Cena I - Alexandra tirou Brida

Cenas de um quase amigo oculto

Cena I - Alexandra tirou Brida

— Feliz Natal, você está demitida — minha chefe falou bem assim para mim enquanto ajeitava o pompom do seu gorro de Papai Noel.

Uma notícia assim, casual.

— Eu o quê? — me senti na obrigação de perguntar, só pra testar se era verdade.  

Natal e primeiro de abril eram épocas bem diferentes. E brincadeirinhas desse tipo não tinham graça em nenhuma época do ano.

— Você pode ser muitas coisas, Brida, mas nunca achei que fosse sonsa — Alexandra me acusou de olhos arregalados, como se ela não tivesse acreditando no que estava acontecendo.

Como se quem estivesse orquestrando esse horror natalino fosse outra pessoa, não ela. A gerente, que em tudo mandava. E assim do nada, na véspera de Natal, me mandava embora com uma mão na frente e outra atrás. Onde foi parar o espírito natalino das pessoas? Foi dado como brinde nas promoções da loja?

Compre uma sapatilha e leve toda a bondade contida no recinto?

Isso não soava como uma boa estratégia de marketing.

— Duas horas de atraso, Brida? Como que você me explica isso? Assim fica impossível eu conseguir te manter aqui — ela disse retorcendo a mão, olhando para os lados de um jeito furtivo, desconfortável com a situação.

A possibilidade da pegadinha passou outra vez pela minha cabeça. Seria possível?! Com a loja fervilhando com clientes ávidos para comprar qualquer coisa na véspera de Natal? Pouco provável. Não era o estilo de Alexandra fazer uma maldade dessa magnitude.

Muito menos numa hora de ação como aquela, na qual tínhamos uma gama de clientes para atender.

Alexandra era o tipo de gerente que vivia para o trabalho, isso me dava um pouco de raiva. Ela não percebia que estava perdendo a pouca juventude que lhe sobrava ali? Eu percebia, de longe, as rugas se formando no seu rosto toda vez que ela tinha que fazer algo que não gostava.

Me despedir, por exemplo.

Talvez, se eu explicasse direitinho o que foi que aconteceu, tivesse alguma chance de conservar meu emprego.

— Você já ouviu falar de engarrafamento de Natal? — perguntei.

Alexandra deu um suspiro na mesma hora.  

— Eu já ouvi até sobre suspeita de tsunami na Baía de Guanabara vindo de você — ela parecia quase triste ao relembrar a minha anedota.

Achei uma pena. A possibilidade de um tsunami na Baía de Guanabara era tão improvável quanto engraçada. Mas talvez só quem morasse em Niteroi podia entender a graça.

Minhas entranhas se encolheram um pouco. Às vezes eu tinha uma imaginação mais fértil do que gostaria. Mas em minha defesa, o trânsito de Natal não era invenção. Eu realmente passei por maus bocados para chegar ali.

Não dava para ver na minha cara? Será que Alexandra não sabe diferenciar a mentira da verdade?

Talvez não seja culpa dela. Vai ver eu sabia mentir muito bem.

— Você estava pedindo para ser demitida, Brida. Agora aconteceu. Parabéns, Papai Noel bateu mais cedo na sua porta e não foi porque você foi uma boa menina.

— Alexandra, eu... — encolhi meus ombros até eles chegarem perto das minhas orelhas. 

— Não se preocupa. A empresa vai pagar todos os seus direitos, vamos fazer tudo de uma forma honesta — ela ressaltou.

Coisa que fez eu me sentir ainda mais desonesta com a situação. Ela estava certa, eu vinha pedindo para ser demitida, mesmo que inconscientemente. E já fazia algum tempo. Os atrasos, as indisposições e até mesmo as cólicas faziam parte do meu repertório de desculpas para não trabalhar como deveria.

Eu não esperava que meu plano maligno fosse dar certo justo hoje.

Ser despedida era muito baixo astral. Ser despedida por motivos de desonestidade na Véspera de Natal, mais ainda. O arrependimento bateu na hora.

Alexandra tampouco parecia muito feliz com a decisão. Eu fiquei ali no meio da loja com o lábio trêmulo, meu nariz pinicando, enquanto isso Alexandra esticou a mão e fez um carinho no meu ombro.

No fundo, não era má pessoa.

