Cena III - Joel tirou Alexandra

Cenas de um quase amigo oculto

Cena III - Joel tirou Alexandra

Minhas expectativas estavam sendo marretadas com força pelo sorriso dele. Ele estava tão contente com a ideia! O que ele queria com Alexandra, afinal de contas? Ele estava tão ciente quanto eu que ela o odiava, caso contrário ele não estaria ali insistindo para que eu entregasse o raio da caixinha. Entregaria ele mesmo. Como qualquer pessoa normal que quer entregar uma caixinha para outra.

Mas por que eu? Eu me perguntava de segundo em segundo. E, mais importante de tudo, o que tinha na caixinha? Mesmo com o coração meio que partido, eu queria saber.

– É um presente

– Seja mais específico – pedi. – Sem chances de eu levar isso até a Dollhouse se eu não estiver completamente segura de que não é uma bomba relógio. Tudo bem que eu fui despedida de maneira vil numa data inconveniente, mas eu ainda tenho um apreço pela loja. Embora seja pequeno.

– Não é uma bomba, é uma jóia. Eu ia dar para ela no Natal do ano passado, mas pouco antes disso a gente brigou e ela parou de falar comigo. Eu pensei “que se dane, garotas vem e vão”, mas Alexa, não sei como, deu um jeito de ficar. Aqui, o tempo todo na minha cabeça. Mesmo que ela tenha me bloqueado em todos os lugares, mesmo que eu nunca a veja, porque ela é boa demais em conseguir me evitar. Acho que ela liga um radar anti-Joel quando anda pelos corredores do shopping. Eu nunca dou a sorte de esbarrar com ela.

Isso me lembrava da conversa que ela teve comigo sobre o pavor de andar pelos corredores e encontrar alguém indesejado. É possível que ela tivesse baseado seus conselhos em sua própria experiência. Reservei alguns segundos para ficar chocada com a minha conclusão tardia.

Eu nunca, nunca, nunca desconfiei de nada.

– De vez em quando eu passo lá no corredor da Dollhouse e dou uma boa olhada nela. Ela é tão compenetrada, né? Fica organizando as vendas de vocês, ou fazendo as contas dela atrás do balcão. Será que dá pra você dar um toque nela para ela parar de morder a tampa da caneta enquanto pensa? Isso não faz bem pros dentes. E ela tem um sorriso tão bonito... O mais bonito que já vi, dentro da minha vasta vivência. A gente namorou só por quatro meses, sabe? No ano passado. A experiência mais intensa que já vivi até hoje. Até mais intensa que o show do Guns and Roses. Dá pra acreditar?

Eu encolhi os ombros sem fazer a mínima ideia de qual seria a resposta apropriada. Realmente, não dava para acreditar.

– Eu só acreditei depois que a gente terminou – Joel falou com um encolher de ombros ainda mais vulnerável que o meu.

Quem diria que Joel, o mais alto astral dos vendedores da loja de artigo esportivos carregava um fardo tão grande dentro de si? Eu deveria estar com pena de mim, mas na verdade eu estava com mais pena dele. Acho que era o espírito natalino me atingindo em cheio, quando eu menos esperava.

Coitado, Alexandra era uma das pessoas mais osso duro de roer que eu conhecia. Não ia ser uma simples caixinha que ia amolecer o coração dela. Ainda assim, eu concordei em fazer a minha parte.

Culpei o espírito natalino por isso.

– Brida, se pintar a oportunidade, você pode dizer a ela que ela é um floquinho de neve muito especial? – Joel me perguntou quando a gente chegou às imediações do corredor da Dollhouse.

– Isso é um pouco brega.

– Eu não me importo. O que eu sinto por ela é um pouco brega mesmo, meio meloso também, mas o que eu posso fazer? Acho que o amor é assim mesmo.

– É, linda teoria, de verdade, muito romântica, mas não vai ser você que vai ter que falar, vai ser eu – contrapus. – Eu tenho uma reputação a zelar, entende? Eu não era considerada a diferentona da Dollhouse por nada.

– Desculpa por estar fazendo você passar por isso no dia do seu desemprego, mas... Sei lá, eu não sei explicar. Só não aguento mais deixar a situação ficar do jeito que está, esse aperto dentro do meu peito. Tenho certeza que ela vai gostar do presente. Ela só não iria gostar de saber que fui eu que dei. Você entra lá que eu vou ficar de tocaia no corredor ali perto do bebedouro, é meu ponto estratégico, eu já tinha estudado a área. Quero poder ver a reação dela.

A noção de que Joel sempre foi apaixonado por Alexandra ainda me dava muito trabalho para digerir. Como eu não tinha percebido antes? Eu me perguntava a cada dois passos.

Agora tudo parecia tão óbvio: o jeito como às vezes o sorriso dele se desfazia de uma hora para outra no meio de uma conversa, a quantidade de vezes que ele me perguntava se minha gerente andava me maltratando, e como ele me consolava pelas atrocidades que aconteciam na loja me dizendo casualmente que tinha certeza que minha chefe não era tão ruim assim.

