Cena II - Brida tirou Joel

Cenas de um quase amigo oculto

Cena II - Brida tirou Joel

— Ho-ho-ho! — uma imitação de bom velhinho me segurou pelo braço enquanto eu tentava passar zunindo pelos corredores do shopping. — Cuidado por onde anda, mocinha! Desse jeito você vai escorregar na neve fictícia feita de espuma barata.

Deu para ver que minha rota de fuga não tinha sido bem calculada. Eu puxei a barba do Papai Noel e olhei para a cara que se escondia por baixo. Ah, eu conhecia aquela cara! Em especial, eu conhecia aquela boca. 

Joel trabalhava na loja de artigos esportivos do shopping. Vontade de beijá-lo não me faltava, mas a fantasia de Papai Noel de clima tropical era um impedimento.

Quero dizer, mais um item na lista de impedimentos para eu não conseguir beijar Joel.

Um ano trabalhando naquele shopping e nada. Será que hoje, no meu último dia, eu conseguiria?

Esse sim era um presente de Natal pelo qual eu ansiava. 

— Ho-ho-ho! — eu respondi, entrando no clima. — Cuidado com o que deseja! Nunca mais vou correr o risco de escorregar na neve fictícia. Acabei de ser despedida.

— Agora? No pico das compras de fim de ano? O que foi que você fez? Deve ter sido sério.

Não estava particularmente orgulhosa em assumir meus atos. Por isso fui convenientemente evasiva:

— Apenas fui eu mesma, não sei qual é o problema nisso — joguei meus cabelos para um lado depois para o outro e depois para o outro, cheguei a ficar um pouco tonta.

É duro admitir, mas fazer charme não era minha especialidade.

— Também não vejo problema nenhum — ele disse dando um sorriso por baixo da barba de Papai Noel que nada me lembrava de ho-ho-ho.

Ele parecia cheio de ideias, que eu não imaginava quais eram, mas já estava louca para poder ter uma participação.

Coloquei a mão no bolso de trás da calça na tentativa de encontrar as palavras certas para levar o assunto adiante. Só o que achei foram papeis de bala.

As probabilidades de eu esbarrar com Joel em outro lugar que não fosse o shopping eram muito pequenas. Eu morava longe, ele também, não tinha porque eu ficar perambulando por ali se não fosse para ganhar o pão de cada dia.

Ou seja, aquela era minha última chance.

Eu precisava de uma dose cavalar de coragem.

— Então...

— O quê? — ele perguntou afastando a barba acrílica da frente do rosto. — Você já está indo embora?

Perspicácia nunca foi a característica que melhor definia Joel, assim como praticidade não era a minha.

— É... Mais ou menos — respondi, talvez um pouco alto demais.

Era culpa do meu coração, que batia tão forte que chegava a ensurdecer meus ouvidos. Gente do céu, eu era muito ruim mesmo na arte de flertar, parecia que eu ia pular de um precipício e que ia me estatelar lá embaixo, como se não tivesse trazido os equipamentos de segurança necessários.

— Mais para mais ou mais para menos? — Joel perguntou. — Porque tivesse um tempo...

— Mais para menos — eu respondi, na mesma hora.

Ele ajeitava a barba de Papai Noel de um lado para o outro, sem nunca conseguir colocar no lugar certo. Que maldade fazer o funcionário se vestir daquela forma ridícula. O espírito natalino andava cada vez mais macabro.

Acrílico no meio do verão? Tinha algo mais cruel que isso?

— Ótimo, então! Eu tiro minha hora de almoço e a gente toma um sorvete, que tal?

— Um sorvete seria ótimo — eu disse, pensando que um sorvete só não era melhor que um beijo.

— Beleza. Não sai daqui, tá? Vou lá falar com meu chefe, tirar essa maldita roupa e já volto.

Fiz que sim com a cabeça. Até parece que eu iria a algum outro lugar.

Joel, o bonitão na loja de esportes me convidando para um sorvete, quem poderia prever?

