Prólogo

Quem me Matou?

Prólogo

Estou em um beco escuro e sujo da periferia localizado em uma área onde o estado não mais atua, um lugar e a que todos apenas se referem como o Expurgo.

Está frio, venta muito e é alto da noite. Trovões denunciam o aproximar de um temporal.

Começou a garoar e estou sem a porcaria da capa de chuva. Em poucos minutos fico toda encharcada.

O chuvisco aliado ao vento forte e gelado parece chicotear minha pele, meu caro vestido parece que está sendo arrancado do meu corpo.

Sinto uma estranha sensação. Parece que eu não estou aqui, apesar de estar, é como se eu estivesse assistindo de longe a minha própria vida e não a protagonizando.

Tudo é um grande déjà vu e a impressão que tenho é a de estar revisitando tudo isso. Meu palpite é de que o que estou vivenciando já aconteceu e agora estou apenas seguindo um roteiro.

Estou confusa. O que estou fazendo aqui na rua a uma hora dessas?

Não me lembro exatamente quais foram as motivações que me levaram até aqui. A única coisa que sei é que tenho que estar em um local específico e pontualmente na hora marcada para tratar de algo do meu interesse com alguém que nunca vi antes.

Esse algo mudará minha vida para sempre, mas nem me vem a cabeça qual será o assunto.

Estou preocupada, ofegante, nervosa e meu passo é apressado. O que está me causando toda essa ansiedade? — Pergunto-me.

Não consigo me lembrar. Apenas sigo andando como se eu estivesse no automático e as minhas pernas não fossem minhas mesmo, mas sim obedecendo as ordens de uma outra pessoa.

Tudo é muito estranho, afinal eu poderia ter realizado essa reunião, fosse com quem fosse, em um ambiente virtual quentinho e agradável no Metaverso por meio de avatares.

Mas não, eu tinha que estar aqui de aparecer de corpo presente. Resultado: cá estou eu tomando toda essa chuva. A esta altura dos acontecimentos já estou encharcada, não corro mais o menor risco do meu vestido ser erguido pelo vento, ele já grudou em mim.

Hoje em dia ninguém sai de casa para um simples encontro já que tudo pode ser resolvido online, ainda mais nesse tempo.

Já fazem semanas que não saio fisicamente do meu apartamento, devo estar louca. — Penso comigo.

Olho para os lados e me pergunto: Que lugar ermo é esse? Cruzes.

Ao reparar nos detalhes ao meu redor eu me arrepio toda, além de parcamente iluminado estas vielas estão atulhadas de entulho e lixo pelos cantos e um cheiro desagradável de esgoto invade minhas narinas.

Estou rodeada de uma multidão de inválidos e mendigos largados e apilhados pelos cantos. Todos esses são os chamados de intocáveis, inúteis para a sociedade.

Como ainda sobrevivem? — Fico a me perguntar.

Quem se importa com isso afinal? — Dou de ombros como resposta a minha própria pergunta.

Esse cheiro horroroso continua invadindo minhas narinas me obrigando a configurar o meu sistema de suporte e bem-estar para anular o odor. Desta forma, ao invés do desagradável aroma de esterco, eu sinto apenas cheiro de alfazema.

O sistema vai enganando meu cérebro a medida que caminho de modo que, sempre que surgir esse cheiro desagradável, eu seja bombardeada por refrescantes lufadas de alfazema.

De todo modo continuo caminhando apressadamente por ruas e vielas cada vez mais estreitas. Chamo a atenção e muitos olhares se voltam para mim com curiosidade.

Me sinto aflita, um desconforto, um nojo toma conta de mim. Desejo imensamente que estes miseráveis não me olhem mais e tampouco que eu também os veja.

Ajusto o meu visor de realidade ampliada instalado diretamente na minha retina para ocultar todo e qualquer indivíduo classificado como "intocável" do meu campo de visão.

Com o dedo em riste manipulo o menu que flutua bem na minha frente e na altura das minhas vistas. Pronto, a partir de agora eles serão meros "borrões" que deixarão de ter um rosto e forma.

É, só que isso piorou as coisas para mim já que estes "borrões" começaram a me assustar, eles davam a impressão de serem fantasmas vagando a ermo pelos cantos. Dei comando para o sistema apaga os "vultos" e no lugar tentar preencher com objetos virtuais ou recriar o cenário digitalmente.

Contudo eles ainda podiam me ver, o que me deixava exposta, e para contornar isso utilizei os meus privilégios como cidadã classe “B” para fazer o console me ocultar, dessa forma eu ficaria invisível para eles assim como eles são para mim. Minha sorte é que todo mundo, até mesmo os inválidos, tem implantes de realidade ampliada nos olhos, logo não havia como alguém me ver naturalmente.

Continuei assim meu insólito passeio me sentindo um pouco mais segura.

Se não fosse o ressoar dos meus saltos altos batendo no asfalto não haveria como eles saberem que eu estava caminhando por aquele beco.

Cheguei.

Esperei.

E nada.

Me posiciono na esquina e me abrigo embaixo de um toldo. Não há uma alma na rua salvo os inválidos que continuavam ocultos das minhas vistas.

10 minutos esperando e nada. Eu espirro compulsivamente, com certeza eu ficarei resfriada.

— Droga! Cadê essa pessoa? — Resmungo sozinha.

Noto que vem vindo alguém em minha direção.

— Quem é você? — Pergunto.

Não há resposta.

O sistema do meu console me diz que essa pessoa não tem um perfil de rede social ou mesmo uma identidade válida.

Fico apavorada ao notar que algo está errado, já que todo cidadão sem uma classificação deveria ser categorizado como "intocável".

O que não está acontecendo nesse caso.

Deveria ser só mais um indigente, mas eu estou vendo ele e, pior, ele está me vendo.

Não há como burlar o sistema, exceto se a pessoa não possuir um console implantado, o que é bem improvável.

Fico a me tremer de medo tentando descobrir porque ele, mesmo com meus bloqueios, ainda conseguia me ver.

A medida que ele chegava mais perto eu notava suas roupas estranhas e esfarrapadas.

Meu coração faltou saltar da minha boca quando notei que ele se ocultava atrás de uma máscara.

Petrificada hesitei e acabei perdendo a chance de fugir.

Ele exibiu uma faca para mim assim que ficou a poucos metros de mim.

— Meu Deus, você tem uma faca! — Conseguir vencer a letargia e gritar. — Afaste-se de mim!

— Não, não, não! — Supliquei.

Escuridão e silêncio. Não sinto mais nada.

Capítulo 01