Mais uma virada de ano qualquer

Estímulos do espaço

Mais uma virada de ano qualquer


- ... que eu tenha forças para continuar e não desistir mais das coisas como eu sempre fiz. Que eu consiga ter uma boa ideia para escrever um livro e que esse ano seja diferente. Eu sei que eu preciso mudar e, assim, as coisas ao meu redor também mudarão, mas meu medo da mudança me paralisa e… - ouvi um barulho e interrompi minha oração. Quem estaria batendo à porta quase na virada do ano? E pior: como o porteiro não avisou que alguém estava subindo?

Minha irmã entrou no quarto correndo:

- Dai, tem alguém batendo ‘na’ porta! - falou assustada.

- Eu ouvi, Gi. Fique aqui no quarto, vou olhar através do olho mágico. Às vezes é alguém do prédio mesmo, que veio trazer alguma coisa pra gente sabendo que o papai e a mamãe foram viajar. - de alguma forma, dentro de mim eu sabia que aquilo não era verdade, mas era o que eu queria acreditar.

Quando meus pais pediram para que eu passasse o ano novo com a minha irmã no apartamento deles, eu nem cogitei negar. Essa virada de ano eu queria mesmo que fosse completamente diferente e reclusa. Meu namorado foi passar com os pais dele e eu propus que eu e a minha irmã ficássemos em casa. Sabia que ela ia achar um saco e que todo mundo diria pra gente sair, tanto amigos quanto família, mas eu senti que era uma virada de ano mais introspectiva e também uma oportunidade de passar mais tempo com ela. E realmente, ela não curtiu muito a ideia, afinal garotas de 13 anos já querem mais é aproveitar com os amigos, mas consegui convencê-la.

Levantei rapidamente, deixando-a no quarto e percorri todo o corredor do pequeno apartamento em silêncio, apesar das cachorras já terem feito aquele alarde. Quando cheguei na porta olhei cuidadosamente através do olho mágico para não bater em nada e fazer barulho. A luz do hall estava apagada e, aparentemente, não havia ninguém ali. Eu não queria arriscar, afinal se a pessoa tivesse ficado parada a luz teria se apagado depois de um tempo, ou seja, alguém poderia estar à espreita.

Passei a corrente na porta e a abri com cuidado, logo a luz se acendeu sozinha e constatei que não havia ninguém mesmo por ali. Olhei para o carpete e me deparei com um envelope verde. Abaixei e estiquei a mão para pegá-lo olhando sempre para o hall para ter certeza de que aquilo não era uma pegadinha. Quando fechei a porta com o envelope na mão, minha irmã já estava ao meu lado sem que eu sequer tivesse percebido sua chegada. Virei a parte da abertura para nós e a carta estava selada com um lacre de cera com um símbolo que eu não conhecia.

- Quem deixou isso aí? - perguntou minha irmã.

- Acho que finalmente recebemos nossa carta de Hogwarts! - brinquei.

- Pena que é da Sonserina. - ela brincou de volta por causa da cor do envelope.

Uma mensagem logo abaixo do lacre dizia:

Se abrir, não há volta.

Olhei para a Giovana insegura. Aquilo só poderia ser uma brincadeira, não tinha outra explicação. Por isso, obviamente, resolvi abri-lo:

Às 23h45 embaixo do pontilhão. Não se atrasem, pois não há mais volta e se não forem as consequências serão terríveis.”

Ri de leve - meio de nervoso, meio achando que era uma grande brincadeira -, olhei no relógio e vi que eram exatamente 23h22, não tínhamos muito tempo.

- Nós vamos? - minha irmã perguntou de.

- Óbvio que não. - respondi de imediato. - Com certeza é alguém tirando uma com a nossa cara. Qual a chance de sair na virada do ano para ir até o Pontilhão de Osasco? Ah para, né?

Voltei para o quarto amassando o papel e logo o jogando no lixo, mas no momento em que o fiz as luzes piscaram e a Giovana gritou da sala:

- DAAAAIIII!!!!