Eu nunca!

Alexandra não tinha ideia do que dizia quando profetizou que eu iria ganhar meu presente de Natal mais cedo. E não tinha nada a ver com aquela demissão cheia de culpa a qual eu preferia nem pensar. Tinha tudo a ver com aquilo: Joel voltando para a neve fictícia de espuma barata com roupas de gente normal e um sorriso no rosto.

Alguém me precisava ajudar, ou me abanar. Eu não tinha condições de lidar com tanta beleza sozinha. Por mais que eu vivesse fantasiando aquelas coisas na minha cabeça o tempo todo, o convite dele meio que me pegou de surpresa.

Havia quem dissesse que Joel não era para o meu bico, que meus dezenove anos recém completados eram muito poucos em comparação aos quase trinta dele. As más línguas não sabiam o que falavam, ninguém mandava nas reviravoltas que aconteciam no meu estômago toda vez que ele sorria.

Nem mesmo eu.

— E aí, vamos? — ele perguntou. — Antes de você ir embora eu queria te pedir uma coisa.

Uma coisa? Eu pensei com meus botões. Desde quando beijos era classificado como coisa? Eu gostava de chamar beijos de experiências. Umas eram boas, outras eram ruins. Eu tinha o pressentimento de que o que estava por vir seria surpreendente.

Mas eu não podia esquecer que havia a possibilidade de não ser especificamente disso que ele estava falando. Que a coisa toda do beijo estava mais explícita na minha cabeça do que na nossa conversa.

— Vamos! Pode ser naquela sorveteria de sorvete italiano? Ela tem os melhores sabores.

— O que você quiser, Brida. Vai ser meu presente de despedida — ele disse com mais entusiasmo do que eu esperava para alguém que deveria estar sentido com minha partida.

— Por aqui — eu indiquei o caminho mais longo, só para não ter que passar na frente da Dollhouse.

Não era que eu quisesse evitar Alexandra. Mas ficaria uma situação um pouco chata se eu passasse toda-toda, curtindo no meu momento de lazer, enquanto ela e as outras bonecas, como ela chamava qualquer infeliz que trabalha no estabelecimento, estavam se matando de tanto trabalhar para dar conta da loucura de Natal e de cobrir a minha falta.

Além do mais, ela não era super a favor de ligações com outras pessoas que trabalhavam no shopping.

— Vai por mim, Brida — ela sempre dizia quando em mencionava alguma interação com pessoas das outras lojas. — Eu trabalho nesse shopping há cinco anos e sei do que estou falando. Não é saudável se envolver com alguém que trabalha aqui. E se alguma coisa der errado? Você vai ficar numa boa sendo assombrada pela possibilidade de trombar com o alvo do seu desconforto pelos corredores? Vou te dizer, não vai, não. Então o melhor que você faz é manter distância.

Alexandra se achava a senhora da razão de vez em quando.

A pior parte era que muitas das vezes ela estava certa.

Mas não dessa.

Ela tinha horror aos meninos da loja esportiva, tenho para mim que era algo relacionado com a descontração deles. Eles eram brincalhões, atléticos, todos umas graças. Ok, eles podiam ser expansivos demais de vez em quando, mas nada que não pudesse ser relevado ao levarmos em consideração o físico que eles tinham.

Mas não era assim que funcionava a cabeça de Alexandra, ela chegava a revirar os olhos quando eu usava esse argumento.

Especialmente se fosse sobre Joel.

Se eu não me engano, teve uma vez que ela até se tremeu quando eu tentei defender minha amizade com ele. Um gesto visceral de repulsa. Fiquei impressionada.

Cada vez mais ficava claro pra mim que Alexandra precisava dar uma relaxada.

Não que eu tivesse algo a ver com isso, longe de mim. Perseverei no caminho mais distante para não passar em frente a loja, e, consequentemente perto dela.

A missão foi cumprida com sucesso. Não trombamos com Alexandra nenhuma pelo caminho.