Controladora? Sim. Mandona? Com certeza. Certinha demais para o meu gosto? Sem dúvidas.

Mas no fim das contas ela só estava cumprindo ordens. Não podia fazer muito além do que era requisitado pela odiosa Carolina, dona da Dollhouse desde que o mundo era mundo.

— Me desculpa Alexandra, eu juro que vou melhorar. Sei que já falei isso antes, mas agora é sério. Sei que você e as meninas vão ficar prejudicadas se eu não trabalhar hoje, isso aqui vai ficar uma loucura, um par de mãos a mais vai fazer toda a diferença na hora de pegar sapatos na última prateleira da estante. Eu sou rápida em subir as escadas.

­— Você já falou que era sério antes — Alexandra ressaltou. — E eu acreditei.

Aquela mulher tinha uma memória de elefante. Eu hein! Não deixava nem sequer os detalhes mais inofensivos passarem? Nem mesmo nas datas comemorativas?

— Entenda, Brida, não é nada pessoal — ela deu um apertão no meu ombro quando falou. — Eu gosto de você como pessoa, muito. Mas como funcionária você deixa a desejar, não sou só eu quem estou falando. E eu não posso contar com alguém que não posso confiar. E não vou mentir, é difícil confiar quando você não tem o mínimo compromisso com o horário.

Então eu comecei a chorar.

Lágrimas grossas rolaram pelo meu rosto e eu pensava: que horror, eu sou uma pessoa desprezível. Não tinha jeito de consertar as burradas que eu fiz? Sei lá, voltar no tempo, só por umas horinhas, acordar mais cedo, chegar na hora, fazer as coisas com mais empenho, sei lá...

Fiquei um tempo lá, paradona, pensando nas possibilidades.

— Pelo menos você vai aproveitar o Natal mais cedo com a sua família — Alexandra contrapôs me dando tapinhas gentis no ombro.

Fiquei sem-graça de ela ter que sinalizar o lado bom da situação quando ela mesma não teria a mesma sorte. Trabalhar em shopping era dureza. Não existia feriado, nem final de semana. O que tinha era uma competitividade absurda e muitas cobranças sem sentido.

Especialmente nessa época do ano, eu vinha notando.

Alexandra provavelmente já estava cansada de saber, pois trabalhava ali na Dollhouse fazia uns bons anos.

Ou ruins, eu não sei, nunca me ocorreu perguntar.

E aquela não era a hora mais apropriada.

Uma cliente chegou e ela me lançou um olhar estrangulado, todas as outras meninas estavam ocupadas, o que significava que ela tinha que atender. Na verdade, significava que eu tinha que atender, mas tendo em vista que eu não trabalhava mais lá, só joguei minha mochila de volta nos ombros e saí andando de fininho.  

Ou correndo de fininho, se é que isso era possível.

Sem prestar muita atenção no que eu poderia encontrar pelo caminho.

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Oi, gente! Primeiramente, FELIZ NATAL! Esse é o segundo conto que posto aqui na plataforma e torço muito pra que vocês gostem! Se quiserem me contar nos comentários, inclusive vou amar!

A Brida é uma personagem que mora há muito tempo na minha cabeça e participa de outros livros meus, mas esse foi o primeiro texto que eu concluí sobre ela. O resto eu escrevo e apago, hihihi. Talvez seja  por isso que minha torcida para que vocês gostem dela tá tão forte, para me dar o famoso GÁS pra continuar escrevendo sobre. 

Só pra esclarecer:  o conto tem 3 partes e vou tentar concluir antes do ano novo, mas na verdade depende da minha disponibilidade/animação pra postar aqui. (comentários sempre ajudam)

Por falar em ajuda! Quem quiser me ajudar ainda mais me seguindo nas redes sociais, elas são: Instagram (@aimeeolivei) | Twitter (@aimeeuh) | Página do Facebook (/umaAimeeOliveira). Também tá rolando SORTEIO valendo um exemplar do livro "Uma Curva no Tempo" da Dani Atkins no meu grupo do Facebook (invisibilidade & aimee oliveira) 

(não coloquei os links, pois não sei se eles pegam aqui) (no Wattpad não pegam). 

Muito obrigada por lerem minha história e DESCULPA pelo recadinho imenso. Serei mais contida no próximo.

Só queria conhecer melhor vocês. 

Beijos estrelados, 
Aimee*

Cena II - Brida tirou Joel