Corri até lá e a tela da TV estava com igual à do filme “O Chamado” quando a Samara estava pra chegar. Desliguei a TV e tentei tranquilizá-la por mais que eu mesma não estivesse sentindo aquela tranquilidade:

- Com certeza a luz vai cair por causa chuva. Você não ouviu os trovões? Deve estar pra começar a cair o maior toró.

As luzes voltaram a piscar e a TV religou e chiou ainda mais alto. O pânico tomava conta de mim e o arrependimento por ter aberto aquela carta começou a dar sinais de existência na minha mente.

- Dai, acho melhor a gente ir até lá. - minha irmã disse também nervosa.

Concordei com a cabeça ao passo em que a luz e a TV voltaram ao normal. Inclusive de onde a série “Dark” havia parado antes de eu desligá-la.

- Você está pronta? - perguntei à minha irmã. Ela respondeu que só precisava colocar um tênis enquanto eu fazia o mesmo muito atenta ao relógio que já marcava 23h31. Se caminhássemos o mais rápido possível, estaríamos em menos de 10 minutos embaixo do pontilhão e foi o que fizemos.

O pontilhão de Osasco é o maior orgulho da cidade depois do cachorro-quente: já apareceu em comerciais, há quem diga que custou o triplo do que realmente deveria e no natal é o que mais aparece nas fotos do pessoal que vai conferir os enfeites em frente à prefeitura. Nós moramos bem perto, então o tempo que tínhamos era o suficiente.

A rua não estava tão vazia quanto eu havia imaginado para uma noite de ano novo, afinal pela data ser de domingo para segunda muita gente resolveu ficar pela cidade e não viajar. Aquela vida de proletariado: trabalhar no dia seguinte à festa. Peguei na mão da minha irmã e caminhamos o mais rápido que pudemos. Era praticamente uma linha reta até lá, viramos à direita apenas uma vez e pronto. Chegamos embaixo do pontilhão exatamente Às 23h43 e eu estava contando com a sorte para que o relógio da pessoa que enviou o envelope estivesse sincronizado com o meu.

Algumas pessoas estavam no local, jovens andando de skate, outros bêbados e rindo e eu fiquei imaginando quem passaria uma virada de ano logo ali. Até que me lembrei que eu escolhera ficar em casa. O Brasil tem essa coisa de fazer do ano novo uma grande festa, mas sabemos que em alguns outros países é só mais uma data e o pessoal nem liga muito pra ela.

Aguardamos sentadas numa parte do concreto redondo que tem por ali, o problema é que eu não sabia se estávamos no lugar certo, pois a parte de baixo do pontilhão era grande e poderíamos estar do lado oposto de onde realmente esperavam nos encontrar. O fato é que na carta não tinha nada especificado, então pensei que não poderiam cobrar da gente caso tivéssemos errado. Paciência. Olhei no relógio novamente e eram exatamente 23h45. Aguardamos apreensivas, ambas olhando para o lado até que percebemos uma movimentação diferente. Algumas pessoas de roupas pretas - em pleno ano novo essa cor é estranha - começaram a chegar em pontos ao nosso redor. Parecia que todos estavam nos olhando, mas eu não queria encarar ninguém.

Uma pessoa passou por nós e apenas acenou a cabeça para que a seguíssemos. Era uma mulher, linda ao meu gosto por sinal, de cabelos vermelhos bem escuros, pela morena e olhos bem escuros. Ela era bem mais alta do que eu e minha irmã, isso significava que devia ter, no mínimo, 1,85cm. Mais ou menos a altura do meu pai. Apertei ainda mais a mão da minha irmã e começamos a segui-la.

Atravessamos três ruas, ainda embaixo do pontilhão, e ela nem sequer se preocupou com o trânsito, apenas se enfiou em frente aos carros que foram parando como dava para que pudéssemos passar. Nenhum deles nos xingou, o que achei bem estranho. Chegando na última rua, de contorno para uma avenida chamada Autonomistas, um carro com vidro filmado bem escuro parou à nossa frente e a porta se abriu. Ela aguardou que entrássemos e entrou em seguida fechando a porta.

