Então, todos os dias que não tínhamos aula, ela chegava às 18h e dançávamos todas as coreografias até às 20h. Conforme os dias e os ensaios, eu pude observar coisas que antes não me pareciam relevantes. Coisas pequenas como o fato de que ela não consegue ensaiar de calça – tem que ser ou shorts ou saia –, como o fato de que ela precisa tomar água a cada final de coreografia, como o fato de que ela é linda. Sim, minha mãe tem razão.

O concurso está marcado para daqui 3 dias. As categorias se dividem em adulto e infantil, sendo que cada categoria se subdivide em solo, dupla e grupo, sendo que os três primeiros colocados de cada subcategoria recebem as premiações. Charlotte e eu nos inscrevemos para a categoria “adulto – dupla”.  O estilo é livre, mas decidimos arriscar um tango, já que é o estilo que Charlotte dançaria com Fernando. Dizem as más línguas que ele não mudou o horário do serviço, mas que eles brigaram. Não sei se comentei antes, mas Fernando e Charlotte namoravam, ou quase. Independentemente do que foi aquilo, não é mais. Ela mal fala dele, na verdade, e já fez diversos comentários dizendo o quanto é mais fácil dançar comigo do que com ele. Sim, inevitavelmente eu fiquei feliz. Depois de tantos dias dançando, eu não podia mais negar que eu não queria que fossemos apenas uma dupla, mesmo não sabendo lidar muito bem com essa coisa de romance.

À noite ensaiaríamos mais uma vez, mas eu precisava falar a verdade. Eu precisava falar que eu não queria que a nossa parceria acabasse ali, no final do concurso, então, quando Charlotte chegou, eu tentei deixar a vergonha de lado.

— Charlotte, a gente pode conversar?

Ela me olha assustada.

— Nico, você não quer mais participar?

— Não! Quer dizer, quero!

— Quer ou não quer?

— Eu quero, mas não é esse o assunto.

Sua expressão relaxou enquanto ela abria um sorriso leve.

— Me diga, então. Você pode me contar o que quiser.

Eu comecei a tremer, mas mantive o plano.

— Você e o Fernando terminaram mesmo?

— Sim, terminamos. Por que?

— Você quer...Sair comigo?

Sua expressão mudou. Seus olhos arregalaram e sua boca abriu. Me sinto a pessoa mais idiota do planeta por achar que ela ia querer sair comigo. Eu deveria só ficar feliz com a nossa parceria na dança, ao invés de estragar tudo e...

— Sim.

— Sim?

— Sim. Por que não? Não quero que a nossa parceria termine quando o concurso acabar. O que você acha de comermos algo depois do concurso? Eu estou meio nervosa com isso.

Ela disse sim. Eu ainda não havia mudado minha expressão de surpresa quando ela se aproximou e me olhou no fundo dos olhos.

— Você está bem?

Eu queria beijá-la. Não sei se ela entendeu o que eu queria dizer, não sei se o foco dela é a amizade, não sei se consegui dizer tudo que queria, mas, para agora, eu quero beijá-la.

Dei um passo em sua direção e tomei coragem para dizer o que realmente queria ter dito.

— Charlotte, eu...

— NICO – minha irmã grita da cozinha – TEM UMA BARATA EMBAIXO DA MESA!

Charlotte ri enquanto eu fecho os olhos com um sentimento de raiva misturado com um sorriso sem graça.

— Vai lá salvar a sua irmã para fazermos um ensaio rápido quando você voltar.

Fui, matei a intrusa e voltei para nosso ensaio, mas não tive coragem de tocar no assunto novamente. Talvez ela só esteja disposta a ser minha amiga mesmo, e tudo bem.

Os próximos dias passaram voando e, antes que eu pudesse perceber, era o dia do concurso.

Para desespero geral dos pais da maioria dos alunos, arrumei uma calça social branca, uma camisa branca, um suspensório azul escuro e um chapéu branco. Minha mãe conseguiu emprestar um sapato de couro tamanho 36 de um rapaz da igreja que ela frequenta, já que não teria porque comprar um sapato que não usaria em outras circunstâncias. Charlotte comentou que comprou um vestido vermelho comprido com uma fenda do lado esquerdo. Ela até deu ideia para dançarmos de vestido, mas já havia conseguido a roupa masculina, então desistimos da ideia, mas a verdade é que não queria que as pessoas olhassem para mim. Queria que as pessoas olhassem para ela.

O concurso estava marcado para começar as 19h. Marquei de buscar a Charlotte às 18h30m, com minha família. Carol mal havia dormido na noite anterior e minha mãe estava toda orgulhosa de nós. Minha irmã usava uma calça larga, tênis cano médio e uma camiseta aleatória, já que o plano é dançar de top. Não lembro o nome do estilo que ela escolheu, mas sei que é a música Circus, da Britney Spears. Sim, Carol tem um gosto musical eclético.

Chegando na frente da casa de Charlotte, a vejo usando o vestido vermelho com a fenda do lado esquerdo. Não sei descrever o que achei, exatamente, mas cada passo que ela dava, meu coração queria sair pela boca.

— Oi, gente!

— Oi, Charlotte! –Minha mãe e Carol respondem juntas.

— Oi, Nico. Adorei a roupa.

Ela aguarda uma resposta com um sorriso de canto enquanto entra no carro.

“Eu adoro você”.

Não, eu não disse isso.

— Viu? Ficou bem em mim. E você ficou linda.