Ela não era e ele tinha certeza mesmo. E com razão. Ele a conhecia muito melhor do que eu.

Dei mais dois passos enquanto ele se dirigiu para o seu esconderijo no corredor, pensei outra vez sobre o assunto, respirei fundo e entrei na loja.

A Dollhouse era uma loja de sapatos que fazia de tudo para imitar uma casa de bonecas. Inclusive cometer a atrocidade de chamar todas as vendedoras que lá trabalham de bonecas. Coisa que costumava me dar nos nervos.

Mas agora, na minha posição de ex-boneca, conseguia perceber a loja por uma perspectiva totalmente diferente.

O ambiente era bonitinho e aconchegante, as meninas trabalhando de vestido de bolinhas dava um toque especial ao lugar, como se a gente se teletransportasse direto para outra época ao estar lá dentro.

Forcei os pensamentos nostálgicos para fora da minha cabeça e me concentrei em achar Alexandra, o que não foi difícil, o suspiro que ela deu teve a potência de chamar minha atenção. Ela costumava respirar assim quando tinha alguém testando o limite da sua paciência. Geralmente esse alguém era eu. Mas no momento era uma cliente.

– Hm, Alexandra? Posso falar com você um instantinho? – perguntei sem mais delongas, antes que ela explodisse com tanto ar inalado, com certeza a cliente era um pé no saco, tinha toda a cara de ser.

Eu sabia só de olhar

Alexandra fez um sinal para Andrea tomar as rédeas com a cliente, parecia quase feliz em me ver, mas eu sabia que a felicidade tinha mais a ver com a desculpa para se livrar da cliente do que com a minha linda presença.

– Você veio implorar seu emprego de volta?

– Não. Vim te dar isso – saquei a caixinha do bolso da minha jardineira, ela me olhou sem entender nada.

– Você veio me bajular para conseguir seu emprego de volta? – ela perguntou. – Acho que essa é uma boa hora para te informar que eu tenho muito pouco a ver com isso, sua demissão foi um pedido que veio direto de Carolina.

– Acho que essa é uma boa hora para você simplesmente abrir a caixa – eu rebati, afinal, eu estava curiosa para saber o que tinha dentro.

Alexandra me olhou toda desconfiada e desfez o laço, logo depois abriu a caixa. Dessa vez, em vez de de inspirar grandes quantidades de ar, prendeu a respiração e torceu a boca de um lado para o outro.

– Me diz que isso é bijuteria – ela pediu, agarrando meu braço. Agarrando forte, eu quis dizer. Espichei meu pescoço para ver o que tinha dentro da caixinha, era um cordão prateado com um pingente de floco de neve. Bem bonito, se alguém quisesse saber minha opinião. Ela levantou o cordão contra a luz, ficou olhando para ele numa expressão de puro horror.

– Não sei dizer – fui sincera.

– Você tem que saber – ela disse apertando ainda mais o meu braço. – Você não pode me bajular me dando uma jóia. Isso é antiético. E eu não posso fazer nada pelo seu emprego.

– Tudo bem – eu disse com um encolher de ombros. – Eu já aceitei que eu não vou ter meu emprego de volta, só queria que você soubesse que você é um floquinho de neve muito especial.

Percebi que a situação já estava tão esquisita que uma esquisitice a mais, uma esquisitice a menos não faria tanta diferença.

Um segundo depois vi que tinha percebido errado.

– Isso tem dedo de Joel, não tem? Foi ele que te induziu a comprar algo para me bajular? Isso seria no mínimo irônico, porque nunca vi esse cara dar nada para ninguém.

– Nem pra você? – eu perguntei.

Mas juro que foi totalmente um reflexo, não era minha intenção revelar que eu sabia que existia algo entre eles dois. Nada estava saindo como o esperado hoje, nem mesmo as minhas próprias ações.

Os olhos de Alexandra começaram a marejar e eu fiquei sem chão. Aquela era a mulher mais firme que eu conhecia. Ela era a principal responsável por manter a Dollhouse nos eixos. Ela não podia estar se desmanchando por causa da minha pequena indiscrição, podia?

– Pra mim muito menos – ela disse com uma voz fraquinha, seguida de uma fungada.

Eu quis dizer alguma coisa para reverter a situação, mas não deu tempo. No segundo seguinte Joel já entrava loja adentro e as vendedoras pararam de trabalhar para prestar atenção dele.

– Não vá chorar, Alexa, o presente era para te deixar feliz. Não acredito que fiz tudo ao contrário. De novo.

– Foi você? Mesmo? – ela perguntou ainda mais chorosa do que antes.

Eu não queria estar por ali caso o choro começasse, ao mesmo tempo, não conseguia parar de observar a cena. Joel atravessava passo por passo, muito devagar, como se tivesse medo de afastá-la enquanto ele se aproximava. Sua mão alcançou o braço dela e segurou, trazendo-a um passo mais para perto dele.