O carro era enorme, uma SUV que não reconheci, mas que fez meu coração gelar e meu estômago revirar quando percebi que não havia ninguém ao volante. Do lado de fora ninguém perceberia, já que o vidro da frente era tão escuro quanto os demais. Percebi que a Giovana também havia se dado conta disso quando ela apertou minha mão ainda mais forte.

O carro andou tranquilamente por alguns minutos, deu a volta perto do Shopping Continental, bem conhecido na região, até que parou em frente ao Bosque da Amizade, um pequeno pedaço de floresta conhecido por ser bem perigoso à noite.Descemos do carro dirigido por um fantasma seguindo a mulher que nem sequer nos olhou durante o trajeto. É claro que a minha vontade era de fazer mil perguntas, de gritar pedindo socorro e tentar entender o que estava acontecendo afinal, mas algo me dominava e não era só o medo. Apesar de estar apreensiva e insegura, eu sentia que aquilo tudo tinha um propósito. Talvez eu estivesse dormindo e logo fosse acordar de um sonho bem estranho, mas que poderia ser divertido no fim.

Entramos no Bosque da Amizade e meu corpo se arrepiou inteiro. O caminho de passagem de pedestres tinha uma grade em volta. No passado estupradores pegavam mulheres desprevenidas e as levavam para o meio do mato. Ao invés de resolver o problema da violência, como sempre, preferiam tapar o buraco com a peneira e construir grades no lugar de dar educação ao povo. Atravessamos a grade num ponto aberto que eu nnca tinha visto e entramos na mata. O engraçado era que enquanto caminhávamos, eu e minha irmã estávamos pisando em galhos e folhas, mas a mulher à nossa frente parecia flutuar. Os pés dela não pareciam tocar o chão e nenhum barulho vinha da sua direção.

Fomos nos embrenhando cada vez mais na mata fechada, o bosque não era muito grande, mas certamente ninguém ao redor veria nada do que pudesse acontecer ali dentro, afinal a mata era realmente fechada. A caminhada durou cerca de cinco minutos até que chegamos numa clareira. Eu e a Giovana paramos de supetão, eu a segurei pela barriga. Agora sim eu estava em estado de extremo alerta e algo me dizia que o perigo estava ali, mas eu não conseguia correr ou me mexer. A mulher virou para nós, nos encarou e, de repente, ouvi dentro da minha cabeça:

- Aproximem-se. - uma voz robótica e nada feminina falava comigo dentro do meu cérebro. Olhei para os lados e todos os outros de preto - que antes vimos embaixo do pontilhão - estavam ao nosso redor.

Sem entender porque, comecei a sentir algo me puxando pela barriga, como se tivesse um fio vindo da mulher, se conectando ao meu umbigo. Pelo jeito minha irmã sentia o mesmo, porque ela conseguiu resistir por menos tempo e já estava sendo arrastada naquela direção chorando e visivelmente tentando se afastar sem sucesso. Prometi a mim mesma que não deixaria que nada acontecesse a ela, por isso parei de resistir e senti aquela força me puxando para mais perto também.

Uma luz se acendeu no céu e me senti cega, não conseguia enxergar nada ao meu redor e meus olhos começaram lacrimejar tanto ao ponto de eu não conseguir mais mantê-los abertos. Não sabia mais aonde estava minha irmã ou a mulher que nos acompanhava, senti meus pés saírem do chão e de repente tudo estava preto.