Ela sorriu. Não sei se com vergonha, não sei se ela estava muito nervosa, não sei se ela se lembra que vamos sair depois do concurso. É um assunto que não consegui retomar.

Chegando no lugar do evento, encontramos os outros alunos com a professora Ângela.

— Meninas, como vocês estão lindas!

Para a professora Ângela, qualquer aluna ela chama de “menina”, mesmo nossa média de idade sendo maior que 21.

— Mãe — chamei —, precisamos ir para os bastidores. O concurso começa daqui a pouco e eu ainda nem vi o Danilo.

Minha mãe colocou meu rosto entre suas mãos e beijou minha testa.

— Nico – seus olhos lacrimejavam –, eu sinto muito orgulho de você.

Agora meu olhos lacrimejavam também.

— Eu te amo, mãe.

Beijei sua mão e movi a cabeça chamando Carol e Charlotte, quando ouvi seu último conselho:

— Divirtam-se! 

Estiquei o braço para guiá-las mas, como a melhor surpresa que eu poderia receber, Charlotte segurou minha mão. Eu poderia vencer até uma luta de sumô nesse momento.

Corremos para os bastidores, onde Danilo estava esperando Carol. Acenamos uns para os outros e agarramos nossas duplas. O concurso começaria com os solos, depois as duplas e, para finalizar, os grupos. Na ordem das duplas, minha irmã é a primeira a se apresentar. Dos bastidores, consigo ver minha mãe e mal posso esperar para ver sua reação quando Carol subir no palco.

Se passam pouco mais que 10 minutos e as luzes diminuem.

— Que comece o concurso!

As apresentações solo são muito boas. Vários alunos fazem isso há anos e se apresentam com frequência, mas eu fiquei muito feliz quando acabou, já que é hora da Carol brilhar.

— Abrindo a categoria de duplas – apresenta a professora Ângela –, com vocês: Ana Carolina Freitas e Danilo Santos!

Carol respira fundo, levanta a cabeça e segue até o palco, segurando as mãos de Danilo. Ambos se organizam e fazem o sinal para a música começar.

Não é por ser minha irmã, mas ela é ótima. Cada passo me faz vibrar por dentro. Minha mãe está com um sorriso tão leve, que não lembro a última vez de vê-la assim.

Carol volta toda suada e feliz. Estou em êxtase, mas logo será minha vez. Apresentará uma dupla e depois somos nós.

— Nico – Charlotte se vira para mim —, eu queria agradecer por você escolher fazer parte disso comigo. 

— Charlotte, eu gosto de você.

Ela me encara e sorri.

— Eu também gosto de você.

— Charlotte, eu quero namorar com você. Eu queria ter te beijado no último ensaio, mas apareceu uma barata nos pés da minha irmã.

Seu sorriso some enquanto meu coração gela aos poucos. Consigo ouvir a professora Ângela agradecendo aos últimos dançarinos e me preparo para ouvir nossa chamada. Charlotte encara as mãos.

— Nossa próxima dupla é Charlotte Fernandes e Nicole Freitas.

Bom, agora é nossa vez. Ouço o choque do público.

Charlotte olha nos meus olhos e traz de volta a leveza que tivemos em todos os ensaios. É hora de chocá-los ainda mais.

Ela usa e abusa do vestido vermelho enquanto eu aproveito do meu suspensório. Não cometemos nenhum erro de tempo, não erramos nenhum passo, não nos perdemos no palco. Fomos impecáveis. Na posição final, jogo Charlotte nos meus braços e aproximo meu rosto do seu, até que meu chapéu cai e meu coque se desfaz. Charlotte usa o braço livre para pegar meu chapéu do chão e esconder nossos rostos assim que a música acaba. Escuto as palmas estonteantes e vários assovios enquanto nos perdemos em um momento nosso. Ela sorri, coloca o chapéu na minha cabeça, apoia-se no meu pescoço e me beija. Ao levantarmos e olharmos para o público, minha mãe está enxugando as lágrimas em meio as palmas. Agradecemos e voltamos para os bastidores.

Minha irmã me abraça e fica repetindo que fomos incríveis enquanto eu ainda estou no céu.

Ao final da noite, o concurso se encerra. Minha mãe nos abraçou quando fomos em sua direção, ainda aos prantos, e partimos com minha irmã indignada por descobrir que o resultado do concurso sairá apenas no jornal de amanhã.

Chegando em casa, logo após minha família descer do carro, Charlotte pega na minha mão e diz:

— Eu estou cansada. Estava pensando em fazermos outra coisa.

— O que você tem em mente?

— Que tal comprarmos umas cervejas e comermos uma pizza aqui, com a sua família?

Desligo o carro e abro um sorriso. Charlotte destrava o cinto, solta o cabelo e se aproxima de mim, colocando a mão embaixo do meu cabelo, agora solto nos ombros, e me beija. Posso ouvir as risadas da minha família, mal escondida, por trás da cortina.

Meu celular nos interrompe para avisar a chegada de uma mensagem da professora Ângela:

“Consegui ver o resultado e a Carol ficou em primeiro. Estou tentando falar com ela mas ela não atende. Você pode contar, por favor?”

Me sinto leve.

Ouço o telefone de casa tocar, ouvindo cada reação de minha irmã e me lembrando dos dias que ela decidiu me ensinar os passos de Danilo e o quanto apoiamos umas as outras dentro da nossa família.

Charlotte solta meu cinto e abre a porta.

— Vamos?

Respiro fundo e me sinto eu mesma, como a muito tempo não sentia.

— Vamos.