Capítulo 01: A esperança do novo

Síndrome de Salvador

Capítulo 01: A esperança do novo

                O ser humano gosta de se enganar quando um novo ano começa. Com a expectativa do novo. Com a esperança de que tudo seja melhor. Aquela baboseira de sonhos se realizando e tudo mais. Ano após ano acreditávamos que, quem sabe, aquele ano poderia ser diferente, mas a verdade é que basicamente nada mudava depois que os fogos estouravam no céu.

                Mesmo assim, como bom exemplar de ser humano, eu me prendia em falsas esperanças de que tudo estivesse diferente no momento de meu retorno ao EA. Ou, pelo menos, mais ou menos diferente. Na verdade, eu só queria que tudo estivesse exatamente igual ao que era, antes da bomba explodir. Antes de Liz dar com a língua nos dentes.

                Acho que era mais do que justo, na verdade. Depois do verão odioso que eu tive, voltar a ser a líder dos herbalistas em paz era o mínimo que o universo podia me oferecer como recompensa. Era o que eu merecia e era o que eu lutaria para receber.

                Era tudo culpa da maldita Liz. Eu não sabia muito bem para quem ela tinha dado com a língua nos dentes, mas eu sabia que a situação Juliana e Vicente tinha se resolvido. Isso não seria problema, porque eu já não ligava mais para Vicente, mas se tornou problema porque, de alguma maneira, todos os herbalistas ficaram sabendo. E começaram a questionar minha liderança.

                Foi no meio desse caos que entramos de férias. E eu dei graças a Deus, na verdade. Corri para casa como a garotinha assustada que vivia em mim, mas eu soterrava embaixo das camadas de maldade como se minha vida dependesse disso. Porque a sensação era que dependia mesmo. Então, quando cheguei em casa com as malas cheias e com vontade de maratonar Netflix em paz, meu pai estava sentado no sofá onde eu pretendia passar o resto das minhas férias. Do lado de uma mulher loura desconhecida.

                ― Nicole! ― Ele chamou, sem mover um centímetro para me ajudar com as malas. ― Que bom que você chegou... ― Levantou-se, segurando a mão da loura para que ela levantasse também. ― Quero te apresentar Alice, minha...

                Eu esperei ele dizer namorada. Desde que minha mãe tinha morrido, ele desfilava com várias. Algumas eu tinha tido o desprazer de conhecer. Outras eram casos tão secretos ou tão curtos que eu era poupada das apresentações. Eu nem tinha ficado sabendo que ele estava namorando mas, para ser honesta, não é como se nós nos comunicássemos muito quando eu estava enfurnada em nova Friburgo.

                ― Minha noiva.

                Eu encarei, certa de que eu não podia ter ouvido direito. A donzela esticou as mãos com unhas pintadas de vermelha na minha direção e eu olhei com desgosto. Noiva. Noiva. Ele só podia estar brincando com a minha cara. Ao invés de apertar a mão dela, eu virei de costas e corri para o meu quarto, largando as malas para trás. Permaneci trancafiada lá dentro pelo máximo de tempo que eu pude durante todo verão mas, infelizmente, isso não impediu que meu pai me perturbasse com detalhes do casamento.

                Nunca pensei que sentiria falta do EA, mas era isso que estava acontecendo. Consegui desviar de praticamente todas as balas casamenteiras, mas no dia que estava arrastando minhas malas de volta para o uber que ia me levar para o EA, ele me parou na porta com uma cara de pidão que, eu sabia, só podia significar o pior.

                ― Nicole, então, eu estava querendo te pedir uma coisa. Um favor, na verdade. Mas eu ficaria muito feliz e... ― Ele começou a se enrolar e eu me encolhi, horrorizada.

                ― Desembucha, pai ― eu revirei os olhos, exausta e pronta para dizer não.

                ― Você não quer ser minha madrinha? ― Ele disse, dando um sorrisinho. ― E por madrinha não quero dizer só que você vai assinar o papel, mas que vai me ajudar a... ― ele engasgou. ― É, a arrumar o casamento todo.

                Eu comecei a rir. O pobre motorista do uber que estava tentando arrumar minhas malas no porta-mala do carro olhou na nossa direção com uma expressão ligeiramente apavorada. Meu pai também não estava com a melhor de suas expressões, mas eu não conseguia parar de rir. Primeiro um noivado e agora ele queria que eu fosse a madrinha?

                ― O que você acha? ― Meu pai perguntou, esbugalhando os olhos.

                ― Eu infelizmente não vou ter tempo, pai ― eu respondi, sarcasticamente. ― Último ano do colégio, sabe como é. ENEM ― dei um sorriso obscuro. ― Preciso ir, tchaaaaaau.