Barulhos de metal batendo em algum lugar distante tomaram meus ouvidos conforme fui retomando a consciência. Eu estava deitada, provavelmente em algo também de metal, pois sentia o local frio e muitas pessoas se movimentavam ao meu redor. Senti um desconforto no braço direito, próximo ao punho, como se algo tivesse queimando por dentro da pele. Tentei abrir os olhos, mas tive dificuldades, eles não me obedeciam. Quando finalmente consegui, a cena com a qual me deparei me fez gritar e pular do que parecia - olhando rapidamente - ser uma maca. Corri até uma janela e fiquei ainda mais em choque. Eu parecia estar no espaço, o universo lá fora era infinito e, ao longe, eu via o que provavelmente era o meu planeta de origem: a Terra, assim como a tinha visto tantas vezes em filmes como “Gravidade”, por exemplo.

Olhei ao meu redor novamente e nenhuma daquelas criaturas parecia estar incomodada com a minha angústia. Não tinham nada a ver com os filmes ou os relatos como aqueles do ano do E.T. de Varginha. Eles tinham a pele realmente puxada um pouco para o verde, uma cor que parecia de pele morta, mas os olhos se assemelhavam aos nossos só que um pouco mais redondos. Seus corpos pareciam mais esguios, mas ao mesmo tempo com uma musculatura rígida. A cabeça era pontuda e não consegui encontrar nada além de dois orifícios no lugar das orelhas, outros dois no lugar do naris nariz e um risco no lugar da boca.

Comecei a gritar, perguntando aonde eu estava, aonde estava minha irmã e o que eles queriam comigo, mas ninguém respondeu de imediato. Alguns segundos depois aquela voz que tinha falado dentro da minha cabeça, começou a se manifestar novamente:

- Você terá todas as respostas no momento certo. - olhei para todos ali presentes e parei em um olhar que parecia familiar. Mas ela estava diferente, não tinha mais aquela aparência humana. Será que tinha se transformado?

- Sim, nós temos essa capacidade. - aquela voz novamente. Não era possível, ela era capaz de ouvir o que eu estava pensando.

Meu braço começou a arder e a me incomodar ainda mais. Olhei e vi que estava muito vermelho perto do punho e que parecia machucado. Droga, o que será que eles haviam enfiado em mim? Várias vezes vi programas sobre ET’s que implantam chips em seres humanos no History Channel. Será que eu havia entrado para a estatística de lunáticos nos quais ninguém acredita?

Já que o esquema era pensar para se comunicar, me perguntei sobre a minha irmã, ao que a “mulher” respondeu novamente:

- Vamos levá-la até ela, se você prometer se comportar. - disse me encarando profundamente.

Fiz que sim com a cabeça e a acompanhei enquanto os outros nos olhavam. Saímos da sala e percebi que todos os ambientes eram claros e faziam meus olhos doer. Tudo era extremamente limpo, como num hospital. Não. Era muito, mas muito mais limpo. Os corredores me lembravam aqueles de navios, com muitas portas de ambos os lados. Eu não sabia dizer de que tamanho era aquela nave, mas sabia muito bem que eu precisava sair dali ou acordar daquele sonho que já estava durando tempo demais.

- Chegamos. - ela me disse mentalmente. - Essa é a Sala das Conquistas. A sala em que analisamos aquilo que os seres humanos almejam e como farão para alcançar seus sonhos.

- Como assim? Vocês estudam a gente? - perguntei.

- O que você achava? Vocês são nosso alvo de estudo desde o surgimento da humanidade, até hoje. Comportamento, evolução, violência, comunidade. É incrível como se diferenciam tanto ao redor da terra. Nunca imaginamos que chegariam tão longe. Mas ultimamente estamos muito mais interessados nos indivíduos. Em sua motivações, ou melhor, no seu propósito. É por isso que por lá falam tanto de propósito e de trabalhar com aquilo que você nasceu pra fazer. Esse papo não existia antes, não é mesmo?

Enquanto ela falava me dei conta de que estava respirando e me perguntei como.

- Não se preocupe. Nós nos adaptamos a qualquer ambiente, mas como vocês são limitados, abastecemos tudo com oxigênio. Você está bem. - ela disse caminhando em direção a um vidro. - Como eu estava dizendo, na Sala das Conquistas, analisamos tudo o que aquele indivíduo quer para a vida dele. Isso vale tanto para a vida pessoal quanto para a profissional

Conforme fui me aproximando vidro, vi que tinha uma sala mais pra baixo, na qual minha irmã estava deitada, desacordada, com diversos tubos ligados à sua cabeça.