– Claro que foi – ele disse bem baixinho, por sorte eu estava perto o bastante para ouvir. – E está comigo desde o Natal passado. Toda vez que eu olhava para ele, ou qualquer outro floco de neve, eu me lembrava de você. Na verdade, qualquer coisa que eu olhava com mais atenção trazia você de volta pra minha cabeça. Era uma sensação ótima e péssima ao mesmo tempo.

Então aí Alexandra começou a chorar de verdade. Não deu para ver detalhes porque ela apoiou a cabeça no ombro dele antes de começar. E Joel na mesma hora a envolveu num abraço.

– Me desculpa, Alexa, me desculpa – ele dizia contra o cabelo dela, completamente alheio à plateia em volta. – Você tem como me desculpar?

Dava para ver que ela balançou de leve a cabeça para cima e para baixo, ainda envolta nos braços dele. E lá de dentro do casulo que se formava a volta dela ela disse:

– Mas se no futuro a gente for voltar a namorar, temos muito que conversar.

– Pode ser agora? Tem que ser agora. Não quero passar outro Natal sem você.

Alexandra de repente se liberou dos braços dele e virou a toda para mim, cheia de marcas de lágrimas manchando suas bochechas.

– Toma conta da loja para mim? – ela me perguntou, eu respondi com a cabeça num aceno que eu esperava que tivesse passado uma ideia de eficiência.

Ela saiu puxando Joel pela mão enquanto eu me encarreguei de ordenar todas as meninas de volta para o trabalho. O show tinha acabado. Pelo menos para nós que éramos reles expectadoras daquele amor que passou o ano inteiro mal-resolvido diante de nossos narizes e ninguém percebeu.

Os clientes continuaram entrando, desesperados pelos sapatos dos números mais difíceis possíveis. Se é que existiam números fáceis de serem encontrados em plena véspera de Natal. Eu sinceramente achava que não.

Outra coisa que eu sinceramente não achava que aconteceria era a odiosa Carolina dar o ar de sua graça na loja justo naquele dia especial.

Mas aconteceu.

Eu estava atendendo uma cliente quando o cheiro forte do seu perfume anunciou sua chegada. Ela bateu os olhos em mim e ficou me observando de perto, sem ousar interromper a venda astronômica que eu me encarregava de fazer.

Claro que ela não ousaria. Esse dinheiro ia diretamente para o bolso dela, pois como eu nem sequer trabalhava mais ali, direito de comissão é que eu não teria.

 Ding-ding-ding, deveria estar soando na cabeça dela.

Quando a senhora que foi embora sorridente com seus cinco novos pares de sapatilhas, Carolina se aproximou da minha órbita com a agilidade de um felino.

– Boa venda, Brida, não faz mais do que sua obrigação.

– Na verdade... – eu pretendia salientar o fato que não fazia mais parte da minha obrigação, mas ela interrompeu minha fala.

Como sempre.

– Você quer seu emprego de volta, não quer? Tudo bem, você pode ter, se você faz tanta questão. Mas trate de chegar na hora daqui pra frente – ela jogou uma mecha de cabelo para trás por cima do ombro, deu meia-volta e desfilou em direção ao estoque.

As outras bonecas olhavam para mim com expressões de alívio. Segurar a barra da véspera de natal com uma vendedora a menos e uma gerente no meio de um caso de amor não deveria ser fácil. Mas eu estava ali para ajudar. Dei uma risadinha para elas e soltei o ar que nem sabia que estava prendendo.

– Seja bem-vinda de volta – disse uma das bonecas. – Vê se não chega atrasada na véspera de ano novo, porque eu já estou meio que planejando chegar.

– Pode deixar – assegurei.

Meu plano para o ano novo era valorizar o que ganhei de Natal.

Apesar de eu só ter ganhado o que eu já tinha, acho que o susto serviu para me fazer ficar esperta.

Atendi a próxima cliente toda animada.

Nada como o entusiasmo das segundas chances.

 

_____________________________________

Então é isso, gente! Esse foi meu conto natalino e eu torço para que vocês gostem <3

Posso dizer que amei dividír um pouquinho da Brida com vocês. E vou adorar ler as opiniões sobre o conto, caso vocês queiram me contar. 

Me despeço com votos de que 2018 seja um ano de muita luz e magia, cheio de boas leituras e alegria. Espero dividir muitas outras histórias com vocês. Seja por aqui, pelo Wattpad, ou até mesmo no formato impresso :D Para saber por onde andam minhas palvras, é só me seguir nas redes sociais.

Sou @aimeeoliveira no Instagram e no Wattpad e @aimeeuh no Twitter, caso você seja do tipo que gosta de ouvir reclamações.

Também tenho uma página no Facebook que é /umaAimeeOliveira e um grupo chamado: invisibilidade & aimee oliveira, onde conto todas as novidades em tempo real, faço alguns sorteios e outras coisitas mais. 

Além disso, caso você queira ler meus romances publicados em formato impresso: "Pela Janela Indiscreta" e "Amores Improváveis" é só falar comigo que leu esse conto aqui pelo Sweek que tem desconto na compra (: 

Acho que é só, agradeço a todos que leram e ao Sweek por ser um amorzinho de plataforma. 

Beijos estrelados, 
Aimee*