                Quase berrei para o motorista meter o pé naquele carro, mas me controlei. Ele não tinha nada a ver com meus dramas familiares. E nem com meu mal humor. Os herbalistas também não tinham culpa, mas isso não impediu que eu berrasse com cada um deles quando eu cheguei no colégio. Me tranquei no meu quarto novamente e abri minhas planilhas de contabilidade. Com a saída de Vicente do colégio, eu tinha visto uma oportunidade de negócio. E depois de ter arrancado o nome do fornecedor dele da boca dele, eu estava cheia de trabalho.

                O que não significava que eu não pudesse procurar algumas distrações. Agora que Vicente estava definitivamente fora do radar, eu precisava arrumar outra pessoa para passar o tempo. Sem falar que investir em Vicente foi o maior desperdício, pois ele nunca me deu mais do que cinco minutos de atenção. E só quando eu praticamente o obriguei a me dar o nome de seu fornecedor. Mas eu iria arrumar outra pessoa, com toda certeza. E dessa vez seria um investimento válido. Precisava fugir do casamento do meu pai, do caos dos herbalistas e das minhas planilhas de contrabando. Um belo par de calças parecia a fuga ideal.

                Por conta do pedido inusitado do meu pai, não tive muito tempo disponível no meu quarto e com as minhas planilhas antes de ter que correr para minha primeira aula. Eu me olhei rapidamente no espelho, arrumando meu cabelo, em especial minha franja. Ela era um pouco rebelde e adorava fazer curvas onde não devia. Sorri para minha imagem, pensando que estava bastante apresentável. Digna da líder da organização mais poderosa da escola. Melhor do que isso, digna de ser a líder da escola inteira.

                Fechei a porta atrás de mim, pendurando minha mochila de spikes nas costas. Estiquei o pescoço, procurando pelo e-mail que o colégio tinha mandado na caixa de entrada do meu celular. Eu nem sequer me lembrava qual seria minha primeira aula, muito menos onde ela se realizaria. Já estava praticamente passando da sala correta quando me dei conta que era biologia e fiz um giro meio torto para entrar no laboratório. As bancadas já estavam cheias, então eu olhei na direção de uma nerdzinha sentada na ponta com meu olhar fatal. A garota levantou a bunda rapidinho e pulou para bancada de trás, sentando ao lado de alguém tão insignificante quanto ela.

                Apesar de ser uma ótima líder, eu gostava de trabalhar sozinha. Minha solidão, todavia, durou muito menos do que eu queria. Primeiro porque no último segundo uma garota nerd entrou esbaforida pela porta e se sentou do meu lado. Para completar, Valéria, nossa professora, também não queria me deixar em paz. Quando ela chegou na sala e escaneou as bancadas, deu um sorriso para uma dupla em especial, lá na frente. Eu sentiria medo se fosse um deles, mas os dois sorriram e acenaram. Demorei um segundo para perceber que a garota do casalzinho nerd em questão era Liz.

                ― Bem, que tal mudarmos um pouquinho nesse novo ano? ― A professora disse, ainda sorrindo para eles. ― Vocês dois juntos dão certo demais ― ela gargalhou, como se genuinamente achasse graça da situação. Pelo menos eu não estava louca de não ver graça nenhuma, porque ninguém mais riu. ― Não tem desafio nenhum ― ela escaneou a sala com um olhar maroto e eu simplesmente soube que ia sobrar para mim. ― Por isso, vamos trocar.

                ― Trocar? ― A voz esganiçada de Liz ressoou pela sala, enquanto ela olhava da professora para o nerdzinho ao seu lado com pânico. ― Como assim trocar?

                ― Você ― ela apontou na minha direção e eu revirei os olhos. Fantástico, vida. Simplesmente ótimo. Obrigada por mais esse incrível presente. ― Que tal trocar de lugar com a Liz esse ano?

                Liz soltou um gritinho mais esganiçado ainda. Eu levantei, dando um sorriso impaciente. Não era realmente um pedido, mas sim uma ordem. Eu não lidava muito bem com ordens, mas aquela em específico eu aceitaria decentemente. Pelo menos aquilo significava que eu não precisaria me preocupar com biologia naquele ano e que minha nota alta era garantida. Liz levantou da cadeira fazendo cara de choro e o seu coleguinha me encarou como se eu fosse o próprio bicho ruim quando sentei ao seu lado.

                Eu contive minha vontade de gargalhar.  Ora, meu querido, talvez eu fosse.

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Nicole já chegou mostrando suas verdadeiras cores. E nem Liz, nem Tiago estão muito felizes com a situação.

Pena para eles que quem manda na história sou eu :)

Espero que vocês tenham gostado do primeiro capítulo. Não esqueçam de SEGUIR A HISTÓRIA e de seguir meu perfil também!

Lembrando que os capítulos serão sempre postados nas quinta-feiras, exceto os bônus, que podem ser em qualquer dia (afinal, eles serão focados nos números de seguidores que conseguirmos). Falando nisso, que tal uma versão de Tiago quando chegarmos em 100 seguidores?

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Obrigada por tudo!

Beijos,

Clara

Capítulo 03: Regras flexíveis