- O que vocês estão fazendo com ela? - quis saber me jogando para o vidro que provavelmente era como um vidro blindado.

- Ela está bem, não se preocupe. - ela me respondeu sem esboçar reação com aquela cara sem expressão alguma.

De repente, vi que outros seres se aproximavam da minha irmã com o que pareciam ser instrumentos médicos como os da Terra.

- O que vão fazer com ela? - comecei a bater no vidro.

- Irão ver como os órgãos dela se comportam enquanto estimulamos seu cérebro com coisas que ela pode perder, mas que deseja muito. Hoje você volta para a Terra, mas ela fica conosco.

- De jeito nenhum. - pensei dizendo para ela.

Olhei ao redor e vi uma porta próxima ao vidro, corri para ela e cai vários degraus por não estar esperando me deparar com uma escada. As luzes começaram a piscar e ouvi passos. Olhei para cima e lá estava o ser de cor estranha que havia me tirado do conforto do lar para abrir as tripas da minha irmã.

- Pare ou irá se arrepender. - disse ainda calma, mas com a mesma voz robótica.

- Amiga, se você esperava que eu não fosse fazer nada, era melhor nem ter me tirado de casa!. - falei enquanto levantava com a perna dolorida e continuava a descer as escadas. Quando cheguei a uma porta saí num corredor que ia somente para a esquerda.

Droga! A sala está para a direita, como chego lá agora?”, pensei comigo mesma.

Ouvi mais passos atrás de mim e continuei para onde dava com as luzes ainda piscando. Encontrei mais um daqueles seres, mas ele saiu do meu caminho enquanto eu corria, ele provavelmente não sabia que eu não devia estar onde estava, mas isso logo mudou, pois um alarme começou a tocar e eu achei que meus tímpanos iam explodir. Logo, todos sabiam que deveriam me parar. Corri mais rápido, entrando em mais corredores, sempre tentando ir na direção em que eu achava que estava a sala onde minha irmã iria ser aberta.

Quando estava quase chegando numa porta que pelos meus cálculos parecia ser a correta, um dos seres entrou na minha frente - vindo do nada - apontando uma arma muito estranha para mim.

- Pare ou terei que atirar. - mais uma voz robótica dentro da minha cabeça.

- Minha irmã está aí dentro, eu preciso chegar até ela. - falei praticamente implorando.

- Se der mais um passo, você morre. As ordens são claras, você vai voltar para a Terra sem ela.

- Então eu prefiro morrer. - eu disse correndo em sua direção.

Algo muito quente atingiu meu peito e eu senti o mundo escurecendo novamente. Eu havia falhado na missão com a única pessoa que confiara em mim.


Comecei a recobrar a consciência e sentir meu corpo pesado sobre algo um pouco mais confortável do que antes. Quando abri finalmente os olhos, vi quem eu pensava ser o mesmo ser - eles eram muito parecidos - sentado me olhando e minha irmã sã e salva ao seu lado.

- Daaai, finalmente você acordou! - ela veio correndo na minha direção.

- Gi, você está bem? O que eles fizeram com você? - perguntei levantando sua camiseta, mas aparentemente ela estava sem cicatrizes.

- Ninguém fez nada comigo! Você sabia que nós estamos nos espaço? Cara, minha amigas não vão acreditar! Eles já me mostraram várias coisas, fiquei olhando um monte de estrela que eu já estudei na escola e vários planetas. A Lua de perto é muito da hora, você perdeu! - ela estava muito empolgada, como eu nunca a vira antes e eu estava em choque. E aquela cena toda no maior estilo Grey’s Anatomy?

- Giovana, será que você poderia nos dar um minuto? Menkin vai te mostrar mais umas coisas legais que temos por aqui. - o ser apontou para um outro ser que estava no canto da sala, o qual eu nem havia reparado. Minha irmã foi até ele e eles saíram juntos da sala.