Enquanto isso, a fila do quiosque de sorvete estava tão grande quanto o esperado para essa época do ano. Eu e Joel ficamos encenando uma conversa de elevador enquanto a fila avançava lentamente.

Nenhum dos dois tocava no real assunto que importava: a coisa.

Seria muito melhor quando estivéssemos sentadinhos, bem bonitos, com nossos sorvetes a postos.

Eu não poderia imaginar situação mais romântica. Levando em consideração a decoração natalina do shopping, toda a cena ficaria com ares de filme de final do ano.

Só ia ficar faltando eu estar vestida com um vestido de bolinhas, pois sempre achei que vestidos assim sempre causavam uma senhora impressão na cena final de um filme. Principalmente quando o filme tinha beijo no final.

Eu estava quase certa de que aquele teria.

Escolhi até o sorvete de limão siciliano para combinar, dar um toque crítico à ocasião.

— Então, Brida, seu sorvete está gostoso?

Respondi que sim com a cabeça, junto dei um belo sorriso. Aquele era um daqueles momentos que uma pessoa conseguia se sentir uma Princesa Disney, só faltava mesmo a música de fundo. Mas eu não ligava. Tudo estava perfeito: o sorvete, o meu sorriso, o sorriso dele, a expectativa...

— Que bom — ele falou. — O meu também.

Nos concentramos nos nossos sorvetes por alguns segundos. Era verão, estava calor, era óbvio que eles derreteriam rápido. Era um assunto de força maior, não tinha como ser posto de lado.

— Então... — ele disse.

— Então... — eu fui pela mesma linha.

— Desculpa, é que eu tô nervoso — ele encolheu ligeiramente os ombros, eu quis agarrá-lo naquele mesmo momento.

Como ele conseguia? Ser tão fofo e sensual ao mesmo tempo? Com um simples encolher de ombros? Eu não fazia ideia, mas queria que as coisas avançassem logo de uma vez. O simples encolher de ombros dele me encheu de uma ansiedade muito complexa, como se meu tempo estivesse acabando e eu tivesse que agir rápido.

— Fala — eu incentivei.

— Então, a coisa que eu queria te pedir. Não é bem uma coisa.

Meu sorriso instintivamente se alargou, quer dizer então que ele pensava igual a mim? Que alegria.

— Eu desconfiava.

— Sério? — ele perguntou, surpreso. — Pensei que fosse tudo muito discreto, eu tento não misturar minha vida profissional com a pessoal, mas às vezes é difícil, né? Em especial quando estou na sinuca de bico em que estou. Por isso que eu queria te pedir esse favor.

— Favor? — eu repeti, um tanto quanto confusa.

Nunca tinha ouvido nenhum envolvimento amoroso ser chamado de favor antes. Soava errado. Como se quisesse dizer outra coisa.

— É, a coisa que eu queria era isso, que você me fizesse esse favor de entregar essa caixinha para Alexa.

QUEM É ALEXA?! ­— eu perguntei, agora em pânico, com o horror transparente em minha voz e provavelmente no meu rosto.

A sensação de que três baldes de gelo foram despejados em cima da minha cabeça escorreu por todo o meu corpo. Uma coisa horrorosa. Todo meu fogo foi apagado de uma hora para a outra, eu fiquei congelada na minha cadeira. Com o resto do sorvete derretendo na minha mão.

— Alexandra, sua gerente. Ou ex-gerente, melhor dizendo. Se por um acaso ela descobrisse quem foi que deu a caixinha enquanto você trabalhava lá, as chances de você ser despedida iam ser altas. Mas como você já está despedida, não corre esse perigo, né? Pode fazer o Natal do amigão aqui mais feliz numa boa. Não é o máximo? Não soa como um plano perfeito? Não tem como dar errado.

O que Joel não enxergava era que já estava dando errado.

Pelo menos para mim.

Cena III - Joel tirou Alexandra