- O que vocês fizeram comigo? Que brincadeira foi essa? - eu queria satisfações, que loucura era aquela?

- Você aceitou morrer pela sua irmã, para alcançar seu objetivo de tentar salvá-la. - ela me disse olhando por uma janela próxima a nós.

- Sim, e daí? Era o mínimo que eu podia fazer. Ela é minha irmã, eu poderia ultrapassar todos os meus limites por ela.

- Então eu quero que você tenha essa sensação em mente para tudo o que for fazer a partir de agora. - ela me encarou como se estivesse me dando uma ordem.

- Como assim? - não entendi o que ela queria dizer com aquilo.

- Os anos vêm e vão, Daiane, os segundos, minutos, horas e dias passam. O tempo está sempre correndo e a a mutação de tudo que é matéria é constante, mas o que é mais difícil de mudar sem a vontade interna devida é o cérebro humano. Já fizemos de tudo para estimular populações inteiras, mas somente alguns são impactados pelos nossos estímulos. A virada de ano gera uma grande expectativa, assistimos queimas de fogos, pedidos, promessas, mas tão pouco se concretiza. Por quê?

- Você não sabe o quão difícil é a vida lá embaixo. Principalmente no Brasil, já experimentou tentar? - eu disse rindo, mas com certa preocupação.

- Não é sobre isso que estamos falando. Até as coisas mais simples são deixadas de lado por serem difíceis. É preciso ter garra, fazer tudo como se a sua vida ou a vida de alguém que você ama dependesse daquilo. É preciso ter amor pelo que você faz. Você: o que falta para começar a escrever seu livro, por exemplo?

- Uma boa ideia, tempo, inspiração…

- Tempo a gente arranja quando quer, a inspiração sempre vem quando encontra a pessoa trabalhando e uma boa ideia… Taí. Talvez você devesse escrever sobre nós.

Eu ri, mas vi que ela falava sério.

- Na verdade, não importa sobre o que você vai escrever, só quero que tenhamos conseguido despertar em você essa ânsia de correr atrás dos seus objetivos. 2018 não vai ser nada diferente de 2017 se você continuar igual. Lembre-se o tempo urge e só você pode correr atrás dos seus sonhos. Ninguém mais.

Um barulho de porta atrás de nós me chamou a atenção. Quando virei algo quente já estava atingindo meu peito novamente e o mundo escurecendo mais rápido do que eu gostaria.


- Dai… Acorda… - alguém cutucava meu ombro e eu me sentia dolorida. - Dai, acorda! Já vai dar meia noite. Não basta você me fazer passar o ano novo em casa, ainda vai passar dormindo? - era a voz da minha irmã. Abri os olhos e vi que dormi com a cabeça caída na cama.

- Foi mal, acho que eu estava rezando, sei lá. Devo ter caído no sono enquanto isso. - falei com um certo desconforto no peito e no punho direito que estava bem vermelho. Devia ter dormido muito de mal jeito mesmo. Por quanto tempo?

- Tá bom, mas coloca o tênis pelo menos pra gente ver os fogos na prefeitura.

- Tá… - Levantei, coloquei o tênis e desci com ela até a rua da prefeitura.

A rua estava bem mais cheia do que eu imaginava e as pessoas aguardavam ansiosamente pela queima de fogos que nem era lá essas coisas. Quando deu meia noite e os estouros começaram, eu e a Gi nos abraçamos e desejamos um feliz ano novo uma para a outra. Depois, fiquei olhando para o céu, imaginando aquela imensidão toda e o que teria por lá, também imaginando o que seria do meu 2018, o que ele me reservava, quando vi uma luz estranha no céu. Ela ficava se movimentando de um lado para o outro de forma estranha, não parecia um avião. Será que era um disco voador? No mesmo momento, uma frase veio à minha mente: “Talvez você devesse escrever sobre nós”. E eu pensei: por que não?